ALCOOLISMO: Quando a fissura apertava, eu contava.

Duas atitudes simples que me ajudavam quando a vontade de beber parecia uma dor 

“Além de versos e mulheres?… 

— Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!… 

Evoé Baco!” 

— Manuel Bandeira, Bacanal 

Diferente de Bandeira, meu fraco era cerveja e vodka. Mas, quando decidi parar de beber, não queria nenhuma das duas. Eu queria conquistar minha sobriedade. 

No início da abstinência, quando a fissura aparecia, eu contava. 

Não contava apenas os dias sem beber. Contava livros, azulejos, buracos, carros e cores. Contava objetos sobre a mesa, linhas no chão, janelas dos prédios e placas na rua. 

De tanto contar, também comecei a perceber quanto eu acumulava ao meu redor. Acho que daí nasceu parte do meu interesse pelo minimalismo. Não como decoração branca ou casa sem móveis, mas como uma tentativa de diminuir o excesso de fora para conseguir escutar o excesso de dentro. 

Naquela época, contar não era uma técnica. Era uma tentativa. 

Antes de ganhar um nome, era apenas uma mulher tentando atravessar a fissura sem abrir uma cerveja, comprar vodka ou negociar com a parte de si que havia aprendido a transformar álcool em saída. 

QUANDO A FISSURA PARECE DOR 

Para quem olha de fora, fissura pode parecer apenas vontade. 

Mas “vontade” pode ser uma palavra pequena demais para explicar o que acontece. 

A fissura pode vir acompanhada de pensamentos insistentes, ansiedade, inquietação e sensações físicas. O tempo parece passar mais devagar, a atenção se estreita e a mente começa a procurar argumentos para beber. 

A ciência chama isso de craving. Eu, quando estava dentro daquilo, chamava de desespero, a fissura doía. 

Não era apenas vontade de beber. Era vontade de fazer aquele estado parar. 

O problema é que beber prometia encerrar a angústia imediatamente, mas cobrava caro depois. Cobrava a ressaca, a vergonha, a confiança que começava a voltar e a palavra que eu havia dado a mim mesma. 

A fissura nem sempre chegava como uma frase organizada. Às vezes, aparecia primeiro no corpo: aperto, calor, agitação, boca seca, pressa. 

Só depois vinham os argumentos: 

“Só hoje.” 

“Você merece.” 

“Amanhã você recomeça.” 

“Uma cerveja não é nada.” 

Para mim, uma cerveja nunca era apenas uma cerveja. A primeira já abria a porta para tudo o que poderia vir depois. 

Por isso, eu precisava aproveitar o intervalo entre sentir e beber. E, às vezes, nesse intervalo, eu contava. 

CONTAR ERA UMA FORMA DE VOLTAR AO PRESENTE 

Quando eu contava azulejos, livros ou carros, não estava fingindo que a fissura não existia. Ela existia — e, às vezes, existia demais. 

Mas contar me ajudava a não virar apenas fissura. 

Em vez de “eu quero beber”, começava a existir outra percepção: 

“Eu estou sentindo vontade de beber.” 

Parece uma diferença pequena, mas não é. A vontade continuava ali, mas já não ocupava tudo.  

Contar funcionava principalmente como uma ancoragem no presente e um redirecionamento da atenção. Eu não estava meditando serenamente. Estava dando uma tarefa concreta à mente enquanto a fissura fazia barulho. 

Não existe uma técnica comprovada chamada “conte azulejos para não beber”. O que tem respaldo é o princípio: direcionar a atenção para uma atividade segura pode ajudar a atravessar a urgência sem obedecer imediatamente a ela. 

Isso não é necessariamente fugir. Às vezes, é ganhar tempo. 

Como mulher autista e com ansiedade, havia ainda uma dimensão sensorial. Sons, luzes, texturas, conversas e ambientes sempre me atravessaram com muita intensidade. Durante muito tempo, o álcool pareceu um botão capaz de diminuir o volume do mundo. 

Na sobriedade, precisei encontrar outras maneiras de lidar com esse volume. 

Contar, observar e nomear detalhes me ajudavam a escolher um ponto de cada vez: um azulejo, uma cor, o peso do pé no chão, a textura da xícara, a respiração entrando e saindo. 

