ALCOOLISMO: quando o álcool participa do seu esgotamento

O cansaço, a irritabilidade e a ansiedade em uma relação problemática com a bebida.
Existe uma forma de exaustão que não nasce apenas do excesso de trabalho, da falta de férias ou da dureza objetiva da vida. Às vezes, ela também está relacionada à necessidade contínua de anestesiar a própria experiência de existir.
Aos poucos, o indivíduo pode deixar de beber apenas para celebrar, socializar ou relaxar. Passa a beber também para administrar aquilo que sente. Como quem ajusta manualmente o volume da realidade para conseguir suportá-la.
Essa é uma das dimensões menos evidentes de determinadas relações com o álcool: o consumo não aparece necessariamente como uma destruição explícita da vida. Pode coexistir durante anos com trabalho, responsabilidades, relações e uma rotina aparentemente preservada.
A bebida encontra seu lugar na administração cotidiana das emoções. Um pequeno deslocamento químico entre o sujeito e o peso da própria subjetividade.
Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, analisa uma sociedade marcada pelo excesso de desempenho, pela autocobrança e pela exploração de si. O indivíduo contemporâneo não precisa necessariamente de alguém que o obrigue a produzir. Muitas vezes, ele próprio se encarrega dessa exigência.
O descanso também passa a carregar expectativas. O lazer precisa ser aproveitado. O tempo livre precisa render. Até a felicidade pode assumir a forma de uma obrigação.
Talvez esse cenário ajude a compreender um dos lugares que o álcool ocupa na vida contemporânea.
Ele oferece algo que pode parecer cada vez mais difícil de alcançar: interrupção.
Por algumas horas, a mente desacelera. A autocobrança diminui. Determinadas preocupações perdem intensidade. A pessoa experimenta uma suspensão temporária das exigências internas e externas.
Freud, em O Mal-Estar na Civilização, reconheceu o recurso às substâncias intoxicantes entre as formas humanas de buscar prazer e afastar o sofrimento. Sua reflexão permanece pertinente: diante das dificuldades de existir, também procuramos meios de modificar nossa percepção da realidade.
Mas existe um preço possível nessa negociação.
O álcool pode interferir no sono, no funcionamento cognitivo, na regulação emocional e na resposta ao estresse. Quando o consumo se torna frequente, excessivo ou problemático, esses efeitos podem participar de um desgaste que nem sempre é reconhecido como relacionado à bebida.
E talvez existam três manifestações especialmente importantes para observar: o cansaço, a irritabilidade e a ansiedade.
Não porque sejam sintomas exclusivos do alcoolismo. Não são. Podem estar associados a diferentes condições físicas, emocionais e circunstâncias de vida.
Mas porque, em algumas pessoas, ajudam a tornar visível uma relação com o álcool que permanece pouco questionada.
1. O CANSAÇO: quando o descanso deixa de restaurar
Existe uma contradição no uso do álcool para descansar.
Muitas pessoas bebem para relaxar depois de um dia difícil. A bebida produz sedação, diminui temporariamente a tensão e pode facilitar a sensação inicial de sonolência.
Mas sedação não significa necessariamente descanso.
O álcool interfere na arquitetura do sono. Pesquisas mostram alterações nas diferentes fases do sono, especialmente na duração e na distribuição do sono REM, importante para processos cognitivos e emocionais.
Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2024, reunindo 27 estudos, encontrou redução do sono REM mesmo após doses relativamente baixas de álcool, com alterações mais intensas conforme o consumo aumentava.
Isso ajuda a compreender por que dormir depois de beber não significa, necessariamente, acordar descansado.
Há também o trabalho metabólico envolvido no processamento do etanol. O organismo metaboliza o álcool principalmente no fígado, produzindo substâncias intermediárias, como o acetaldeído, que apresentam toxicidade.
Esse processo faz parte dos efeitos fisiológicos do consumo, embora não seja correto atribuir todo cansaço posterior exclusivamente ao esforço de metabolização.
A qualidade do sono, a quantidade ingerida, o padrão de consumo, as condições individuais e outros fatores influenciam o resultado.
Ainda assim, a contradição permanece:
A bebida surge como uma promessa de repouso, mas pode comprometer justamente o descanso que se procurava.
O sujeito adormece.
Mas nem sempre repousa como imagina.
Em pessoas que mantêm uma relação problemática com o álcool, a fadiga pode se tornar parte da rotina.
Acordar cansado. Atravessar o dia com pouca disposição. Depender de estímulos para conseguir trabalhar. Sentir que o descanso nunca parece suficiente.
Nem sempre a pessoa associa essas experiências ao consumo. É mais fácil atribuí-las à idade, ao excesso de compromissos ou à vida adulta.
E, muitas vezes, esses fatores realmente participam do cansaço.
O problema aparece quando o álcool também está contribuindo para o desgaste, mas permanece fora da investigação.
Aqui, a leitura de Byung-Chul Han oferece outra possibilidade de reflexão.
