Quem está se AFOGANDO NO ÁLCOOL quer realmente ser salvo?

Tenho pensado esses dias sobre vários temas que atravessam o alcoolismo e sobre maneiras de abordá-los. Um deles é a “ajuda”. E me ocorreu uma situação.
Quando uma pessoa está se afogando no mar, por exemplo, as ações mais comuns realizadas na tentativa de preservar a vida da vítima, a meu ver, são gritar para chamar a atenção de alguém que possa prestar socorro ou correr para resgatá-la — sobretudo quando há algum parentesco ou amizade entre as partes.
Mas, e se a pessoa em afogamento não aguenta mais a vida como ela se apresenta? E se não suporta mais a angústia, a dor existencial, a sensação de não pertencer a lugar algum e, por isso, lançou-se às águas em busca de alívio?
Nesse caso, tirá-la do mar pode preservar sua vida.
Mas, que vida?
Pois a vida preservada é exatamente aquela com a qual ela não sabe lidar. Aquela que não suporta habitar. Podemos, então, pensar essa vida a partir de dois âmbitos: a vida neurobiológica, constituída pelo corpo que respira e permanece funcionando, e a vida subjetiva e individual, constituída pelos sentidos, afetos, relações, escolhas e possibilidades que tornam esse corpo uma existência singular.
Sem a primeira, não há como materializarmos a segunda aqui na Terra. Mas preservar apenas a primeira não significa que a segunda tenha sido salva.
A “ajuda” também pode ser pensada em partes: a ajuda que a pessoa gostaria de ter recebido, a que recebeu e a que realmente precisava.
E QUANDO ALGUÉM ESTÁ SE AFOGANDO NO ÁLCOOL?
Segui com a mesma analogia, mas agora pensando no alcoolismo.
Quando o alcoolista — aqui me refiro sobretudo à pessoa com Transtorno por Uso de Álcool, o TUA — está se “afogando” na bebida, ele pode pedir ajuda. E, a partir desse pedido, uma série de situações pode se desenrolar.
Ele pode se debater sem ser notado. Pode ser arrastado até a margem e deixado lá, pois, aparentemente, sua vida já estaria salva. Pode ser internado, aconselhado, ameaçado, acolhido ou ignorado. Pode, ainda, ser responsabilizado por não ter “força de vontade” suficiente para nadar e se salvar.
Contudo, o Transtorno por Uso de Álcool, como costumo pontuar, trata-se, além de sintoma, de uma doença crônica multifatorial, caracterizada, entre outros aspectos, pela dificuldade de interromper ou controlar o uso, mesmo diante de consequências sociais, profissionais e de saúde.
E aqui insisto na reflexão: o alcoolista pode realmente ter sua vida preservada ao parar de beber.
Mas, que vida?
Será que a vida que o alcoolista deseja é apenas uma vida sem álcool? Ou ele deseja uma vida na qual não precise mais recorrer ao álcool para suportar a si mesmo, as relações, os dias vazios, as frustrações, os traumas ou a falta de sentido?
Não quero afirmar que todo alcoolismo tenha uma única origem existencial. Pois como abordei, acima ele é uma doença. E não significa que toda pessoa com TUA beba conscientemente para anestesiar uma dor. Muitas vezes, ela sequer compreende por que continua bebendo.
Ainda assim, para muitas pessoas, o álcool surgiu inicialmente como um recurso: para diminuir a ansiedade, facilitar a socialização, suportar uma perda, preencher um vazio, silenciar pensamentos ou experimentar por algumas horas a sensação de estar bem. O problema é que aquilo que entrou como uma possível solução passou, aos poucos, a aprofundar os problemas dos quais prometia alívio.
O álcool se torna, assim, uma espécie de mar conhecido. Perigoso, mas conhecido.
A margem, por outro lado, pode parecer um território estranho.
QUASE MORRI AFOGADA NO ÁLCOOL
Saindo um pouco da ideia vaga, aproximo o tema da realidade, pois quase morri afogada no álcool, por conta de um coma alcoólico, como talvez você já saiba.
Não foi uma tentativa consciente de suicídio, pois sempre tive muita esperança de encontrar uma vida na qual eu me sentisse realmente parte. No entanto, confesso: eu estava muito cansada de nadar contra a maré, de pedir ajuda e, em vez de me lançarem ao menos uma boia, receber ofertas para entrar em outros aquários.
Aquários nos quais eu talvez continuasse respirando, mas não necessariamente vivendo.
Voltando ao coma alcoólico, ao acordar e me deparar com toda aquela equipe ao meu redor, percebi que eu tinha vida.
Mas, que vida?
Uma intoxicação grave por álcool pode comprometer áreas do cérebro responsáveis por funções vitais, como respiração, frequência cardíaca e controle da temperatura. Confusão mental, dificuldade de permanecer consciente, convulsões e problemas respiratórios estão entre os sinais de uma overdose de álcool. Portanto, naquele momento, não se tratava de exagero ou metáfora: minha vida neurobiológica realmente esteve em risco.