O mesmo corpo que se sobrecarregava também podia encontrar pontos de apoio. 

A fissura queria urgência. A contagem devolvia alguma medida. 

A MÚSICA COMO ÂNCORA COM BALÕES 

Outra atitude que me ajudava era escutar música. 

Mas escutar de verdade. Não deixar a música tocando apenas como barulho de fundo. 

Eu acompanhava a letra, o ritmo, a entrada da voz, os instrumentos, as repetições e as mudanças da melodia. Prestava atenção como quem segurava alguma coisa por dentro. 

Costumo pensar alguns conceitos por meio de imagens. Para mim, a música era como uma âncora com balões amarrados. 

Eu sei que a imagem parece contraditória. Mas era exatamente isso. 

A âncora me dava chão. Os balões me davam movimento. 

Porque a sobriedade não é apenas ficar parada para não cair. Também é aprender a se mover sem se destruir. 

Eu escolhia músicas que primeiro me ajudavam a liberar energia e depois a voltar para mim. Entre elas estavam Melhor de Mim, de Mariza; A Criança que Eu Fui um Dia, do Reverb Poesia; e Believer, do Imagine Dragons. 

Não estou dizendo que essas músicas funcionam para todo mundo. Funcionavam para mim. 

Há pesquisas indicando que a música pode ajudar na redução da fissura. Mas é preciso manter a proporção: escutar uma playlist pessoal não é o mesmo que participar de musicoterapia, e nenhuma música substitui tratamento. 

Além disso, música também pode ser gatilho. 

Há canções ligadas a bares, festas, pessoas e períodos de consumo. Algumas parecem inocentes, mas conhecem o caminho até a bebida. 

Por isso, uma playlist de sobriedade não precisa ser alegre. Essa obrigação de parecer bem também cansa. Ela pode ser triste, forte, dramática ou estranha. 

Mas precisa ajudar você a permanecer. 

Precisa acolher sem empurrar. 

Nem toda música que emociona protege. 

ENTRE A VONTADE E O COPO 

Contar e escutar música foram duas atitudes que me ajudaram. Existem muitas outras: escrever, caminhar, tomar banho, sair do ambiente, ligar para alguém, cuidar das plantas ou realizar uma tarefa simples. 

Mas nem tudo que parece saudável é seguro para todo mundo. 

Lavar o carro, por exemplo, não funcionava para mim porque fazia parte de um ritual acompanhado pelo álcool. Para outra pessoa, pode ser uma boa atividade. 

Uma rua pode ser gatilho. Uma música, um horário, uma tarefa ou uma ideia de merecimento também. 

Por isso, a pergunta não é apenas: 

“O que posso fazer no lugar de beber?” 

Também é: 

“O que posso fazer agora que não me leve pelo caminho antigo?” 

Se contar ajudar, conte coisas concretas ao redor. Cores, janelas, passos, livros ou objetos. Enquanto conta, perceba o pé no chão, as mãos, a respiração e o que acontece no corpo. 

Se a música ajudar, escolha antes — num momento de maior tranquilidade — as canções que não estejam ligadas ao consumo. Quando a fissura vier, escute a letra, a voz, os instrumentos e as pausas. 

Se a vontade continuar aumentando, saia do ambiente, afaste-se da bebida e procure alguém seguro. Nem sempre atravessar a fissura significa permanecer sozinho diante dela. 

Essas atitudes não substituem tratamento, acompanhamento profissional, rede de apoio ou medicação quando indicada. 

Também é importante não confundir fissura com abstinência alcoólica. Tremores, suor intenso, náuseas, alucinações ou convulsões podem indicar uma condição grave. Quem bebe intensamente não deve interromper o consumo de forma abrupta sem avaliação médica. 

Hoje, quando a vontade aparece como uma onda, não finjo que o mar não existe. 

Procuro a margem. 

Procuro chão, música, presença ou alguém a quem recorrer. 

Às vezes, tudo começa assim: antes do copo, conte até dez. 

Não porque contar seja milagroso. 

Mas porque, entre um número e outro, pode caber o próximo gesto: sair do lugar, mandar uma mensagem, esperar a onda baixar. 

Nem sempre precisamos resolver a vida inteira naquele momento. 

Às vezes, precisamos apenas não transformar aquela fissura em bebida. 


Rafa Pessato