AFINAL, O QUE É ALCOOLISMO? Quando a palavra deixa de ser apenas uma palavra 

Eu nunca havia pensado a fundo na palavra alcoolismo até ter de olhá-la cara a cara. 

Antes, era apenas beber demais, passar do ponto, ultrapassar o limite. Depois, a palavra ganhou outro peso. Porque alcoolismo vem carregado de explicações médicas, religiosas, familiares, morais. E também de julgamentos. 

Falta de Deus. Falta de vontade. Falta de caráter. Falta de vergonha na cara. 

Ou seria excesso? Excesso de prazer, egoísmo, fraqueza? 

Dependendo de quem responde, alcoolismo pode ser doença, transtorno, dependência, sintoma, problema social. Mas, para quem vive isso, nenhuma dessas palavras parece dar conta de tudo. 

Hoje, os sistemas diagnósticos usam nomes e critérios mais precisos do que simplesmente “alcoolismo”. O DSM-5-TR, manual diagnóstico utilizado na psiquiatria, fala em Transtorno por Uso de Álcool. Já a CID-11, classificação da Organização Mundial da Saúde, distingue, entre outras categorias, o padrão nocivo de uso de álcool e a dependência de álcool

São formas diferentes de classificar o problema e identificar quando o uso passa a envolver perda de controle, danos, prioridade crescente da bebida sobre outras atividades e continuidade apesar das consequências. Esses critérios importam para diagnóstico, tratamento, pesquisa e políticas públicas. 

Mas existe uma parte que nenhum manual consegue descrever por completo: 

como é viver o alcoolismo por dentro. 

Porque ninguém percebe o começo dizendo: “Estou desenvolvendo dependência.” 

A pessoa simplesmente bebe. E, durante algum tempo, aquilo pode funcionar muito bem. 

Então comecei a me perguntar: 

afinal, o que é alcoolismo? 

E mais: será que encontrar uma definição muda alguma coisa para quem precisa parar de beber? 

QUANDO O ÁLCOOL COMEÇA A ORGANIZAR A VIDA 

O álcool relaxa, desinibe, aproxima. Pode fazer alguém se sentir mais corajoso, mais sociável, mais leve. Pode silenciar pensamentos por algumas horas, ajudar a pegar no sono ou transformar um dia difícil em algo aparentemente mais suportável. 

E o cérebro aprende rápido aquilo que traz alívio ou prazer. 

Por isso, é simplista dizer que alguém começou a beber porque queria destruir a própria vida. Muitas vezes, acontece quase o contrário: a pessoa encontrou no álcool alguma coisa que ajudava. 

O problema é o que acontece depois. 

O álcool deixa de ser somente prazer e começa a virar recurso. Depois, alívio. Depois, necessidade. Não necessariamente nessa ordem, nem da mesma forma para todos. 

Mas existe uma mudança importante quando a bebida deixa de ser apenas algo presente na vida e começa, aos poucos, a organizar a vida

Aonde vou, com quem vou, se posso beber, quanto ainda tenho em casa, quando compro mais. Como vou acordar amanhã. Como escondo, como compenso, como provo para mim mesma que ainda consigo controlar. 

É nessa hora que a quantidade já não conta a história inteira. A relação começa a dizer muito mais. 

Reconhecer o alcoolismo como uma questão de saúde foi uma mudança enorme justamente porque, durante muito tempo — e ainda hoje —, pessoas alcoolistas foram tratadas como fracas, irresponsáveis ou sem caráter. 

Sabemos que não é tão simples. 

O uso repetido e excessivo de álcool pode produzir mudanças no cérebro, afetando sistemas relacionados à recompensa, ao estresse, à formação de hábitos e ao controle dos impulsos. Também existem fatores genéticos, psicológicos, familiares, sociais e ambientais envolvidos. 

Então, sim: existe uma dimensão biológica real. 

Mas saber disso ainda não responde a outra pergunta que me interessa muito: 

por que aquele álcool se tornou tão importante para aquela pessoa? 

A PARTE DIFÍCIL É QUE ELE FUNCIONA 

Acho que essa é uma das partes mais difíceis de explicar para quem nunca viveu uma relação de dependência. 

O álcool não entra na vida apenas causando problemas. Se fosse assim, seria muito mais fácil abandoná-lo. 

Ele entra oferecendo alguma coisa: prazer, alívio, coragem, esquecimento, pertencimento, uma sensação de descanso. O cérebro registra essa experiência — “isso ajuda” — e volta a procurá-la. 

Mas dizer que alguma coisa funciona não significa dizer que ela faz bem

Uma estratégia pode cumprir perfeitamente uma função imediata e, ao mesmo tempo, cobrar um preço cada vez maior. O álcool pode realmente aliviar algo naquele momento e ainda assim contribuir para tornar a vida progressivamente mais difícil. 

É também por isso que me interessa pensar não apenas no que o álcool provoca no organismo, mas na função que ele passou a ocupar na vida de alguém. 

