ÁLCOOL E DEPRESSÃO: “De uns tempos para cá, nem o álcool tem me alegrado mais”

Segundo Gilberto, a médica o questionou com firmeza:
— O que você fez com ela?
Ele respondeu que não havia feito nada.
— Ela apenas bebeu.
Mas apenas beber — sobretudo a quantidade que ele havia informado — não explicaria, segundo a médica, o estado em que eu estava.
Então ele disse:
— Acho que ela não quer mais viver.
Naquele dia, eu realmente não tinha bebido “tanto” para os meus padrões habituais. E eu queria viver, sim. Queria muito.
O que eu não queria era aquela vida.
Eu estava cansada dela, de mim dentro dela e do esforço necessário para continuar sustentando tudo. Ao mesmo tempo, não tinha desejo de abandonar o álcool, porque acreditava que era justamente ele que me mantinha de pé.
Eu não queria morrer.
Queria descansar.
Queria tirar o peso por algumas horas.
Por isso, quando alguém me escreve: “de uns tempos para cá, nem o álcool tem me alegrado mais”, lembro da minha própria história e de como a substância que me ajudava a suportar a vida começou a perder a capacidade de fazê-lo. E isso pode ser assustador.
QUANDO NEM O ÁLCOOL FUNCIONA MAIS
Estar triste não significa estar deprimido.
A tristeza faz parte da vida. Pode surgir diante de uma perda, de uma frustração, de uma mudança ou simplesmente de períodos em que existir pesa mais.
A depressão é diferente. Ela começa a ocupar espaços maiores. O prazer diminui, a disposição desaparece, aquilo que antes interessava perde a graça. Às vezes, a pessoa continua trabalhando, conversando, cumprindo compromissos e até rindo. Mas alguma coisa por dentro vai se apagando.
O álcool pode confundir ainda mais essa percepção.
No início, ele relaxa, desinibe, aproxima pessoas, silencia pensamentos e produz uma sensação rápida de alívio. Para quem sofre, isso pode parecer uma solução bastante eficiente.
E justamente por funcionar, volta-se a ele.
Bebe-se porque o dia foi ruim.
Porque houve uma briga.
Porque existe ansiedade.
Porque estamos sozinhos.
Porque estamos acompanhados e não sabemos muito bem quem somos naquele grupo sem beber.
Porque queremos dormir.
Porque queremos esquecer.
Ou porque queremos, durante algumas horas, ser uma versão de nós mesmos que parece mais fácil de suportar.
Aos poucos, entretanto, aquilo que aliviava começa também a participar do sofrimento.
É aí que álcool e depressão podem se misturar de uma maneira difícil de separar.
ESTOU DEPRIMIDO OU O ÁLCOOL ESTÁ ME DEIXANDO ASSIM?
Durante muito tempo, essa pergunta pode parecer ter apenas duas respostas: ou eu bebo porque estou deprimido, ou estou deprimido porque bebo.
Na prática, a relação costuma ser menos organizada.
Há pessoas que já estavam deprimidas e encontraram no álcool uma maneira de suportar o que sentiam. Há outras em quem o consumo frequente começa a piorar o sono, a ansiedade, o humor e a capacidade de sentir prazer. E há aquelas para quem já não é possível identificar uma fronteira tão clara.
Uma coisa passa a alimentar a outra.
A medicina observa essa relação pelo corpo e pelo cérebro: o álcool modifica sistemas ligados ao prazer, à recompensa, ao estresse e ao sono. Com o uso repetido, pode acontecer algo perverso: a pessoa já não bebe somente para se sentir bem, mas para deixar de se sentir tão mal.
A psicanálise olha para outra parte da mesma experiência e pergunta: que função essa bebida está cumprindo?
O que ela silencia?
O que ela permite?
Do que ela me protege?
Não considero essas duas perspectivas incompatíveis.
O cérebro aprende que o álcool alivia. A pessoa também aprende.
O corpo registra.
A memória registra.
A vida social registra.
E, em determinado momento, abrir uma garrafa pode deixar de ser apenas abrir uma garrafa. Pode significar coragem, companhia, descanso, pertencimento, esquecimento ou anestesia.
Por isso, dizer simplesmente “é só parar de beber” não alcança tudo o que está acontecendo.
É preciso compreender também o lugar que aquela bebida passou a ocupar.
EU QUERIA VIVER. MAS NÃO DAQUELE JEITO
Eu queria viver, mas não aquela vida na qual apenas o álcool conseguia me fazer sentir pertencente, interessante, sociável ou aceitável.
Essa diferença é importante para mim.
Quando Gilberto disse à médica que achava que eu não queria mais viver, ele estava tentando compreender, de fora, algo que nem eu conseguia explicar direito por dentro.
Eu queria viver.
Mas havia momentos em que não queria sentir.
E acredito que muita gente que bebe excessivamente conhece essa diferença, ainda que nunca tenha colocado essas palavras nela.
Nem sempre bebemos porque queremos festa.
Às vezes bebemos porque queremos silêncio.
