ESTAMOS TODOS ANESTESIADOS? O ÁLCOOL e a arte contemporânea de não sentir

Poucas perguntas são tão simples de formular e tão difíceis de responder quanto esta:
Por que bebemos?
A resposta costuma surgir rapidamente: para celebrar, relaxar, socializar, esquecer um problema, aliviar uma tensão, criar coragem ou dormir melhor. Mas essas respostas podem ser apenas a superfície de algo mais profundo.
O álcool atravessa quase todos os territórios da vida social. Está presente nos brindes, nos encontros amorosos, nos churrascos de domingo, nas festas universitárias, nas confraternizações de trabalho e, não raramente, nas noites em que ninguém está olhando. Há muito tempo ele deixou de ser apenas uma bebida. Tornou-se uma espécie de idioma emocional coletivo. Falamos através dele quando queremos nos aproximar, quando queremos escapar e, às vezes, quando não sabemos exatamente o que sentimos.
Questionar o álcool provoca estranhamento justamente porque não estamos discutindo apenas uma substância. Estamos falando de um hábito profundamente incorporado à maneira como nossa cultura lida com prazer, pertencimento, ansiedade, tristeza e vazio.
Vivemos em uma época que se especializou em oferecer rotas de fuga. Não apenas através da bebida, mas também pelo excesso de informação, pelas redes sociais, pelo entretenimento contínuo, pelo consumo compulsivo e pela lógica da produtividade sem descanso. Há sempre algo para assistir, comprar, responder, compartilhar ou produzir. Como se permanecer sozinho consigo mesmo tivesse se tornado uma experiência perigosa.
Nesse cenário, o álcool ocupa um lugar peculiar. Ele funciona como um anestésico socialmente legitimado, uma ferramenta rápida para suavizar desconfortos que muitas vezes sequer conseguimos traduzir em palavras.
Este ensaio não pretende moralizar o consumo de álcool nem dividir o mundo entre abstêmios virtuosos e bebedores irresponsáveis. A questão é mais ampla — e talvez mais desconfortável. O álcool frequentemente funciona menos como causa e mais como sintoma. Sintoma de uma sociedade emocionalmente esgotada. De uma cultura que aprendeu a se distrair de tudo, inclusive de si mesma. De uma época que produz infinitas formas de aliviar o sofrimento, mas cada vez menos espaços para compreendê-lo.
E a pergunta mais importante talvez não seja quanto estamos bebendo.
A pergunta é: o que estamos tentando calar?
A CULTURA DO EXCESSO E O CANSAÇO DE EXISTIR
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve nossa época como a sociedade do desempenho. Diferentemente das antigas sociedades disciplinares, nas quais a repressão vinha de fora, hoje a cobrança se instala dentro de nós. Tornamo-nos simultaneamente chefe e funcionário, explorador e explorado. Já não precisamos que alguém nos pressione constantemente. Aprendemos a fazer isso sozinhos.
Precisamos produzir mais, render mais, melhorar mais, crescer mais. A lógica do desempenho não conhece ponto de chegada. Existe sempre uma nova meta, uma nova comparação, uma nova versão de nós mesmos que ainda não alcançamos.
Nesse modelo, descansar passa a parecer improdutivo. O silêncio se torna desconfortável. A lentidão adquire gosto de fracasso. O simples ato de não fazer nada começa a gerar culpa. Criamos uma civilização curiosa: pessoas exaustas que não conseguem descansar e pessoas ocupadas demais para perceber o próprio esgotamento.
O vazio, que durante séculos foi reconhecido como parte inevitável da condição humana, passou a ser tratado como um defeito de funcionamento. Algo que precisa ser eliminado o mais rápido possível. Por isso é tão difícil ficar sozinho sem recorrer imediatamente a alguma distração. Quando o fluxo de estímulos diminui, algo emerge. Pensamentos esquecidos, inseguranças antigas, medos silenciosos e perguntas sem resposta reaparecem com uma intensidade que a correria cotidiana costumava manter escondida.