Aqui, a psicanálise oferece uma maneira diferente de olhar. Não existe uma explicação psicanalítica única para o alcoolismo, mas algumas leituras nos ajudam a pensar no álcool como uma tentativa de resolver alguma coisa. 

Uma solução ruim? Pode ser. 

Cara? Certamente. 

Mas, ainda assim, durante algum tempo, uma solução. 

Pode servir para aliviar uma angústia, não pensar, conseguir estar entre pessoas, suportar uma solidão ou simplesmente não sentir tanto. Isso não significa que todo alcoolista tenha um grande trauma escondido ou uma infância que explique tudo. Também seria simplificar demais. 

Mas acredito que existe uma pergunta importante aí: 

o que o álcool fazia por você antes de começar a fazer contra você? 

Porque, com o tempo, pode acontecer uma mudança cruel. Aquilo que aliviava a ansiedade por algumas horas pode passar a alimentar um ciclo de mais ansiedade. Aquilo que ajudava a pegar no sono passa a prejudicar o sono. Aquilo que facilitava relações começa a destruí-las. 

E aquilo que dava prazer pode passar a ser necessário apenas para não se sentir tão mal. 

O que era recurso vira problema. 

Depois de algum tempo, a pessoa pode já nem saber muito bem se bebe porque quer se sentir bem ou porque não consegue suportar como se sente sem beber. 

É um dos pontos em que o alcoolismo se torna tão difícil de compreender apenas olhando de fora. 

ENTENDER AJUDA. MAS ENTENDER NÃO FAZ O TRABALHO POR NÓS. 

Eu valorizo muito a compreensão. Estudei e continuo estudando porque compreender o alcoolismo mudou profundamente a maneira como enxergo minha própria história. 

Saber que não se trata simplesmente de falta de caráter importa. Entender o que acontece no cérebro importa. Pensar na função psíquica do álcool importa. Reconhecer traumas, depressão, ansiedade ou outros sofrimentos, quando estão presentes, também pode importar muito. 

Mas existe um ponto delicado: podemos entender muita coisa e continuar bebendo. 

Podemos dizer: “Bebo por causa da ansiedade.” “Bebo porque tenho uma dependência.” “Bebo porque isso está ligado à minha história.” “Bebo porque o álcool cumpre determinada função para mim.” 

Tudo isso pode ser verdade. 

Mas existe uma diferença entre explicar por que algo acontece e mudar o que fazemos diante disso

É aí que entra uma distinção que considero fundamental: 

responsabilidade não é culpa. 

A culpa diz: “Veja o que você fez. Que tipo de pessoa faz isso?” 

A responsabilidade pergunta: “Agora que você consegue enxergar o que está acontecendo, o que fará com isso?” 

E existe um momento na história de muitos alcoolistas em que essa pergunta começa a aparecer de uma maneira muito concreta: a tentativa de controlar o álcool passa a ocupar espaço demais. 

Hoje vou beber só duas. Durante a semana, não. Só no fim de semana. Nunca mais destilado. Vou intercalar com água. Depois dessa garrafa eu paro. Mês que vem diminuo. Amanhã compenso. Dessa vez vai ser diferente. 

A vida vai se transformando numa negociação. 

Nesse ponto, perguntar apenas pela quantidade pode deixar de ser suficiente. Alguém pode discutir durante anos se bebe “muito” ou “pouco” e não perceber o tamanho do espaço mental que o álcool já ocupa. 

Reconhecer que não está conseguindo controlar não precisa significar fracasso. Pode significar apenas que finalmente parou de discutir com os fatos. 

E isso não quer dizer que a pessoa precise dar conta de tudo sozinha. Há tratamento médico, psicoterapia, grupos de apoio e diferentes caminhos de recuperação. Quando existe dependência física, inclusive, interromper o consumo de álcool abruptamente pode ser perigoso e exigir avaliação e acompanhamento médico. 

Buscar ajuda também é ação. 

ENTÃO, AFINAL, O QUE É ALCOOLISMO? 

Depois de tudo isso, ainda não tenho uma resposta única. 

E esse é justamente o ponto. 

O alcoolismo pode ser compreendido como transtorno e pode envolver dependência. Pode ser pensado também pela função que o álcool ocupa na vida psíquica. Pode envolver prazer, alívio, hábito, sofrimento, alterações cerebrais, relações, história de vida e uma tentativa de tornar alguma coisa mais suportável. 

Uma coisa não precisa eliminar a outra. 

Mas, para quem está vivendo isso, existe uma pergunta mais importante do que encontrar a definição perfeita: 

o que o álcool está fazendo na minha vida? 

Porque saber exatamente como chamar aquilo que acontece pode ajudar. Mas não muda, sozinho, aquilo que acontece. 

No meu modo de entender, a sobriedade começa em outro lugar: naquele momento em que a pessoa percebe que aquilo que um dia ajudou a viver começou a cobrar mais do que entrega. 

E então a pergunta deixa de ser apenas: 

“Afinal, o que é alcoolismo?” 

E passa a ser: 

“Agora que consigo enxergar minha relação com o álcool, o que faço com isso?” 


Rafa Pessato