Ao acordar, senti alívio e uma gratidão imensa pela oportunidade. Sem aquela vida física preservada, eu não teria como materializar nenhuma outra possibilidade de existência.
Contudo, também fiquei reflexiva sobre a ajuda que recebi.
Minha vida física e mental já era atravessada pelo alcoolismo. Mesmo assim, após “voltar” à vida, não recebi nenhuma orientação mais específica sobre aquilo que quase havia me matado afogada. Afinal, eu estava viva e, talvez, isso devesse bastar para que eu me afastasse do “mar”.
Eu realmente parei de beber a partir daquele episódio, no entanto, mesmo acordar de um coma não ensina, automaticamente, a reconstruir uma vida sem álcool. O medo da morte pode interromper um comportamento, mas não necessariamente constrói uma vida diferente. A emergência preservou meu corpo. Depois, eu ainda precisaria compreender o que fazer com o corpo que havia sido devolvido a mim.
3 TIPOS DE AJUDA NO ALCOOLISMO
Diferente do que alguns pensam, ajudar nem sempre significa fazer aquilo que imaginamos ser melhor para o outro. Sobretudo quando a ajuda que uma pessoa está pedindo ou precisando não é aquela que a outra quer ou consegue fornecer.
Se alguém está se afogando e eu não sei nadar, há um risco muito grande de nos afogarmos se eu entrar na água. Nesse caso, ajudar pode significar chamar uma equipe preparada, lançar uma boia ou procurar uma corda.
Amar alguém não nos ensina, automaticamente, a nadar.
Do mesmo modo, conviver com um alcoolista não transforma familiares e amigos em profissionais da saúde. Existem situações nas quais o acolhimento de uma pessoa próxima é fundamental. Em outras, é necessário reconhecer os próprios limites.
A AJUDA QUE O ALCOOLISTA GOSTARIA DE RECEBER
O alcoolista, na maioria das vezes, não tem clareza sobre a ajuda de que precisa. Às vezes, pede que alguém o ajude a parar. Em outros momentos, pede apenas que o deixem beber em paz.
Esses dois desejos podem coexistir.
A pessoa pode querer parar de beber e, ao mesmo tempo, não conseguir imaginar como viver sem a bebida. Pode reconhecer as perdas e ainda sentir saudade do alívio. Pode temer a ideia de morte causada pelo álcool e temer a vida que encontrará quando o álcool não estiver mais presente.
Essa ambivalência não é uma prova de que a pessoa está mentindo ou manipulando. Na abordagem conhecida como Entrevista Motivacional, desenvolvida inicialmente no campo das dependências, a ambivalência é compreendida como uma parte comum do processo de mudança. Em vez de ser combatida por meio de confronto, ela pode ser explorada a partir dos valores, das razões e das motivações da própria pessoa.
Talvez, antes mesmo de saber qual tratamento deseja, o alcoolista queira ser visto e ouvido sem que toda a sua existência seja reduzida ao álcool.
Isso não significa ignorar a gravidade do uso ou concordar com suas justificativas. Significa reconhecer que existe uma pessoa antes, durante e para além da dependência.
Afinal, ninguém é apenas o copo que segura.
A AJUDA QUE O ALCOOLISTA RECEBE
Ouço muitos familiares dizerem que tentam ajudar como podem, que o alcoolista não quer ajuda e que não enxerga o problema.
E acredito que, frequentemente, ele realmente não compreende a dimensão do transtorno. Mas será que o familiar compreende? Será que aquele que tenta salvar também não está adoecido, cansado, assustado ou se afogando naquela relação?
Na guerra pela razão, todos tentam sobreviver.
O alcoolista tenta defender a solução que encontrou. O familiar tenta retirar de suas mãos aquilo que está destruindo a família. Um acusa. O outro nega. Um controla. O outro esconde. Um ameaça ir embora. O outro promete parar.
E o álcool permanece no centro da relação, como se tudo começasse e terminasse nele.
Em algumas situações, o alcoolista precisa de uma boia: alguém que o escute e o ajude a permanecer vivo durante uma crise. Em outras, precisa de uma corda: limites claros, proteção financeira, afastamento de situações de violência e interrupção das formas pelas quais o consumo vinha sendo sustentado.
Há momentos em que será necessária uma equipe de resgate: atendimento de emergência, avaliação médica, internação ou cuidado intensivo. E existem momentos em que ele precisará de companhia para permanecer na margem, porque ser retirado da água não significa que tenha aprendido a viver em terra firme.
Ajuda, portanto, não é permissividade. Mas também não é controle absoluto.
Não é fazer tudo pelo outro, nem o abandonar para que “aprenda sozinho”. É compreender qual recurso aquela situação exige, qual recurso podemos realmente oferecer e quando é necessário chamar alguém mais preparado para intervir na situação.
A AJUDA QUE O ALCOOLISTA PRECISA
Ajudar um alcoolista não se resume a ajudá-lo a parar de beber, apesar de a interrupção ou redução do consumo poder ser um dos objetivos centrais.
A primeira ajuda é a preservação da vida.
