ALCOOLISMO: quem (ou o que) está no controle da sua vida? 

Hoje só duas. 

Durante a semana, não. 

Destilado eu não bebo mais. 

Vou intercalar com água. 

Se eu comer antes, seguro melhor. 

Depois dessa garrafa, paro. 

No mês que vem diminuo. 

Quem já passou muito tempo tentando controlar o quanto bebe conhece bem esse tipo de negociação. 

Por fora, pode até parecer controle. Afinal, existem regras, cálculos, promessas, estratégias. Você pensa no assunto, estabelece limites, faz combinados consigo mesmo, tenta administrar a situação. 

Mas existe uma pergunta meio incômoda aí: 

quando você passa tanto tempo tentando controlar o quanto bebe, já parou para pensar em quanto da sua vida está sendo controlado pela bebida? 

Porque controle não é apenas conseguir parar no terceiro copo em vez do sexto. 

Também é perceber quem está definindo os horários, os lugares, os pensamentos, as desculpas, os planos para amanhã — e boa parte das negociações que você faz consigo mesmo hoje. 

E, às vezes, enquanto você está ocupadíssimo tentando controlar o álcool, o álcool já ganhou um cargo administrativo na sua vida. 

QUANDO “EU CONTROLO” COMEÇA A DAR TRABALHO DEMAIS 

Existe uma ironia no alcoolismo: a tentativa insistente de controlar o consumo pode ser justamente um dos sinais de que alguma coisa nesse controle já não está funcionando tão bem. 

Isso não é apenas uma impressão. 

Entre os critérios utilizados pelo DSM-5-TR para o Transtorno por Uso de Álcool está o desejo persistente ou as tentativas malsucedidas de reduzir ou controlar o consumo. A CID-11 também coloca a dificuldade de controlar o uso entre as características centrais da dependência, ao lado da prioridade crescente dada ao álcool e da continuidade do consumo apesar dos prejuízos. 

Claro que fazer uma promessa e quebrá-la uma vez não transforma ninguém automaticamente em alcoolista. 

A questão é outra: 

o que acontece quando controlar deixa de ser uma decisão ocasional e passa a fazer parte da própria relação com a bebida? 

Você bebe pensando em controlar. 

Bebe contando. 

Bebe prometendo. 

Bebe comparando com ontem. 

Bebe usando a semana passada como argumento. 

Bebe procurando provas de que ainda consegue beber. 

Curiosamente, o álcool continua no centro até quando você está tentando tirá-lo de lá. 

Talvez seja por isso que a pergunta “quanto eu bebo?” seja importante, mas não seja suficiente. 

Também interessa perguntar quanto tempo você passa pensando em beber, não beber, beber menos, recuperar-se do que bebeu ou planejar como beber sem que aconteça de novo aquilo que já aconteceu outras vezes. 

Em algum momento, o problema pode deixar de ser apenas a quantidade de álcool dentro do copo. 

Passa a ser também a quantidade de vida organizada ao redor dele. 

MAS QUEM ESTÁ NO CONTROLE, AFINAL? 

A resposta mais fácil seria: 

“Você.” 

E seria também uma resposta ruim. 

Porque ninguém controla completamente a própria vida. 

Não escolhemos tudo o que sentimos. Não decidimos quais pensamentos vão aparecer daqui a cinco minutos. Não escolhemos nossa história, nosso corpo, todas as circunstâncias em que vivemos nem todas as marcas que carregamos. 

No alcoolismo, isso fica ainda mais evidente. 

O uso repetido e excessivo de álcool pode afetar sistemas cerebrais relacionados à recompensa, ao estresse, à formação de hábitos, ao controle dos impulsos e à tomada de decisões. Na dependência, estímulos associados à bebida podem ganhar uma força enorme, e estados negativos podem aumentar a urgência por álcool. 

Isso ajuda a entender por que “é só decidir não beber” é uma explicação tão pobre para um problema muito mais complexo. 

Mas reconhecer tudo isso também não significa concluir que não existe nenhuma possibilidade de ação. É aqui que a filosofia existencialista me interessa. 

Não porque ela diga simplesmente que “somos livres” e, portanto, basta fazer a escolha certa. Aplicada ao alcoolismo, essa seria uma leitura conveniente — e bastante cruel. 

Sartre pensa o ser humano sempre em uma situação. Há coisas que já estão dadas: nossa história, nossas circunstâncias, aquilo que ele chama de facticidade. Ainda assim, nossa existência não se reduz completamente a elas. 

Simone de Beauvoir leva essa questão adiante ao pensar uma liberdade que não é soberana, limpa ou abstrata, mas vivida dentro de circunstâncias concretas. 

Somos limitados. E, mesmo assim, alguma coisa ainda pode ser feita. Isso me parece muito mais interessante para pensar a sobriedade. 

Você não escolhe sentir fissura só para depois provar que é livre recusando-a. 