Se o sujeito contemporâneo já vive pressionado por expectativas de desempenho, o uso frequente de uma substância que pode prejudicar o descanso acrescenta uma nova contradição.
A pessoa procura na bebida uma pausa para o próprio esgotamento, mas pode terminar aprofundando uma das condições que contribuem para ele.
A bebida oferece repouso simbólico.
Fisiologicamente, porém, nem sempre permite o descanso que promete.
2. A IRRITABILIDADE: quando o mundo parece exigir demais
A irritabilidade relacionada ao álcool nem sempre aparece como agressividade explícita.
Pode surgir de maneiras mais discretas: menor tolerância às frustrações, impaciência, dificuldade para lidar com contrariedades ou uma sensação persistente de estar sendo excessivamente exigido pelas pessoas e pelas circunstâncias.
O indivíduo passa a se sentir atravessado pelo mundo.
Barulhos parecem maiores.
Frustrações parecem mais invasivas.
Pequenas exigências ganham uma dimensão emocional desproporcional.
É possível que exista uma dificuldade de regulação emocional acontecendo.
Do ponto de vista neurobiológico, o consumo excessivo e recorrente de álcool pode produzir adaptações em sistemas relacionados ao estresse, à recompensa e à regulação emocional.
Essas alterações se tornam especialmente importantes no desenvolvimento da dependência. Quando os efeitos da bebida desaparecem, podem surgir estados emocionais negativos, entre eles irritabilidade, ansiedade e desconforto.
É uma das razões pelas quais, em determinadas situações, a pessoa passa a beber não apenas pela expectativa de prazer, mas também para aliviar sensações desagradáveis.
Entretanto, seria uma simplificação afirmar que toda irritabilidade em quem bebe decorre de um sistema nervoso inflamado ou danificado.
As relações entre álcool, humor, personalidade, contexto e saúde mental são mais complexas.
E talvez a dimensão mais interessante da irritabilidade seja justamente aquela que não se explica apenas pela química.
O psicanalista Donald Winnicott dedicou parte importante de seu trabalho à capacidade de sustentar experiências emocionais e conviver com uma realidade que não corresponde integralmente aos próprios desejos.
Há uma tolerância necessária para lidar com a incompletude do mundo, a demora das coisas e as inevitáveis frustrações da existência.
Podemos utilizar essa perspectiva para investigar outra função possível do álcool.
Quando a bebida se torna um recurso habitual para interromper desconfortos emocionais, o indivíduo pode passar a recorrer a ela antes mesmo de compreender aquilo que está sentindo.
Não significa que tenha perdido definitivamente a capacidade de suportar frustrações. Significa que determinadas experiências passam a ser administradas com a participação recorrente de uma substância.
E isso pode modificar a relação da pessoa com o próprio sofrimento.
A irritabilidade, nesse contexto, merece ser observada também como experiência subjetiva.
O que está se tornando insuportável?
A rotina realmente mudou?
As exigências aumentaram?
Ou a capacidade de lidar com elas está sendo afetada por um conjunto de fatores entre os quais também se encontra o álcool?
Freud, em O Mal-Estar na Civilização, discutiu os conflitos inevitáveis entre os desejos humanos, as exigências da realidade e as condições de convivência social.
O sofrimento não pode ser inteiramente eliminado da experiência humana.
O álcool, em determinadas circunstâncias, oferece uma suspensão temporária desse confronto.
Mas a suspensão não resolve necessariamente aquilo que foi interrompido.
E, quando o consumo se torna problemático, pode acrescentar dificuldades fisiológicas e emocionais aos conflitos que já existiam.
Talvez uma das consequências menos percebidas dessa relação seja a dificuldade de reconhecer a participação da bebida no próprio estado emocional.
O problema parece estar sempre fora.
Nas pessoas.
Na rotina.
Nos relacionamentos.
Na lentidão da vida.
Sem que se considere suficientemente a possibilidade de que o consumo esteja contribuindo para tornar essas experiências ainda mais difíceis.
3. A ANSIEDADE: quando o alívio participa da manutenção do sofrimento
Talvez uma das relações mais complexas no alcoolismo seja a relação entre álcool e ansiedade.
Porque, em muitos casos, a ansiedade não surge inicialmente em consequência da bebida.
Ela já existia.
E o álcool passa a ser utilizado justamente para administrá-la.
Essa distinção importa.
Existe uma associação bem documentada entre transtornos de ansiedade e transtorno por uso de álcool. Entretanto, a relação não é necessariamente unidirecional.
Problemas de ansiedade podem favorecer o uso de álcool como tentativa de alívio. O consumo excessivo também pode contribuir para o aparecimento ou agravamento de sintomas ansiosos. Além disso, fatores individuais e ambientais podem participar de ambas as condições.
Muitas pessoas não procuram a bebida apenas pela euforia.
Procuram uma diminuição da tensão.
Uma pausa na autocobrança.
Menos inquietação mental.
Uma interrupção do desconforto de estar consigo mesmas.
E o álcool pode produzir esse alívio temporariamente.
