ALCOOLISMO: Você realmente escolhe BEBER ou o ato já se tornou automático?

Você chega em casa, guarda as coisas e abre a bebida.
Às vezes, só percebe o que fez quando o copo já está servido.
“Eu nem pensei.”
Essa experiência é comum. Mas ela significa que não houve escolha? Que o cérebro assumiu o controle? Ou que a decisão aconteceu tão depressa que você não conseguiu enxergá-la?
Talvez a pergunta esteja formulada de maneira simples demais.
No alcoolismo, beber pode envolver desejo, hábito, fissura, expectativa de alívio e pequenas decisões que se misturam. O comportamento não precisa ser totalmente consciente para ser escolhido, nem totalmente automático para ser difícil de interromper.
A gente pode saber que está indo comprar a bebida e, ao mesmo tempo, sentir que já não consegue considerar seriamente outra possibilidade.
QUANDO A ESCOLHA COMEÇA ANTES DO COPO
Os hábitos são construídos quando repetimos determinadas respostas em contextos parecidos. O cérebro aprende associações entre lugares, horários, emoções e comportamentos.
Assim, o fim do expediente, o caminho de casa, o dinheiro disponível, uma discussão, determinada música ou o silêncio da noite podem começar a anunciar a bebida antes mesmo de surgir um pensamento claro como: “Quero beber.”
Esse processo não é um roteiro misterioso escrito pelo cérebro. É um aprendizado.
Com a repetição, alguns comportamentos passam a exigir menos atenção. O contexto começa a convocar a resposta conhecida. É assim com inúmeras ações cotidianas — e pode acontecer com o álcool.
Mas isso não significa que todo consumo problemático seja apenas um hábito.
Uma revisão e meta-análise publicada em 2024 concluiu que comportamentos dirigidos por objetivos e respostas automáticas não formam dois sistemas completamente separados. Eles podem coexistir e variar conforme a pessoa, o momento, o estresse e o contexto. No Transtorno por Uso de Álcool, a tendência ao automatismo pode contribuir para o problema, mas não explica sozinha a compulsão.
Por isso, duas explicações muito repetidas são insuficientes:
“Bebe porque escolhe.”
“O cérebro escolhe por ela.”
A realidade fica no meio — e é mais desconfortável.
A ESCOLHA NÃO DESAPARECE. ELA FICA ESTREITA.
O Transtorno por Uso de Álcool é definido pela dificuldade de interromper ou controlar o consumo apesar dos prejuízos sociais, profissionais ou à saúde. A pessoa pode desejar parar, compreender as consequências e continuar bebendo.
Com a repetição, sinais associados ao álcool podem despertar vontade e expectativa. Ao mesmo tempo, o consumo pode passar a servir menos para produzir prazer e mais para aliviar ansiedade, irritação, desconforto ou estados emocionais que o próprio ciclo ajuda a intensificar.
Também podem ocorrer alterações em sistemas ligados à recompensa, ao estresse, aos hábitos e às funções executivas — entre elas planejamento, avaliação das consequências e controle dos impulsos. Isso é bem mais complexo do que dizer apenas que “o álcool libera dopamina” ou “desliga o córtex pré-frontal”.
A pessoa ainda participa do que faz. Mas participa sob o peso da fissura, do aprendizado, da expectativa de alívio e, em alguns casos, da abstinência.
Não é uma liberdade inteira.
Também não é uma ausência completa de liberdade.
Em termos existencialistas, ninguém escolhe fora da própria história. Escolhemos dentro de um corpo, de um ambiente e de possibilidades concretas. No alcoolismo, essas possibilidades podem se estreitar até que beber pareça a única resposta disponível.
Isso não elimina a responsabilidade. Muda seu significado.
Responsabilidade deixa de ser uma acusação — “você fez isso porque quis” — e passa a ser participação na construção de uma saída: “o que posso fazer, nas condições em que estou, para ampliar novamente minhas possibilidades?”
O QUE PARECE AUTOMÁTICO POSSUI UMA SEQUÊNCIA
Talvez você não tenha decidido, de uma só vez, que beberia até perder o controle.
A sequência pode ter começado muito antes:
Você teve um dia difícil.
Pensou que merecia relaxar.
Verificou se ainda havia bebida.
Passou pelo mercado.
Disse a si mesmo que compraria apenas uma garrafa.
Levou a bebida para casa.
Quando abriu a primeira, quase todo o caminho já havia sido percorrido.
Cada etapa parece pequena quando observada separadamente. Juntas, formam um percurso.
Por isso, uma pergunta mais útil do que “eu escolhi beber?” pode ser:
Em que momento minhas possibilidades começaram a se estreitar?
Talvez a escolha não tenha desaparecido. Talvez tenha sido deslocada para um ponto anterior.
Quando o copo já está servido e a fissura está intensa, recusar pode ser muito difícil. Algumas horas antes, porém, ainda poderia ser possível mudar o caminho, não comprar, sair do ambiente, falar com alguém ou recorrer a uma estratégia previamente combinada.
A liberdade possível talvez esteja menos no gesto heroico de resistir no último segundo e mais na construção antecipada de condições que evitem chegar sempre ao mesmo ponto.
NÃO BASTA TROCAR O VINHO POR CAFÉ
Mudar o contexto pode ajudar, mas uma adicção não costuma ser desmontada apenas substituindo uma bebida por outra.
É preciso compreender que função o álcool exerce.
Ele marca o fim do dia? Autoriza uma pausa? Diminui a ansiedade? Facilita o contato social? Adormece pensamentos? Torna a solidão suportável?
A perspectiva psicanalítica não precisa procurar obrigatoriamente um trauma escondido. Ela pode começar com uma pergunta mais concreta:
O que a bebida faz por mim que ainda não aprendi a fazer de outra maneira?
Se o álcool ocupa o lugar de descanso, companhia, recompensa ou anestesia, retirá-lo sem construir outras respostas pode deixar um vazio difícil de sustentar.
Por isso, parar exige mais do que “reprogramar o cérebro”. Exige reconstruir modos de lidar com o corpo, o tempo, os afetos e a própria vida.
Essa reconstrução pode incluir mudanças de rotina, redução do acesso à bebida, identificação de gatilhos, apoio de outras pessoas, acompanhamento clínico, grupos de ajuda mútua e medicamentos. Não existe uma única combinação adequada para todos. Tratamentos comportamentais, medicamentos e apoio entre pares podem ser usados separadamente ou em conjunto.
QUEM ESCOLHE, AFINAL?
Nem você escolhe com liberdade absoluta, nem o copo ganha vontade própria.
O que existe é uma pessoa cuja capacidade de decisão pode ter sido comprometida, mas não necessariamente eliminada.
Tornar o processo consciente não significa controlar tudo. Significa reconhecer a sequência enquanto ainda há espaço para interferir nela.
Em vez de perguntar apenas “por que bebi?”, talvez seja mais útil reconstruir:
Quando a ideia apareceu?
O que eu estava sentindo?
Qual foi a primeira concessão?
Em que momento parei de considerar outra possibilidade?
O que eu esperava que a bebida resolvesse?
A sobriedade não começa quando você finalmente derrota o próprio cérebro.
Talvez comece quando percebe que a primeira dose não foi a primeira etapa — e passa a agir antes que o caminho conhecido volte a parecer o único possível.
Rafa Pessato
Atenção: pessoas que bebem intensamente ou apresentam tremores, suor excessivo, insônia, náusea, agitação ou outros sintomas quando reduzem o consumo não devem parar abruptamente sem avaliação médica. A abstinência alcoólica pode ser grave e, em alguns casos, colocar a vida em risco.