Não escolhe que determinada lembrança apareça. 

Não controla o que outra pessoa fará. 

Não decide que um dia difícil deixará de ser difícil só porque parou de beber. 

A liberdade possível está em outro lugar: 

no que ainda pode ser feito dentro da situação que existe. 

E às vezes essa margem é grande. Às vezes é minúscula. Mas não é a mesma coisa que nada. 

O ÁLCOOL TAMBÉM PODE CONTROLAR PELO QUE ELE RESOLVE 

Existe outro tipo de controle que não aparece tão facilmente numa contagem de doses. 

O álcool pode ter aprendido a fazer determinados trabalhos por você. Desligar a cabeça depois de um dia difícil. Tornar uma reunião social suportável. Diminuir uma angústia. Adiar alguma coisa que você não quer sentir. Produzir coragem. Facilitar um encontro. Criar uma pausa. 

Algumas leituras psicanalíticas e psicodinâmicas permitem pensar o uso de substâncias também a partir dessa função: não apenas “o que a bebida causa?”, mas “o que ela resolve, ainda que provisoriamente?” 

A hipótese da automedicação de Edward Khantzian, por exemplo, propôs que substâncias podem ser utilizadas como forma de modular estados afetivos dolorosos e dificuldades de autorregulação. É uma hipótese importante para pensar a função subjetiva do consumo, mas não explica universalmente as adicções — e sua sustentação empírica é mista. 

Para mim, interessa menos transformar isso numa teoria capaz de explicar todo alcoolista e mais conservar a pergunta. 

Porque, se o álcool passou anos fazendo determinado trabalho, tirá-lo de cena não faz esse trabalho desaparecer. 

A angústia continua precisando ser atravessada. 

A solidão não evapora. 

A insegurança social não recebe a notícia de que você parou de beber e pede demissão. 

O sábado continua chegando. 

Talvez venha daí uma das partes mais difíceis da sobriedade: descobrir o que fazer com aquilo que antes tinha uma resposta pronta. Uma resposta que podia cobrar caro depois, mas chegava rápido. 

É justamente por isso que sobriedade não é apenas uma disputa entre sua vontade e uma garrafa. 

TALVEZ A SOBRIEDADE TENHA MENOS A VER COM CONTROLAR TUDO 

Durante muito tempo, a relação com o álcool pode virar uma tentativa de provar: 

“Eu ainda consigo controlar.” 

Curiosamente, para algumas pessoas, parar de beber começa justamente quando essa prova deixa de ser necessária. Não porque finalmente conquistaram controle absoluto sobre si mesmas. Mas porque reconheceram um limite. 

E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. Dizer “eu deveria conseguir beber como os outros” mantém a bebida como uma espécie de prova que nunca termina. 

Quanto posso? 

Hoje consigo? 

Desta vez vai ser diferente? 

Estou exagerando? 

Será que ainda dou conta? 

Dizer “para mim, essa negociação deixou de funcionar” muda a pergunta. 

Isso não resolve magicamente aquilo que o álcool resolvia. Também não transforma a pessoa sóbria numa criatura plenamente racional, dona de todas as suas escolhas e impermeável aos próprios impulsos. 

Aliás, se essa pessoa existir, eu gostaria de conhecê-la. Sobriedade não elimina nossa falta de controle sobre a vida. Talvez torne algumas dessas faltas até mais visíveis, porque já não existe a mesma possibilidade de anestesiá-las. 

O que pode mudar é a margem de ação. Entre sentir e beber. Entre desejar e fazer. Entre ter um dia péssimo e transformá-lo automaticamente numa noite de álcool. Entre uma angústia e a velha solução que aparecia sempre no mesmo endereço. Isso não é liberdade absoluta. 

É uma liberdade situada, limitada, às vezes difícil. Uma liberdade que pode precisar de tratamento, apoio e mudanças concretas de ambiente, relações e rotina. 

E não é uma liberdade que se mede pelo fato de nunca mais sentir vontade, medo ou conflito. Talvez se meça melhor pelo que conseguimos fazer na presença deles. Por isso, eu não terminaria esta reflexão dizendo: 

“Assuma o controle da sua vida.” 

Não temos esse controle todo. E o alcoolismo é um dos lugares em que fingir que temos pode sair especialmente caro. 

A pergunta que me parece mais honesta é outra: 

se você passa tanto tempo tentando controlar o álcool, que partes da sua vida já estão sendo organizadas por ele? 

E, diante do que não está sob seu controle, onde ainda existe alguma possibilidade concreta de ação? 

Talvez a sobriedade não seja a vitória definitiva de quem finalmente aprendeu a controlar tudo. Pode ser algo menos grandioso — e, justamente por isso, muito mais humano: 

parar de fazer da bebida a resposta automática para aquilo que a vida nunca prometeu deixar sob nosso controle. 


Rafa Pessato