ALCOOLISMO: Quando falar e quando calar

Desabafar pode aliviar. Mas o que acontece quando contar a mesma história deixa de produzir escuta e passa apenas a repetir a dor?
Desabafar, gritar, soltar tudo o que nos machuca, colocar para fora todo ressentimento, medo, culpa, tristeza e dor.
“Eu já repeti isso para ele mil vezes, mas ele não me escuta.”
“Ela faz o que quer e não está nem aí para nada.”
“Eu só queria que alguém entendesse o que estou passando.”
Falamos com um amigo, alguém da família, um desconhecido sentado ao nosso lado ou com o garçom que, entre um copo e outro, acaba ouvindo histórias que talvez não contaríamos em nenhum outro lugar. Em alguns momentos, procuramos uma resposta. Em outros, um ombro. Às vezes, queremos apenas que alguém confirme que não estamos loucos, errados ou exagerando.
Também compartilhamos alegrias, conquistas e acontecimentos felizes. No entanto, quando algo dói, a necessidade de falar parece ganhar urgência. A frase fica entalada. Volta durante o banho, no caminho para o trabalho, antes de dormir. Então contamos. E contamos novamente.
Mas o que procuramos quando repetimos a mesma história?
E, principalmente: o que realmente ganhamos ao desabafar?
TODA FALA PROCURA ALGUMA COISA
Quando eu era jovem, um amigo disse uma frase da qual ainda me recordo:
“Todos temos interesses.”
Na época, a frase me pareceu quase uma acusação. Como se ter interesse significasse necessariamente manipular, enganar ou querer levar vantagem. Hoje penso de outra maneira. Nossas ações possuem algum movimento, mesmo quando não conseguimos identificá-lo. Também falamos movidos por desejos, necessidades, medos e expectativas.
Ao desabafar, podemos procurar acolhimento, conselho, proteção, concordância ou absolvição. Podemos querer que o outro mude, peça desculpas, reconheça nosso sofrimento ou simplesmente permaneça ao nosso lado.
Em algumas ocasiões, pedimos ajuda sem saber que estamos pedindo. Em outras, fazemos uma pergunta para a qual só aceitamos uma resposta: aquela que confirma o que já pensamos.
Há ainda momentos em que não queremos solucionar nada. Queremos companhia para suportar aquilo que, naquele instante, parece insuportável. E não há necessariamente algo de errado nisso.
O problema começa quando não sabemos o que esperamos da fala. Se não conseguimos reconhecer minimamente nossa intenção, qualquer resposta poderá parecer insuficiente. O amigo oferece conselho, mas queríamos acolhimento. A família tenta acalmar, mas queríamos reconhecimento. A pessoa apenas escuta, mas esperávamos que tomasse uma atitude.
Falamos, não recebemos aquilo que procurávamos e concluímos:
“Ninguém me entende.”
Talvez ninguém tenha entendido mesmo. Mas também é possível que nós não soubéssemos o que estávamos tentando dizer.
FALAR NÃO É O MESMO QUE ELABORAR
Colocar sentimentos em palavras pode ajudar a organizar uma experiência. Pesquisas sobre nomeação das emoções sugerem que identificar verbalmente aquilo que sentimos pode modificar nossa resposta emocional. Isso, porém, não significa que falar sempre transforma, muito menos que qualquer desabafo funcione como tratamento. Dar nome a um sentimento não é o mesmo que compreender tudo o que o produz.
Compartilhar uma emoção também pode diminuir a duração imediata de um episódio emocional. Entretanto, isso não significou necessariamente uma redução da intensidade emocional que permaneceu algum tempo depois. Em outras palavras: falar pode aliviar sem resolver.
Talvez seja justamente por isso que voltamos à mesma história.
O alívio chega, mas passa. O problema continua. Então procuramos outra pessoa, outra conversa, outro tratamento, outra noite, outro copo.
Podemos contar a mesma situação de inúmeras maneiras, acrescentar detalhes, reconstruir diálogos e imaginar tudo o que deveríamos ter falado. Ainda assim, repetir uma história não significa necessariamente compreendê-la.
Às vezes, a repetição é justamente a forma encontrada para não chegar ao ponto que mais dói.
Há diferença entre falar, desabafar, ruminar e elaborar.
Falar é amplo: comunicamos algo.
Desabafar procura diminuir uma pressão interna.
Ruminar é retornar insistentemente ao problema, muitas vezes girando em torno das mesmas interpretações.
Elaborar exige outro movimento. É conseguir construir relações, suportar perguntas, encontrar contradições e reconhecer que talvez a história não seja formada apenas por vilões completamente maus e vítimas completamente passivas.
