COMO É A MENTE DO ALCOOLISTA? Entre a promessa e o primeiro gole 

Eu sou alcoolista. Você pode ser também. Isso não significa que nossas mentes sejam iguais. 

Podemos ter começado a beber por motivos diferentes. Podemos preferir bebidas diferentes, esconder ou expor o consumo, beber todos os dias ou passar algum tempo sem beber. O alcoolismo não produz uma personalidade única. O próprio Transtorno por Uso de Álcool pode se manifestar em graus e combinações diferentes. 

Ainda assim, algumas experiências nos aproximam. 

Uma delas é a promessa. 

“Hoje eu não vou beber.” 

Eu fiz essa promessa muitas vezes. E, quando a fazia, acreditava nela. 

Não era necessariamente uma mentira contada para acalmar minha família ou encerrar uma discussão. Muitas vezes, era uma promessa feita a mim mesma. Naquele momento, eu realmente não queria beber. Ainda sentia a ressaca, a vergonha, o medo ou as consequências da noite anterior. Parar parecia necessário e possível. 

Querer diminuir ou interromper o consumo e não conseguir é, inclusive, um dos sinais considerados na avaliação do Transtorno por Uso de Álcool. A promessa quebrada não é apenas falta de palavra ou de força de vontade. Ela pode fazer parte do próprio transtorno. (www.niaaa.nih.gov

O problema não estava apenas na promessa. 

Estava no que acontecia entre ela e a primeira dose. 

Ao longo do dia, a certeza começava a perder força. Eu não abandonava de uma vez a decisão de parar. Apenas fazia pequenas concessões. 

“Hoje foi difícil.” 

“Eu mereço relaxar.” 

“Vou comprar, mas não preciso beber tudo.” 

“Só hoje. Amanhã eu começo de verdade.” 

Minha mente não dizia: “Vou fazer novamente tudo aquilo de que me arrependi”. 

Se dissesse assim, talvez fosse mais fácil recusar. 

Ela dizia: “Preciso de um pouco de alívio”. 

A negociação não acontecia como uma discussão organizada, com dois lados expondo seus argumentos. Era mais sutil. Uma ideia aparecia, depois outra. Cada pensamento diminuía um pouco a gravidade do seguinte. 

Eu não precisava decidir imediatamente que beberia até perder o controle. Bastava aceitar a possibilidade de beber. Depois, pensar onde compraria. Em seguida, imaginar que conseguiria consumir apenas uma quantidade razoável. 

Quando me dava conta, já estava voltando para casa com a bebida. 

“EU NÃO PENSAVA EM BEBIDA O TEMPO TODO” 

Pensar em álcool não significa passar o dia repetindo conscientemente: “quero beber”. Às vezes, a bebida permanece em segundo plano: 

Tem álcool em casa? 

Quanto ainda resta? 

A que horas vou poder beber? 

Alguém perceberá? 

Será suficiente? 

A pessoa pode trabalhar, conversar, cuidar da família e cumprir suas obrigações. Por fora, o dia segue normalmente. Por dentro, uma parte da atenção acompanha a possibilidade de beber. 

Talvez eu não pensasse em álcool o tempo todo. Mas precisava saber que ele estaria disponível quando eu quisesse. Essa diferença é importante. 

A bebida não precisava ocupar todos os meus pensamentos para ocupar uma posição central na minha vida. Bastava que muitas decisões fossem tomadas levando sua presença em consideração. 

Se houvesse bebida em casa, eu sabia que poderia recorrer a ela. Se não houvesse, em algum momento precisaria decidir se compraria. E essa decisão raramente começava na porta da loja. 

Antes dela, já existiam a expectativa, a imagem da garrafa, a lembrança do efeito e a antecipação daquilo que eu esperava sentir. 

Pesquisas sobre a experiência da fissura mostram que ela pode aparecer não apenas como um desejo expresso em palavras, mas também como imagens mentais. A pessoa se imagina preparando, procurando, comprando e consumindo. Os rituais e os sinais que antecedem a bebida podem adquirir uma força própria. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

Às vezes, antes de pensar claramente “vou beber”, a pessoa já se viu bebendo. 

