PARA PARAR DE BEBER É PRECISO CRER? Por que acreditar em si é diferente de pensar positivo

“Quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como.” (Friedrich Nietzsche, citado por Viktor Frankl em Em busca de sentido. )
Eu acredito muito, mesmo que a minha fé seja menor do que um grão de mostarda. E eu acredito porque aprendi a viver os meus porquês.
Mas, às vezes, a positividade me perturba; e muito. Confesso precisar disfarçar, de vez em quando, a minha cara de interrogação quando alguém solta, sem nem mesmo ouvir direito: “Vai dar tudo certo!”.
VAI DAR TUDO CERTO?
Vai dar tudo certo, o quê?, penso mentalmente. E sigo a orientação do Capitão, o pinguim de Madagascar: “Apenas sorria e acene”.
Lendo isso, você pode pensar que sou uma pessoa negativa. Mas, na realidade, não. Talvez racional e metódica demais. Porém, sonhadora e com fé suficiente para empurrar algumas pedras.
Meu questionamento a respeito da positividade é sobre o positivismo excessivo que estamos vivendo atualmente. Uma espécie de fantasia infantil de que basta pensar positivo para mudar sentimentos e comportamentos.
No entanto, há estudos sustentando esse meu posicionamento, dizendo que não é bem assim. De acordo com o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, passamos de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho, na qual cada sujeito se torna empresário de si mesmo e o lema parece ser: pense positivo e se empenhe, pois tudo depende de você.
Nessa lógica, o fracasso deixa de ser um acontecimento humano e passa a ser interpretado como uma falha individual.
Não sou completamente contra a importância de assumirmos a responsabilidade pelo caminho que queremos, ou não, seguir. Contudo, para o ato de acreditar realmente funcionar, é preciso que essa crença esteja baseada em fatos, em realizações concretas.
A confiança em si mesmo precisa ter raízes na realidade.
A autoeficácia não nasce de uma afirmação repetida diante do espelho, nem de frases motivacionais compartilhadas nas redes sociais. Ela nasce de pequenas evidências. De experiências que dizem ao sujeito: “Você conseguiu ontem. Talvez consiga hoje novamente.”
E, talvez, o mais importante neste texto seja esclarecer a crença sobre a qual escrevo.
Porque nem tudo vai dar certo.
Algumas relações terminam. Alguns tratamentos fracassam. Algumas recaídas acontecem.
Mas é necessário acreditar na própria capacidade de agir e de usar os recursos que se possui para realizar e sustentar os próprios sonhos e desejos, como parar de beber e manter-se sóbrio.
E aqui está uma diferença importante:
Pensar positivo é acreditar que tudo dará certo; autoeficácia é acreditar que, mesmo quando algo não der certo, você será capaz de agir diante do que a vida lhe apresentar.
Esse acreditar em si foi nomeado pelo psicólogo Albert Bandura como autoeficácia. Segundo Bandura, esse conceito representa a crença na própria capacidade de enfrentar desafios e de realizar as ações necessárias para alcançar determinados objetivos.
Ou seja, não é sobre perfeição, mas sobre fazer o possível — e, às vezes, o que parecia impossível — com o que se tem, com as próprias potencialidades e apesar dos fatores limitantes.
Em relação especificamente ao alcoolismo, isso significa confiar que você pode realizar as ações necessárias para viver sem o álcool e construir um bem viver.
E o grande ponto é refletir sobre isso e posicionar-se em prol dessa confiança de maneira prática e eficaz, e não apenas metafórica e eficiente.
Gosto de distinguir esses dois conceitos, eficiência e eficácia, pois, embora parecidos, carregam uma diferença que impacta nossos resultados, sejam profissionais ou pessoais, como para parar de beber.
De maneira simples, eficiência é fazer algo da melhor forma possível. Eficácia é produzir o resultado desejado.
Suponha que você queira parar de beber e seja uma ótima advogada. Você faz seu trabalho com perfeição, realizando tudo dentro dos prazos. Você é uma profissional muito eficiente.
Contudo, isso não vai contribuir, necessariamente, para que você pare de beber.
Para parar de beber você precisa, primeiro de tudo, decidir-se e, então, realizar ações concretas que sustentem essa decisão. E acreditar que você consegue é um impulso pessoal e necessário para entrar e manter-se na jornada da sobriedade.
E aqui preciso deixar algo bem claro: acreditar em si não é achar que a sua força de vontade é suficiente para resistir ao álcool.
Pois isso é como esperar ganhar uma competição de natação sentado na borda da piscina, apenas acreditando que consegue a medalha.