É justamente nesse ponto que o álcool se torna sedutor. Ele oferece algo que a cultura contemporânea parece incapaz de fornecer espontaneamente: uma pausa. Por algumas horas, a autocobrança enfraquece, a vigilância interna diminui, a ansiedade perde volume e o corpo relaxa.
Mas existe uma diferença fundamental entre descanso e anestesia.
O descanso nos reconecta com nós mesmos.
A anestesia interrompe temporariamente essa conexão.
Quando o álcool passa a ser utilizado repetidamente para regular estados emocionais difíceis, ele deixa de ocupar apenas um espaço recreativo. Passa a desempenhar uma função psicológica. O sujeito já não bebe apenas porque aprecia o sabor, o ritual ou a companhia. Muitas vezes bebe porque se tornou difícil sustentar a própria experiência interna sem algum tipo de amortecimento emocional.
É justamente aí que a discussão precisa se aprofundar. Porque o problema não é apenas a substância. O problema pode ser uma cultura inteira que desaprendeu a existir sem mecanismos constantes de entorpecimento.
A Organização Mundial da Saúde estima que o uso nocivo de álcool esteja associado a milhões de mortes todos os anos e contribua para centenas de doenças físicas e transtornos mentais. Mas os números não contam toda a história. Existe também um adoecimento mais silencioso, um desgaste subjetivo que atravessa relações, identidades e rotinas. Uma fadiga que não desaparece depois de um fim de semana livre porque não nasce apenas do excesso de tarefas, mas da forma como passamos a existir.
Jean-Paul Sartre dizia que o ser humano está condenado à liberdade. A frase parece dura, mas aponta para algo essencial: viver implica lidar com escolhas, incertezas, responsabilidades e ausência de garantias absolutas. O problema é que nossa cultura parece cada vez menos disposta a tolerar essa condição. Queremos respostas rápidas para questões complexas, soluções instantâneas para dores profundas e alívio imediato para qualquer desconforto.
O sofrimento, que durante séculos foi compreendido como parte inevitável da experiência humana, passou a ser tratado como uma falha operacional. E quando uma sociedade perde a capacidade de elaborar o sofrimento, inevitavelmente começa a fabricar formas coletivas de anestesia.
O ÁLCOOL COMO INTERRUPTOR DA CONSCIÊNCIA
Do ponto de vista neurobiológico, os efeitos iniciais do álcool são relativamente conhecidos. A substância atua sobre sistemas relacionados à inibição neural e aos circuitos de recompensa, produzindo relaxamento, redução da ansiedade e diminuição das inibições sociais. Muitas pessoas relatam uma sensação de maior leveza emocional, como se o peso da vigilância constante fosse reduzido por algumas horas.
Em termos subjetivos, é como se a voz interna que cobra, compara, vigia e exige perdesse volume temporariamente. A mente parece respirar. Não é difícil compreender por que essa experiência se torna tão atraente em uma época marcada por excesso de estímulos e pressão constante.
O problema é que o cérebro aprende. O alívio emocional proporcionado pela bebida pode fortalecer associações neurais entre sofrimento e consumo. Aos poucos, a substância deixa de ser apenas uma escolha ocasional e passa a ocupar o papel de reguladora emocional.
Segundo o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism, o consumo repetido modifica sistemas relacionados à motivação, memória, recompensa e controle emocional. A dependência não surge simplesmente por falta de força de vontade. Ela envolve adaptações cerebrais complexas, processos de aprendizagem, vulnerabilidades emocionais e fatores sociais.
É justamente nesse ponto que a reflexão proposta por Gabor Maté se torna tão importante. Em vez de perguntar “por que o vício?”, ele sugere uma questão diferente: “por que a dor?”.
A mudança parece simples, mas transforma completamente o olhar sobre a compulsão. Muitos comportamentos adictivos não surgem da busca pelo prazer. Surgem da tentativa de escapar do sofrimento. O álcool, nesse contexto, não é necessariamente o incêndio. Muitas vezes é apenas o extintor improvisado usado para conter uma fumaça emocional que já existia antes.
