SE ALCOOLISMO NÃO É APENAS SOBRE ÁLCOOL, É SOBRE O QUÊ? 

Antes de parar de beber, eu pensava em alcoolismo como sendo quase sinônimo do álcool. 

A pessoa bebe demais, perde o controle, sofre consequências, tenta parar, volta a beber. O álcool está no centro da cena e, evidentemente, não pode ser retirado dela. Pois não existe alcoolismo sem álcool. 

Mas existe uma pergunta que começa justamente quando essa resposta deixa de ser suficiente:  

Se alcoolismo não é apenas sobre álcool, é sobre o quê? 

Do recorte que mais me interessa — o da psicanálise e da filosofia —, eu diria que alcoolismo é, em grande parte, sobre angústia. 

Não angústia no sentido estreito de tristeza, trauma ou sofrimento emocional. Nem como uma causa única que explicaria por que alguém se torna alcoolista. Estou falando da angústia como algo mais fundamental da experiência humana: aquilo que aparece diante da falta, do desejo, da liberdade, do vazio, da incerteza de existir e de ter de lidar com uma vida que não vem pronta. 

Escrever apenas “alcoolismo é sobre angústia”, porém, ainda diz pouco. 

Angústia de quê? E o que o álcool tem a ver com isso? 

É SOBRE AS FESTAS DA FAMÍLIA ENQUANTO A GENTE AINDA ERA CRIANÇA 

Antes de beber, nós vimos gente bebendo. 

Vimos o copo na mesa, o brinde, a cerveja do churrasco, o vinho da comemoração. Vimos adultos ficarem mais falantes, mais alegres, às vezes mais agressivos ou mais tristes. Aprendemos muito cedo que determinadas situações combinavam com bebida. 

Não quero dizer que uma criança que cresce vendo adultos beberem será alcoolista. O ponto é outro: ninguém encontra o álcool como uma substância sem significado. 

Quando bebemos pela primeira vez, já existe uma história em volta daquela bebida. 

Ela pode significar passagem para a vida adulta, celebração, pertencimento, transgressão, descanso, prazer. Pode representar aquilo que se faz quando alguma coisa boa acontece — e também quando alguma coisa ruim acontece. 

A bebida entra numa vida que já está cheia de símbolos, relações, expectativas e faltas. 

Talvez por isso, mais tarde, seja tão difícil separar o álcool daquilo que acreditamos encontrar nele. 

É SOBRE SE SENTIR DIFERENTE — E AINDA ASSIM PRECISAR ESTAR ENTRE OS OUTROS 

Há pessoas para quem estar entre os outros parece relativamente simples. Para outras (como eu) não. 

Você vai à festa, conversa, participa, mas alguma parte sua permanece observando a própria participação. 

Será que estou falando demais? 

Será que estou quieta demais? 

O que esperam de mim? 

Por que todo mundo parece saber como fazer isso? 

E então você bebe. 

A vigilância diminui. O corpo relaxa. A conversa parece menos trabalhosa. Talvez você se sinta mais engraçado, interessante, corajoso, espontâneo. 

O álcool não criou necessariamente aquela dificuldade de estar entre os outros. Em algum momento, porém, pode ter aparecido como uma solução para ela. 

Isso muda a pergunta. 

Em vez de perguntar somente “por que essa pessoa bebe tanto?”, talvez seja necessário perguntar também: 

O que acontece com ela quando bebe que parece tão difícil conseguir de outro modo? 

A psicanálise me interessa justamente porque desloca o olhar do objeto isolado para a relação que o sujeito estabelece com ele. 

A bebida continua importando. 

Mas importa também a função que ela adquire. 

É SOBRE GOSTAR 

Existe outra parte dessa história que não deveria ser apagada: o prazer. 

Eu gostava de beber. 

Gostava da expectativa, da primeira dose, da mudança de estado. Gostava de como a bebida ampliava a comemoração, a animação, a sensação de prazer. 

Falar disso não diminui os danos do alcoolismo. Ao contrário: ajuda a compreender sua força. 

Se a bebida oferecesse apenas sofrimento, seria muito mais simples abandoná-la. O problema é que, durante algum tempo, ela oferece alguma coisa percebida como “positiva”.  

Alívio, excitação, coragem, pertencimento, suspensão. 

Às vezes, oferece a sensação de que a vida ficou maior. 

E talvez aqui apareça uma das contradições mais importantes do alcoolismo: aquilo que parecia ampliar a vida começa, pouco a pouco, a estreitá-la. 

A pessoa continua buscando na bebida uma promessa que ela já não cumpre como antes. 

Ainda existe a lembrança daquela primeira transformação. Ainda existe o desejo de chegar novamente àquele ponto. Mas agora é preciso beber mais, ou beber de novo, ou continuar quando já seria hora de parar. 