O álcool pode funcionar como uma defesa contra aquilo que ainda não conseguimos elaborar. Angústia, vergonha, medo, inadequação, solidão, culpa, vazio.
Não significa que todo alcoolista esteja fugindo de um trauma oculto nem que exista uma explicação profunda por trás de cada copo.
Significa apenas que vale perguntar por que algumas emoções parecem exigir álcool para serem suportadas.
Com o tempo, a defesa pode se transformar em prisão.
Aquilo que antes me ajudava a não sentir demais começa também a diminuir minha capacidade de sentir prazer sem ele.
E então surge uma frase como:
“Nem o álcool tem me alegrado mais.”
QUANDO A ANESTESIA DEIXA DE ANESTESIAR
Talvez uma das experiências mais dolorosas da dependência seja perceber que aquilo que durante anos funcionou começou a falhar.
Antes, beber resolvia alguma coisa.
Ainda que temporariamente.
Produzia entusiasmo. Aliviava a tensão. Facilitava uma conversa. Ajudava a atravessar uma noite. Fazia esquecer.
Depois, chega um momento em que se bebe e o vazio continua ali.
Ou volta mais rápido.
A pessoa aumenta a quantidade, muda a bebida, muda o lugar, muda a companhia — e percebe que o problema talvez já não esteja no copo.
Esse momento pode ser profundamente triste.
Mas também pode revelar alguma coisa.
Não necessariamente que a pessoa “chegou ao fundo do poço”, expressão da qual nunca gostei muito.
Pode simplesmente significar que uma estratégia antiga de sobrevivência deixou de funcionar.
E então surge uma pergunta mais difícil do que “como faço para beber menos?”:
o que eu estava tentando conseguir quando bebia?
Descanso?
Coragem?
Pertencimento?
Esquecimento?
Liberdade?
Silêncio?
Afeto?
Porque, se eu retirar o álcool sem compreender minimamente aquilo que ele fazia por mim, ficarei diante da mesma necessidade — só que agora sem a antiga resposta.
Foi uma das coisas que precisei compreender sobre a minha própria relação com a bebida.
O álcool não era apenas o problema.
Durante muito tempo, também foi a solução que encontrei.
Uma solução que depois passou a criar outros problemas, é verdade. Mas ignorar a função que ele teve na minha vida seria contar apenas metade da história.
DEPRESSÃO NÃO É FRAQUEZA, E BEBER TAMBÉM NÃO CURA TRISTEZA
Ainda existe muito preconceito em relação à saúde mental.
Temos mais informações, mais pesquisas e mais pessoas falando sobre o assunto. Mesmo assim, continuamos tratando a mente como se fosse menos concreta do que o restante do corpo.
Uma dor física persistente nos preocupa.
Uma tristeza persistente, muitas vezes, tentamos esconder.
E existe ainda a obrigação contemporânea de parecer bem.
Ser feliz tornou-se quase uma demonstração de competência. Quem está triste por tempo demais começa não apenas a sofrer, mas também a se sentir inadequado por estar sofrendo.
Nesse cenário, o álcool encontra terreno fértil.
Ele oferece algumas horas de suspensão.
Mas suspensão não é elaboração.
Anestesia não é descanso.
E esquecer durante algumas horas não significa que aquilo deixou de existir.
Por isso, quando alguém percebe que já não encontra prazer em quase nada, que precisa beber para se sentir minimamente bem ou que nem mesmo a bebida consegue produzir o alívio de antes, talvez seja importante não tratar isso como frescura, fraqueza ou simples falta de força de vontade.
Há alguma coisa acontecendo.
E ela merece ser escutada antes de precisar gritar.
Hoje consigo olhar para aquela mulher sobre quem disseram “acho que ela não quer mais viver” com uma compreensão diferente.
Ela queria viver.
Só ainda não sabia muito bem como viver sem beber.
E descobrir isso não aconteceu de uma vez.
Aconteceu no corpo, nos dias comuns, nas noites difíceis, nas relações que precisei reconstruir e na descoberta desconfortável de que estar sóbria não resolveria automaticamente aquilo que eu usava o álcool para evitar.
Mas havia uma diferença fundamental:
sóbria, eu finalmente poderia descobrir o que era.
Talvez seja por isso que a frase “nem o álcool tem me alegrado mais” me toque tanto.
Porque existe um momento em que a bebida já não consegue fazer por nós aquilo que prometia.
E, por mais doloroso que seja, pode ser justamente aí que começamos a perceber que precisamos procurar a resposta em outro lugar.
Não necessariamente uma resposta grandiosa.
Às vezes, o começo é muito mais simples.
Dormir.
Comer.
Pedir ajuda.
Dizer que não está bem.
Passar um dia sem anestesiar imediatamente aquilo que apareceu.
Escutar o próprio corpo.
Suportar uma conversa.
Descobrir, pouco a pouco, quem somos quando não precisamos beber para conseguir estar conosco.
Eu queria viver.
Só precisei aprender que viver e suportar a vida não eram exatamente a mesma coisa.
Rafa Pessato