Se a pessoa estiver inconsciente, com dificuldade para respirar, apresentando convulsões, confusão intensa ou incapacidade de despertar, trata-se de uma emergência. Não é o momento de discutir escolhas, caráter ou força de vontade. É o momento de acionar atendimento de urgência.
Também é importante lembrar que, em casos de dependência grave, a interrupção do consumo pode exigir avaliação e acompanhamento profissional. A abstinência alcoólica pode envolver complicações como convulsões e delirium, e a conduta depende da intensidade dos sintomas, do histórico da pessoa e de suas condições clínicas.
Mas, depois que a vida imediata está protegida, começa outra parte da ajuda: compreender o transtorno e construir uma estratégia de cuidado.
Se a pessoa está com a consciência preservada, é possível elaborar um projeto de sobriedade, lembrando que não existe uma única forma de tratamento adequada para todas as pessoas, visto o alcoolismo ser multifatorial. A escolha precisa considerar a história, as condições clínicas, as necessidades e as possibilidades de cada indivíduo.
Também não faz sentido tratar o álcool e ignorar tudo o que está ao redor dele. Depressão, ansiedade, traumas, transtornos do sono e outras condições de saúde mental frequentemente coexistem com o TUA e podem exigir um plano integrado de cuidado.
No Brasil, os Centros de Atenção Psicossocial, incluindo os CAPS voltados para álcool e outras drogas, oferecem acolhimento comunitário e acompanhamento multiprofissional, envolvendo áreas como medicina, psicologia, enfermagem, terapia ocupacional e assistência social. A proposta é que o cuidado não se limite ao sintoma, mas considere as necessidades concretas da pessoa.
Entretanto, mesmo o melhor tratamento clínico pode permanecer incompleto e ineficiente se a pessoa não encontrar alguma possibilidade de vida para além da abstinência.
Aqui retorno à pergunta inicial.
Mas, que vida?
A sobriedade não é definida apenas como a interrupção do uso de uma substância. A SAMHSA, órgão norte-americano de saúde mental e uso de substâncias, descreve como um processo de mudança por meio do qual a pessoa melhora sua saúde e seu bem-estar, conduz a própria vida e busca desenvolver suas possibilidades. É um processo individual, que pode ocorrer por diferentes caminhos.
Isso se aproxima do que compreendo como sobriedade.
A abstinência pode retirar o álcool da vida. A sobriedade exige que a pessoa reconstrua sua vida a partir do que permaneceu — o que significa, em muitos casos, que precisará reconstruir sua vida quase por inteiro.
Em termos existencialistas, não existe uma essência sóbria escondida dentro do alcoolista, intacta, esperando apenas que a bebida seja retirada. Existe uma pessoa em eterna construção. Alguém que precisará escolher, dentro de suas circunstâncias e limites, o que fará com a existência que lhe foi devolvida.
Parar de beber não responde automaticamente quem somos.
Mas pode devolver as condições para que façamos a pergunta.
A pessoa talvez precise reaprender a dormir, comer, trabalhar, estabelecer limites, lidar com frustrações, reconhecer emoções e permanecer em relações sem fugir de si. Precisará descobrir o que aprecia, o que deseja preservar, quais valores quer viver e quais responsabilidades está disposta a assumir.
Precisará, em outras palavras, construir uma vida que não seja apenas biologicamente possível, mas subjetivamente habitável.
AFINAL, QUEM ESTÁ SE AFOGANDO NO ÁLCOOL QUER SER SALVO?
Às vezes, sim.
Às vezes, não.
Na maioria das vezes, talvez existam os dois movimentos ao mesmo tempo.
Uma parte quer permanecer viva. Outra não suporta continuar vivendo da mesma forma. Uma parte reconhece o perigo. Outra ainda acredita que o álcool é a única boia disponível.
Por isso, perguntar apenas se o alcoolista “quer ajuda” pode ser insuficiente. Talvez seja necessário perguntar: que ajuda ele consegue aceitar agora? Qual perigo precisa ser interrompido? O que ele teme perder se abandonar o álcool? Que vida imagina encontrar na margem?
Ajudar não significa fabricar no outro um desejo que ele ainda não possui. Também não significa esperar passivamente que ele manifeste uma vontade perfeita, firme e sem contradições.
Em situações de risco, ajudar é preservar a possibilidade.
É manter o corpo vivo para que novos sentidos ainda possam ser construídos. É oferecer condições para que a pessoa possa desejar algo além do alívio imediato. É não confundir autonomia com abandono, nem cuidado com controle.
Eu fui salva do coma alcoólico. Mas minha sobriedade exigiu outros resgates.
A equipe médica preservou meu corpo. Depois, precisei aprender a reconhecer a angústia, compreender a fissura, elaborar perdas, reconstruir relações e encontrar maneiras de existir sem desaparecer dentro do álcool.
Não permaneci viva apenas porque descobri que o mar era perigoso.
Permaneci porque, aos poucos, comecei a perceber que talvez fosse possível construir alguma coisa na margem.
Rafa Pessato