Isso não elimina a responsabilidade individual, mas permite compreender que a compulsão raramente nasce no vazio. Ela costuma florescer onde existem feridas não elaboradas, desconexão emocional ou sofrimento crônico.
Como observa Julia Kristeva, a contemporaneidade parece produzir formas inéditas de sofrimento subjetivo associadas à perda de sentido, à fragmentação da identidade e à dificuldade de simbolizar experiências internas. Há uma dor silenciosa atravessando nossa época. E aquilo que não encontra linguagem frequentemente procura anestesia.
UMA SOCIEDADE QUE DESAPRENDEU A SENTIR
Desde muito cedo aprendemos quais emoções merecem espaço e quais devem ser escondidas. “Engole o choro”, “não faz drama”, “seja forte”, “não incomode”. Pouco a pouco, muitas pessoas crescem acreditando que sentir intensamente é um problema.
O resultado aparece na vida adulta. Homens incapazes de reconhecer a própria vulnerabilidade. Mulheres sobrecarregadas tentando sustentar tudo sozinhas. Profissionais hiperfuncionais que transformam trabalho em fuga emocional. Pessoas que sabem administrar empresas, resolver problemas complexos e cumprir metas difíceis, mas não sabem nomear aquilo que sentem.
Zygmunt Bauman descreveu nossa época como uma modernidade líquida, marcada pela fragilidade dos vínculos e pela instabilidade permanente. Tudo parece provisório: empregos, relações, projetos, identidades e até mesmo a percepção de quem somos.
Nunca tivemos tantas formas de conexão.
E tão pouca intimidade conosco mesmos.
Por isso o silêncio assusta. O silêncio tem um hábito inconveniente: ele devolve para nós aquilo que passamos boa parte da vida tentando evitar. Quando as distrações desaparecem, frequentemente emergem a solidão, o medo, a angústia, a sensação de inadequação e aquele vazio difuso que tantas vezes tentamos preencher através de estímulos externos.
O álcool se encaixa perfeitamente nessa dinâmica porque cria uma espécie de camada intermediária entre o sujeito e a própria experiência emocional. Ele não resolve a dor, mas reduz temporariamente sua intensidade.
O problema é que emoções anestesiadas não desaparecem. Elas apenas aguardam. E frequentemente retornam com ainda mais força.
FESTA, PERFORMANCE E PERTENCIMENTO
O álcool não funciona apenas como anestesia individual. Ele também desempenha uma poderosa função social.
Muitas pessoas relatam que conseguem conversar melhor, flertar melhor, dançar melhor ou demonstrar afeto apenas quando estão alcoolizadas. Isso revela algo importante sobre nossa época. Não estamos apenas cansados. Estamos cada vez mais distantes da espontaneidade.
Em muitos contextos sociais, beber tornou-se tão natural que a recusa causa estranhamento. Pedir uma bebida alcoólica é automático. Não beber frequentemente exige justificativas. Isso revela o quanto a embriaguez foi normalizada culturalmente. Em certos ambientes, a lucidez passou a ser aquilo que precisa ser explicado.
A publicidade reforça continuamente essa lógica ao associar álcool à liberdade, diversão, sucesso, juventude e pertencimento. A mensagem raramente é explícita, mas está sempre presente: para viver plenamente, beba.
Por trás dessa narrativa existe uma pergunta desconfortável.
Por que precisamos nos anestesiar para relaxar?
Por que precisamos nos anestesiar para socializar?
Por que precisamos nos anestesiar para existir com menos medo?
A linha que separa prazer e fuga nem sempre é visível. E justamente por isso merece ser observada.
O VAZIO QUE NENHUMA BEBIDA PREENCHE
Viktor Frankl chamou atenção para aquilo que denominou vazio existencial: uma sensação difusa de falta de direção, propósito e significado. Segundo ele, quando a vida perde conexão com algo que a transcenda, o indivíduo se torna mais vulnerável a comportamentos compensatórios.
Boa parte das compulsões contemporâneas parece compartilhar a mesma estrutura. Álcool, compras, pornografia, comida, trabalho e redes sociais oferecem promessas semelhantes: alívio imediato para estados internos difíceis de sustentar.