O conceito de corruminação descreve bem essas conversas excessivamente concentradas nos aspectos negativos de um problema, com repetição de detalhes, conjecturas e sentimentos. Essas conversas podem aumentar a sensação de proximidade entre as pessoas e, ao mesmo tempo, estar associadas a maior sofrimento emocional. O conceito surgiu em pesquisas sobre amizades e não deve ser usado para diagnosticar qualquer conversa repetitiva, mas ajuda a mostrar que intimidade e adoecimento podem, em certas situações, caminhar juntos.
Duas pessoas podem passar horas falando sobre uma dor e sair da conversa mais próximas. Mas isso não significa que estejam mais próximas de compreender o problema.
O DISCO RISCADO
Digo isso também por experiência própria.
Ainda hoje, mesmo sem beber, posso me transformar em um disco riscado. Volto ao mesmo ponto, reconstruo a cena, repito os argumentos e tento demonstrar, mais uma vez, todos os pormenores de determinada situação.
A repetição pode oferecer uma sensação de controle. A história já aconteceu, mas, ao contá-la, reorganizamos os personagens, explicamos as intenções e construímos uma versão na qual tudo parece fazer sentido.
Às vezes, não queremos encontrar algo novo. Queremos vencer novamente uma discussão antiga.
Não considero que toda repetição seja inútil. Há experiências que precisam ser contadas muitas vezes até que consigamos nos aproximar delas. Certos acontecimentos são difíceis de suportar, reconhecer e simbolizar. A mesma história pode adquirir significados diferentes ao longo do tempo.
Entretanto, há uma diferença entre retornar a uma experiência e apenas andar em círculos ao redor dela.
O problema começa quando a fala não abre pergunta alguma, não modifica nossa posição e não encontra nenhum destino além da própria repetição. Nesse momento, ela pode se transformar em ruído — não porque a dor seja falsa ou sem importância, mas porque a maneira de contá-la deixou de produzir escuta.
A pessoa fala, mas já não consegue se ouvir.
O ouvinte, mesmo bem-intencionado, também se desgasta. Pode ficar com medo de discordar, sentir-se obrigado a apresentar soluções ou perceber que qualquer resposta será recebida como abandono, crítica ou falta de compreensão.
Escutar alguém não significa concordar com tudo, aceitar agressões ou assumir a responsabilidade de resolver a vida daquela pessoa.
Da mesma forma, sofrer não nos concede automaticamente o direito de transformar o outro em recipiente permanente de nossa angústia.
O ÁLCOOL SOLTA A LÍNGUA, MAS NÃO REVELA UMA ESSÊNCIA
No alcoolismo, essa questão ganha outras camadas.
Muitas pessoas bebem para desligar, silenciar pensamentos, suportar conflitos ou diminuir temporariamente a ansiedade. Entretanto, o mesmo álcool usado para calar pode produzir uma fala desorganizada, repetitiva, agressiva ou excessivamente emotiva.
O sujeito bebe para esquecer e passa a noite inteira falando sobre aquilo que queria esquecer.
Nesse contexto, aparece uma ideia bastante difundida:
“Quando está bêbado, ele fala a verdade.”
Ou:
“A bebida apenas revelou quem ela realmente é.”
Essa conclusão parece simples, mas não se sustenta.
O álcool pode prejudicar o controle inibitório, isto é, a capacidade de interromper ou conter respostas. Uma meta-análise de estudos experimentais confirmou que a intoxicação aguda prejudica, em média, a inibição de respostas, embora os efeitos variem conforme condições e indivíduos.
A teoria da miopia alcoólica, proposta por Claude Steele e Robert Josephs, acrescenta que a intoxicação pode estreitar o campo de atenção. A pessoa fica mais concentrada nos estímulos imediatos e salientes, enquanto consequências, nuances e informações concorrentes perdem força.
Isso significa que uma mágoa presente pode ocupar todo o cenário. Uma provocação pode parecer enorme. Uma consequência futura pode desaparecer. Um pensamento que normalmente seria relativizado pode ganhar o tamanho de uma certeza absoluta.
O que uma pessoa diz embriagada pode, evidentemente, ter alguma relação com seus sentimentos, conflitos e experiências. Mas isso não transforma a embriaguez em soro da verdade.
A embriaguez não revela uma essência escondida e intacta. Ela altera as condições em que a pessoa percebe, interpreta, fala e age. O que aparece pode pertencer a ela, mas aparece recortado, amplificado e desorganizado por aquele estado.
Não podemos usar o álcool para absolver alguém de toda responsabilidade:
“Eu não sabia o que estava fazendo.”