Entre o desejo e a realidade mora a ação.
Mas não qualquer ação.
Mesmo que você seja muito eficiente em se sentar na borda da piscina, para ganhar a competição de natação você precisa treinar para ela. E não basta apenas treinar. É necessário treinar para a competição correta; nado de peito, de costas, borboleta.
Acreditar em si, ter autoeficácia, pode ser simples, mas nem sempre é fácil. Pois depende de uma série de fatores que nos constituíram ao longo de nossa jornada aqui na Terra.
Uma criança, por exemplo, que perdia em todos os jogos, tirava notas baixas, era ridicularizada pelos amiguinhos — e, às vezes, até em casa —, cresceu sentindo-se um fracasso, pode tornar-se um adulto que pouco confia em si mesmo.
O que influencia em vários níveis de sua vida.
Esse sujeito pode usar o álcool como forma de esconder todas as suas angústias não elaboradas.
Assim, tirar o álcool de sua vida requer tirar também alguns dos conceitos que o formaram: “não sou bom em nada”, “sou feio”, “sou fraco”, “não presto”, “não faço nada direito”, “não consigo”.
Imagina falar para essa pessoa:
“Olha, o álcool está destruindo a sua vida. Você precisa parar de beber. É só ter força de vontade. E acredita, que tudo vai dar certo.”
Você já ouviu algo parecido?
Se você é alcoolista e já ouviu isso, deve entender o que estou abordando.
Autoeficácia é acreditar que você é capaz de realizar as ações necessárias para alcançar determinado objetivo. E essa crença não surge do nada. Ela é construída e fortalecida pelas estratégias que você implementa e pelas experiências concretas que vai acumulando ao longo do caminho.
Ao decidir parar de beber, eu optei por não ir a eventos ou frequentar lugares que me fizessem sentir qualquer desconforto em relação ao álcool.
E isso não precisa ser observado apenas estando no local. Assim que o convite chega, que a data se aproxima, a gente já sente no corpo a resposta, antes mesmo de elaborá-la em nossa mente.
O nosso corpo, muitas vezes, percebe riscos antes de a razão conseguir nomeá-los.
Um erro é não ouvir o que o próprio corpo já respondeu e assumir um risco desnecessário, colocando-se em situações nas quais a força de vontade não dá conta.
Em determinadas fases da recuperação, fortalecer a autoeficácia não é ir ao evento e fazer de tudo para não beber.
Às vezes, ela se fortalece justamente pela evitação estratégica, isto é, pela capacidade de reconhecer os próprios limites e não se expor a situações para as quais ainda não se está preparado.
Pode ser ficar em casa.
Pode ser optar por outro tipo de divertimento.
Pode ser simplesmente reconhecer:
“Hoje eu não dou conta disso.”
Em outros momentos, porém, a autoeficácia também pode crescer por meio da exposição bem-sucedida. Ir ao evento, permanecer sóbrio e voltar para casa em paz pode tornar-se uma nova evidência de capacidade.
A diferença está em saber discernir quando estamos nos protegendo e quando estamos, de fato, preparados para nos desafiar.
Às vezes, a maior demonstração de confiança em si mesmo é reconhecer os próprios limites.
Ao amanhecer sóbrio, depois de um dia no qual você foi eficaz em suas decisões e ações, a sua autoeficácia se fortalece.
Porque agora existe um fato.
Uma evidência.
Você conseguiu.
E é simples assim. O que não quer dizer que seja fácil.
A autoeficácia é fortalecida dia após dia, à medida que você realiza pequenas ações que produzem resultados. Contudo, mesmo essas pequenas ações precisam cooperar com o seu objetivo.
E não, isso não exige uma trajetória perfeita.
Recaídas podem acontecer.
Tropeços podem acontecer.
A autoeficácia também se constrói quando, depois de um fracasso, o sujeito consegue dizer:
“Eu ainda posso recomeçar.”
Se hoje você ainda duvida de sua capacidade, tudo bem.
Duvide, mas continue.
Caminhe mesmo sem certeza.
Talvez parar de beber não exija acreditar que tudo dará certo.
Talvez exija apenas acreditar que, aconteça o que acontecer, você pode continuar respondendo à própria vida sem precisar se destruir.
E, como bem escreveu Rilke, em Cartas a um jovem poeta:
“O meu voto para que você seja capaz de encontrar em si mesmo a paciência necessária para suportar, e a simplicidade suficiente para ter fé. Que você ganhe mais e mais confiança no que é difícil, assim como na sua solidão em meio aos demais. E, quanto ao resto, simplesmente deixe que a vida aconteça em você.”
Rafa Pessato