O problema é que alívio não é sinônimo de elaboração. Nem toda sensação agradável produz crescimento. Nem toda distração produz sentido.
Como observou Gilles Lipovetsky, vivemos em uma cultura orientada pela satisfação instantânea. Mas existe uma diferença importante entre estímulo e significado. O estímulo produz excitação. O significado sustenta a existência. O estímulo acelera o coração. O significado oferece direção quando a excitação desaparece.
Quando a vida perde profundidade simbólica, a intensidade frequentemente ocupa seu lugar. É por isso que tantas pessoas confundem sentir muito com sentir profundamente.
A SOBRIEDADE COMO PRESENÇA
Existe uma crença cultural curiosa segundo a qual sobriedade significa privação. Como se viver sem anestesia implicasse viver sem prazer.
Mas a verdadeira questão é outra.
O que acontece quando desligamos os anestésicos?
O que sobra quando não existe distração suficiente para encobrir a experiência interna?
Para muitas pessoas, o encontro inicial consigo mesmas pode ser desconfortável. Memórias reaparecem. Emoções reprimidas emergem. Silêncios antes evitados tornam-se inevitáveis.
Mas é justamente aí que algo importante começa: a possibilidade de presença.
A psicologia contemporânea mostra que estratégias baseadas em evitação emocional tendem a aumentar o sofrimento ao longo do tempo. Não porque sentir seja agradável, mas porque aquilo que evitamos continuamente acaba ganhando mais força.
A dor raramente é o inimigo. Muitas vezes o verdadeiro desafio é permanecer diante dela sem correr imediatamente para alguma forma de fuga.
Nesse sentido, a sobriedade deixa de ser apenas ausência de álcool. Ela se transforma em uma experiência de lucidez. Lucidez sobre nossas feridas, nossos medos, nossas necessidades emocionais e os mecanismos que utilizamos para escapar de nós mesmos.
A CORAGEM DE HABITAR A PRÓPRIA EXISTÊNCIA
Sentir profundamente em uma cultura anestesiada é uma forma silenciosa de resistência. Resistência à distração permanente, à performance incessante e à crença de que emoções difíceis devem ser imediatamente eliminadas.
Sartre, Camus e Heidegger nunca prometeram conforto. Mas compreenderam algo fundamental: fugir continuamente da própria existência produz formas ainda mais profundas de alienação.
Talvez por isso tantas pessoas se sintam vazias mesmo cercadas de estímulos. Porque distração não é presença. Porque entretenimento não é significado. Porque anestesia não é liberdade.
A liberdade exige consciência.
E consciência exige coragem.
Não se trata de romantizar o sofrimento nem de ignorar a complexidade do alcoolismo, uma condição séria e multifatorial que envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. O tratamento adequado exige acolhimento, suporte profissional, políticas públicas e redes de apoio.
Mas também é necessário ampliar a pergunta.
Não apenas “quanto estamos bebendo?”.
Mas principalmente:
O que estamos tentando calar?
O CAMINHO DE VOLTA
O primeiro passo talvez não seja abandonar imediatamente todas as formas de anestesia.
O primeiro passo pode ser apenas começar a perceber.
Perceber quantas vezes buscamos excesso diante do desconforto. Quantas emoções evitamos. Quantos silêncios tememos. Quantas distrações confundimos com presença.
Existe algo profundamente humano no desejo de alívio. O problema começa quando o alívio se torna a única maneira possível de existir.
Reaprender a sentir é um processo lento. Exige escuta, coragem, honestidade e disposição para renunciar a algumas máscaras construídas ao longo dos anos.
Mas existe justamente aí uma possibilidade de reencontro. Não uma vida perfeita. Não uma vida sem dor. Mas uma vida mais desperta, mais consciente e mais habitada.
A questão nunca foi apenas o álcool. A verdadeira pergunta é outra:
Por que precisamos dele para suportar o encontro com nós mesmos?
Porque o contrário da embriaguez não é a sobriedade. O contrário da embriaguez é a presença. E talvez seja justamente ela que estamos reaprendendo a encontrar.
Rafa Pessato