A cena começa a existir por dentro antes de se realizar por fora. 

A EXCITAÇÃO DE CONSEGUIR A BEBIDA 

Eu costumava dizer que a adrenalina de conseguir a bebida era tão boa quanto o sabor da primeira dose. 

O trajeto, a compra e a garrafa (ou fardo) em minhas mãos não eram apenas etapas práticas. Já faziam parte da experiência.  

Conseguir a bebida encerrava uma tensão. Eu não precisava mais pensar se encontraria, se daria tempo ou se conseguiria comprar. Ela estava comigo. 

A procura havia terminado. 

Talvez parte do alívio começasse ali, antes mesmo do consumo. Pois a aproximação da bebida havia adquirido um valor emocional próprio. Os lugares, os objetos e os rituais ligados ao álcool podiam despertar expectativa porque anunciavam aquilo que viria depois. 

A ciência diferencia o prazer efetivamente sentido da força que nos impulsiona a buscar alguma coisa. Podemos gostar cada vez menos de uma experiência e, ainda assim, sentir um desejo cada vez maior de repeti-la. Na adicção, procurar e gostar já não caminham necessariamente juntos. (pmc.ncbi.nlm.nih.gov

Isso ajuda a explicar uma contradição comum. 

A pessoa já não gosta das ressacas, das brigas, dos esquecimentos nem de quem se torna quando bebe. Talvez o álcool nem proporcione o mesmo prazer de antes. 

Ainda assim, a busca permanece intensa. 

Eu podia querer muito aquilo de que já gostava cada vez menos. 

A PROMESSA NÃO ESTAVA FORA DO CICLO 

Talvez por isso, depois de beber, prometer que nunca mais aconteceria também trouxesse algum alívio. 

A promessa diminuía a culpa e me permitia acreditar que eu ainda controlava a situação. Eu não precisava transformar minha vida naquele instante. Precisava apenas acreditar que a transformaria no dia seguinte. 

Ela era sincera, mas também podia funcionar como uma trégua. 

Quando a angústia diminuía, a urgência da mudança também perdia força. Aos poucos, a negociação recomeçava: 

eu bebia, sofria, prometia, sentia algum alívio, começava a negociar e bebia novamente. 

A promessa não estava fora do ciclo. 

Podia fazer parte dele. 

Isso não significa que eu não fizesse escolhas. Cada pequena concessão era uma escolha. Mas elas não aconteciam em condições neutras: havia o hábito, a fissura, a expectativa de alívio e uma sequência repetida tantas vezes que já parecia natural. 

Reconhecer isso não justifica os danos nem elimina minha responsabilidade. Apenas evita duas explicações fáceis demais: 

“Bebe porque quer.” 

“Não pode fazer nada.” 

Entre esses extremos, havia uma pessoa cuja capacidade de escolher estava comprometida, mas não havia desaparecido. 

Talvez, então, a pergunta mais útil não seja apenas: 

“Por que quebrei novamente minha promessa?” 

Mas: 

“Como eu a quebrei?” 

Qual foi a primeira permissão? 

Quando comecei a imaginar a bebida? 

O que esperava que ela fizesse por mim? 

Essas perguntas não substituem tratamento. Mas ajudam a revelar o percurso que, durante muito tempo, pareceu acontecer de repente. 

A mente não apagava de uma vez todas as razões para parar. Apenas mudava, pouco a pouco, o peso de cada uma delas. 

Transformava o “não vou beber” em “não deveria beber”. 

Depois, em “vou beber apenas uma”. 

E, finalmente, em “hoje não conta”. 

Por isso, a sobriedade talvez não comece com uma promessa mais forte. Comece quando a negociação deixa de ser invisível e encontra uma interrupção antes de chegar novamente à bebida. 

Entre a promessa e o primeiro gole havia um caminho feito de pequenas permissões. 

Era ali que a promessa começava a ser quebrada. 

E talvez seja também ali que a direção possa começar a mudar. 


Rafa Pessato