ALCOOLISMO: EXISTE MEIO-TERMO? Entre a moderação, o autoengano e o limite que cada pessoa precisa reconhecer

Brad Pitt contou à revista Esquire que voltou a beber depois de sete anos de sobriedade. Segundo ele, agora bebe de forma mais contida, embora já tenha percebido que ficou confiante demais algumas vezes.
É fácil transformar essa notícia em veredito.
Alguns dirão que ele provou ser possível voltar a beber moderadamente. Outros entenderão sua decisão como uma recaída anunciada.
Nenhuma dessas conclusões pode ser tirada de uma entrevista. Não conhecemos sua condição clínica, sua relação atual com o álcool nem o que essa escolha produzirá com o tempo.
A decisão pertence a ele.
Mas a notícia coloca diante de nós uma pergunta importante:
Quando alguém já viveu uma relação destrutiva com o álcool, voltar a beber é apenas escolher uma taça?
Eu mesma ainda não tomei nem cerveja zero.
Por medo, sim. Mas também por respeito: à minha história, aos caminhos que meu corpo e minha mente aprenderam e ao esforço que fiz para sair deles.
Não digo que toda pessoa sóbria deva fazer o mesmo. Também não confundo uma bebida 0,0% com uma bebida alcoólica. Minha decisão parte de outro entendimento:
O alcoolismo não é apenas sobre o álcool presente no líquido.
É também sobre a relação construída com ele.
O MEIO-TERMO NÃO É UMA MEDIDA UNIVERSAL
Nossa cultura costuma tratar a moderação como sinal de maturidade. A pessoa equilibrada seria aquela que bebe, aproveita e sabe a hora de parar. De um lado estaria o abstêmio; do outro, o alcoolista; no centro, aquele que domina o copo.
Essa divisão parece simples, mas esconde diferenças importantes.
A ideia filosófica da justa medida, associada a Aristóteles, não representa uma média matemática igual para todos. A medida adequada depende da pessoa e das circunstâncias.
Aplicar essa ideia ao álcool como se existisse uma quantidade universalmente equilibrada contradiz a própria complexidade do conceito.
A medicina estabelece parâmetros de consumo para estimar riscos populacionais. Eles são importantes, mas “menor risco” não significa “sem risco”. A Organização Mundial da Saúde afirma que não existe um nível de consumo completamente livre de riscos à saúde. Seu relatório de 2024 atribui ao álcool cerca de 2,6 milhões de mortes no mundo, tomando como referência dados de 2019.
Isso também não significa que toda pessoa que bebe desenvolverá dependência.
Risco para a saúde e Transtorno por Uso de Álcool são questões relacionadas, mas diferentes.
O TUA não é definido apenas pela quantidade consumida. Entram na avaliação experiências como beber mais ou por mais tempo do que se pretendia, tentar diminuir sem conseguir, sentir fissura, gastar muito tempo procurando, consumindo ou se recuperando da bebida e continuar apesar dos prejuízos.
Duas pessoas podem beber a mesma quantidade e manter relações completamente diferentes com o álcool.
Para uma, a taça termina quando a taça acaba.
Para outra, ela pode inaugurar uma sequência difícil de interromper.
QUANDO O ÁLCOOL JÁ COMEÇOU ANTES DO GOLE
Na minha experiência, o problema não estava apenas no conteúdo do copo.
Estava na antecipação, na garrafa gelada, no horário, no ritual, na expectativa de alívio e nas negociações que começavam antes da primeira dose.
“Só hoje.”
“Dessa vez eu vou controlar.”
“Se eu conseguir beber pouco, significa que estou bem.”
O álcool ocupava espaço mesmo quando eu ainda não estava bebendo.
Por isso, uma cerveja zero não seria, para mim, apenas uma bebida sem álcool. Ela recuperaria sabores, gestos, embalagens e cenas ligados à minha antiga forma de beber.
Existem pessoas em sobriedade que consomem bebidas sem álcool sem qualquer conflito. Para outras, esses produtos podem despertar fissura ou reaproximá-las de rituais que preferem não reativar.
A ciência ainda não permite transformar isso em uma regra universal. Uma revisão sistemática encontrou poucos estudos e resultados variados, embora alguns indiquem aumento do desejo de beber e reações a pistas associadas ao álcool em pessoas com TUA.
Por isso, não apresento minha escolha como prescrição.
Ela é uma decisão autobiográfica: eu conheço a relação que construí com o álcool e não quero descobrir, por meio de um teste, se consigo voltar a tocar suas bordas.
REDUZIR OU NÃO BEBER?
A redução do consumo pode diminuir danos e representar um primeiro passo importante. O próprio NIAAA reconhece que algumas pessoas iniciam o tratamento reduzindo a quantidade, embora considere a abstinência a estratégia mais segura para quem apresenta TUA.
Portanto, a questão não precisa ser transformada em uma disputa entre “todo alcoolista deve se abster” e “qualquer pessoa pode aprender a beber moderadamente”.
A pergunta mais honesta é individual:
O que acontece comigo quando tento beber moderadamente?
Uma dose permanece apenas uma dose?
Ou ela modifica o peso das decisões seguintes?
Preciso criar regras, contar copos, esconder quantidades, compensar no dia seguinte ou passar horas pensando em quando poderei beber novamente?
A tentativa de beber moderadamente amplia minha liberdade ou devolve o álcool ao centro da minha atenção?
O meio-termo pode existir para algumas pessoas. Para outras, persegui-lo exige tanta vigilância, negociação e sofrimento que já não parece equilíbrio.
LIBERDADE NÃO É PROVAR QUE POSSO
A decisão de Brad Pitt pertence a ele. Minha abstinência pertence a mim.
Sua história não deve funcionar como autorização para alguém voltar a beber, assim como minha escolha não deve ser usada para condenar quem segue outro caminho.
Mas podemos receber a notícia como um espelho.
Quero beber ou quero provar que consigo?
O que essa experiência poderia acrescentar à minha vida?
O que ela poderia colocar novamente em movimento?
Durante muito tempo, imaginei que liberdade seria conseguir beber como as outras pessoas. Controlar a quantidade seria a prova de que o álcool já não exercia poder sobre mim.
Hoje entendo de outra forma.
Liberdade não é manter todas as possibilidades abertas. Também é poder fechar conscientemente uma porta quando sabemos aonde ela nos levou.
Não beber cerveja zero não foi deixar o medo decidir por mim.
Foi decidir com memória.
Para mim, sobriedade não é apenas manter o álcool fora do copo. É não devolver ao copo o lugar que ele já ocupou na minha mente.
A pergunta, portanto, não é somente se existe meio-termo no álcool.
É se procurar esse meio-termo oferece mais liberdade do que custa.
Rafa Pessato