O prazer começa a conviver com a repetição. 

E a repetição, com o excesso. 

É SOBRE O EXCESSO 

Excesso não significa apenas quantidade. 

Podemos contar doses, dias, garrafas, episódios. Isso é importante quando estamos avaliando riscos e consequências. 

Mas o excesso também pode ser pensado como uma relação: o momento em que alguma coisa passa a ocupar um lugar grande demais na tentativa de responder ao que sentimos, desejamos ou não conseguimos suportar. 

A bebida começa a servir para muitas coisas: Comemorar. Descansar. Socializar. Transar. Dormir. Esquecer. Suportar. Criar coragem. Diminuir o pensamento. Aumentar a emoção. 

Quanto mais funções uma coisa assume, mais difícil fica imaginar a vida sem ela. 

Talvez seja por isso que parar de beber não seja apenas deixar de ingerir álcool. É também encontrar o que aparece quando aquela solução não está mais disponível. 

E aí a angústia retorna. 

É SOBRE TODOS OS “AH, MAS…” 

Ah, mas eu trabalho. 

Ah, mas eu nunca bati o carro. 

Ah, mas eu só bebo à noite. 

Ah, mas todo mundo bebe. 

Ah, mas fulano bebe muito mais. 

Ah, mas eu consigo parar quando quero. 

Ah, mas hoje eu mereço. 

Apenas justificativas?  

Refletir sobre esses argumentos importa, pois talvez exista um ponto em que sabemos alguma coisa sobre como a bebida nos afeta, e, ao mesmo tempo, não queremos saber completamente. 

Não é necessariamente uma mentira calculada. 

Às vezes, o “ah, mas…” é a pequena construção que torna possível continuar mais um dia sem enfrentar uma contradição que já se tornou evidente. 

  • Eu quero continuar bebendo. 
  • Eu não quero continuar vivendo as consequências de beber. 

As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. 

E nenhuma explicação puramente moral dá conta dessa divisão. 

É TAMBÉM SOBRE LIBERDADE 

É aqui que a filosofia existencial começa a me interessar ainda mais. 

Porque falar de alcoolismo é inevitavelmente esbarrar numa pergunta incômoda: quanto há de escolha quando alguém continua fazendo algo que já sabe que lhe faz mal? 

Se respondermos simplesmente “ela escolhe beber”, ignoramos dependência, compulsão, aprendizagem, corpo, contexto e tudo aquilo que limita concretamente a liberdade. 

Mas, se dissermos que não existe escolha alguma, corremos o risco de apagar o sujeito da própria história. 

Essa tensão entre liberdade e limite já me interessava antes de eu começar a pensar o alcoolismo dessa maneira. Em um trabalho sobre liberdade e decisão, eu me perguntava sobre a distância entre querer, poder, dever e fazer. 

No alcoolismo, essas palavras ficam brutalmente concretas. 

Eu quero parar. 

Eu posso parar? 

Eu devo parar. 

E, ainda assim, eu bebo. 

A liberdade humana talvez nunca seja absoluta. Mas a ausência de liberdade absoluta não elimina a pergunta sobre o que fazemos dentro dos limites que temos. 

Para mim, responsabilidade começa aí. 

Não como culpa. 

Não como condenação. 

Mas como possibilidade de participar da própria vida. 

QUANDO O ÁLCOOL SAI 

Talvez seja por isso que a sobriedade seja muito maior do que a ausência de bebida. 

Quando o álcool sai, a pessoa continua existindo. 

Continua precisando estar entre os outros. Continua sentindo tédio. Continua desejando prazer. Continua se frustrando. Continua tendo medo, lembranças, raiva, desejo, solidão. 

E continua tendo de decidir. 

No começo, a pergunta pode ser: 

Como vou fazer tudo isso sem beber? 

É uma pergunta legítima. Durante muito tempo, o álcool pode ter participado de quase todas essas situações. 

Mas há outra pergunta que aparece depois e que, para mim, é ainda mais interessante: 

Como eu quero viver? 

Essa pergunta não elimina a angústia. 

Talvez nenhuma vida realmente vivida elimine. 

O que muda é a relação com ela. 

Se penso o alcoolismo apenas como uma história sobre álcool, a sobriedade corre o risco de virar apenas uma história sobre não beber. 

Mas, se o alcoolismo também envolve desejo, angústia, prazer, excesso, repetição, pertencimento, liberdade e as soluções que encontramos para suportar a existência, então parar de beber abre um problema muito maior. 

Não se trata apenas de retirar a garrafa. 

Trata-se de descobrir o que ela estava tentando resolver. 

E então começar, sem ela, responder pela própria vida. 


Rafa Pessato