Seus efeitos sobre o sistema nervoso central envolvem, entre outros mecanismos, alterações na neurotransmissão GABAérgica e glutamatérgica, relacionadas à redução da atividade neuronal e aos efeitos sedativos da substância.
A pessoa sente que relaxou.
Que consegue conversar com mais facilidade.
Que determinados pensamentos perderam força.
Que, por algumas horas, o mundo se tornou mais suportável.
E talvez seja justamente isso que torne a relação tão difícil de perceber.
Porque o alívio é real enquanto experiência subjetiva.
O problema não está em negar o alívio, mas em investigar seu custo e sua duração.
Com o consumo excessivo e repetido, podem ocorrer adaptações nos sistemas cerebrais relacionados ao estresse e à recompensa.
Na dependência, especialmente durante a redução ou interrupção do consumo, essas adaptações podem contribuir para estados de hiperexcitação, ansiedade, irritabilidade e desconforto emocional.
O que inicialmente servia para aliviar a tensão pode passar a integrar o próprio ciclo que a mantém.
Mas existe outra camada nessa questão.
A filosofia existencialista compreende a angústia não apenas como manifestação patológica, mas também como uma dimensão da condição humana.
Kierkegaard investigou a angústia em sua relação com a liberdade e a possibilidade. Heidegger, por sua vez, atribuiu à angústia um lugar importante na compreensão da existência humana.
São perspectivas filosóficas, não explicações clínicas ou neurobiológicas sobre os efeitos do álcool.
Ainda assim, oferecem uma pergunta relevante:
O que acontece quando uma pessoa passa a recorrer sistematicamente a uma substância para interromper experiências emocionais que também fazem parte de sua existência?
Nem toda ansiedade é patológica.
Nem todo desconforto precisa ser eliminado.
Mas também não seria correto romantizar o sofrimento ou sugerir que condições clínicas devam ser enfrentadas apenas pela reflexão.
A questão aqui é outra.
Quando o álcool se torna um recurso habitual para administrar a angústia, pode ficar mais difícil distinguir aquilo que já fazia parte da experiência emocional daquilo que está sendo produzido ou agravado pelo próprio consumo.
A pessoa pode passar a conviver com duas dimensões do sofrimento:
- a ansiedade e os conflitos que já existiam;
- os efeitos emocionais e fisiológicos que podem ser intensificados pela relação com o álcool.
E nem sempre consegue identificar com clareza onde uma termina e a outra começa.
Existe uma diferença importante entre aliviar temporariamente uma experiência e transformar as condições que a produzem.
A bebida pode modificar a primeira sem necessariamente alterar a segunda.
Em algumas circunstâncias, pode inclusive acrescentar novos problemas.
O desgaste silencioso de uma vida aparentemente funcional
Talvez um dos aspectos mais difíceis de reconhecer em determinadas experiências de alcoolismo seja justamente a coexistência entre sofrimento e funcionamento cotidiano.
A pessoa continua trabalhando.
Conversando.
Pagando contas.
Mantendo relações.
Cumprindo responsabilidades.
Essa capacidade de funcionar, porém, não permite concluir que sua relação com o álcool esteja preservada.
O cumprimento das obrigações não revela necessariamente o custo físico, emocional e subjetivo envolvido em sustentá-las.
O cansaço constante.
A irritabilidade crescente.
A ansiedade difusa.
A perda de clareza.
A dificuldade de descansar.
Nenhum desses sintomas, isoladamente, permite identificar o alcoolismo. Mas todos podem participar das consequências de uma relação problemática com a bebida.
E talvez exista algo particularmente contemporâneo nessa dificuldade de reconhecimento.
Vivemos em uma cultura na qual o cansaço, a ansiedade e a sobrecarga parecem integrar a normalidade da vida adulta.
O sujeito aprende a conviver com o próprio desgaste.
Aprende a funcionar apesar dele.
Aprende a atribuí-lo às circunstâncias.
E, muitas vezes, aprende também a procurar formas imediatas de alívio.
O álcool pode ocupar esse lugar.
Mas, quando se torna parte importante da administração cotidiana das emoções, vale investigar não apenas quanto se bebe, mas também o que a bebida passou a fazer na vida de quem bebe.
O que ela interrompe?
O que permite evitar?
O que parece resolver?
E quais dificuldades permanecem — ou se intensificam — depois que seu efeito desaparece?
Talvez reconhecer uma relação problemática com o álcool envolva também prestar atenção aos desgastes que durante muito tempo pareceram não ter relação com ele.
Não para transformar todo cansaço em alcoolismo.
Nem toda ansiedade em consequência da bebida.
Mas para admitir que uma substância utilizada em busca de descanso, tranquilidade e alívio pode, em determinadas circunstâncias, estar participando da produção do sofrimento que se pretende evitar.
Esse reconhecimento não resolve, por si só, uma relação de dependência.
Mas pode modificar a maneira como o problema é compreendido.
E essa compreensão importa para quem precisa não apenas interromper um consumo, mas reconstruir aspectos da vida que passaram a ser organizados em torno dele.
Rafa Pessato