Também não podemos tratar tudo o que foi dito como a verdade definitiva:
“Agora eu conheço quem você realmente é.”
Nos dois casos, simplificamos uma situação complexa.
O álcool também não causa automaticamente violência. No entanto, ao prejudicar a inibição e reduzir a atenção às consequências ou aos sinais que poderiam conter uma reação, pode aumentar os riscos em contextos nos quais já existem hostilidade, conflito, impulsividade e provocação.
Por isso, nem toda conversa precisa acontecer naquele instante. Há momentos em que calar, afastar-se ou interromper uma discussão não é covardia. É proteção.
ESCUTAR O QUE DIZEMOS
Em uma leitura psicanalítica, falar não serve apenas para informar algo ao outro. Ao falar, podemos escutar nossas escolhas de palavras, contradições, esquecimentos, repetições e mudanças de posição.
Freud, em Recordar, repetir e elaborar, chamou atenção para o fato de que nem tudo aquilo que não conseguimos recordar aparece na forma de uma memória clara. Podemos repetir, em nossos atos e relações, algo que ainda não reconhecemos como repetição.
Talvez seja por isso que uma pessoa possa compreender intelectualmente que certa relação lhe faz mal e, ainda assim, construir outra muito parecida. Ou reconhecer os prejuízos do álcool e voltar a beber. Saber não significa, automaticamente, conseguir agir de maneira diferente.
A associação livre (técnica psicanalítica) nesse sentido, não é simplesmente despejar tudo o que passa pela cabeça até sentir cansaço. A fala pode ser livre, mas o trabalho começa quando a pessoa também consegue se ouvir.
Quais palavras sempre retornam?
Quem aparece constantemente como culpado?
Qual é o meu lugar na história que conto?
O que muda quando mudo de interlocutor?
O que eu digo que quero — e o que faço quando surge a possibilidade de conseguir?
Implicar-se não significa culpar-se por tudo. Também não significa negar violências, injustiças ou abandonos realmente sofridos.
Responsabilizar-se é diferente de assumir uma culpa total. É reconhecer a parcela de ação possível no presente, mesmo quando não fomos responsáveis pelo que nos aconteceu.
Lya Luft, em Perdas e ganhos, escreve que não somos apenas vítimas de fatalidades, mas também participantes de nossa vida. Essa ideia não significa que controlamos tudo. Condições sociais, doenças, perdas, acidentes e ações de outras pessoas atravessam nossa existência. Ainda assim, entre aquilo que nos acontece e aquilo que fazemos com o acontecido, pode existir algum espaço — às vezes amplo, às vezes quase invisível.
Talvez o bem viver não seja uma vida sem angústia, perda ou conflito. Talvez seja a construção possível de uma vida na qual não entregamos permanentemente ao álcool, ao passado ou ao outro a responsabilidade de decidir nosso próximo movimento.
AFINAL, QUANDO FALAR E QUANDO CALAR?
Não existe uma resposta válida para todas as situações.
Há silêncios que adoecem. Silêncios impostos pelo medo, pela vergonha, pela violência ou pela crença de que ninguém suportará ouvir nossa verdade.
Há também falas que salvam. Pedir ajuda, contar que voltamos a beber, admitir que perdemos o controle ou dizer que não estamos bem pode interromper uma sequência perigosa.
Mas há silêncios que protegem. Não discutir enquanto alguém está embriagado. Não responder imediatamente a uma provocação. Esperar que o corpo e a cabeça recuperem alguma condição de escolha.
E há falas que apenas prolongam o sofrimento.
Antes de desabafar, talvez seja útil perguntar:
O que espero de quem vai me escutar?
Quero acolhimento, conselho, confirmação ou uma solução?
Quero compreender o que aconteceu ou apenas provar novamente que estou certo?
Estou disposto a ouvir algo diferente daquilo que desejo?
Existe alguma ação possível depois dessa conversa?
Preciso de um amigo, de um familiar, de um grupo de apoio ou de acompanhamento profissional?
Nem toda conversa precisa produzir uma solução. Às vezes, ser acolhido já é muito. O cuidado está em não confundir acolhimento com transformação, nem alívio com elaboração.
Falar pode abrir um caminho.
Mas, para isso, talvez não baste colocar para fora tudo o que está entalado. É preciso escutar o que saiu, reconhecer o que volta e decidir o que fazer com aquilo.
A sobriedade não nos obriga a dizer tudo. Também não nos condena ao silêncio.
Ela pode devolver algo mais difícil: a responsabilidade de escolher quando falar, com quem falar, por que falar — e o que fazer depois que as palavras terminam.
Rafa Pessato


