ALCOOLISMO: É preciso superar o “ah, mas…” 

Quer parar de beber? Então talvez o primeiro passo não seja largar o álcool.  

Seja largar o “ah, mas…”. 

Existe uma frase silenciosa que acompanha quase toda pessoa que começa a cogitar a sobriedade. Ela não aparece em voz alta no início. Surge como um sussurro interno, uma negociação íntima, uma tentativa elegante de adiar uma decisão que já começou a nascer. 

“Ah, mas…” 

Ah, mas eu nem bebo tanto assim. 

Ah, mas eu já tentei e não consegui. 

Ah, mas precisa de muita força de vontade. 

Ah, mas se Deus quiser… 

Ah, mas viver sem beber também é demais. 

O álcool raramente se sustenta sozinho. Ele precisa de justificativas. Precisa de pequenas histórias que mantenham tudo exatamente como está. O “ah, mas” funciona como uma anestesia cognitiva: não nega completamente o problema, mas o torna administrável o suficiente para não precisar mudar agora. 

E é justamente aí que mora a armadilha. 

Porque a sobriedade quase nunca começa quando a pessoa decide parar de beber. Ela começa quando para de negociar consigo mesma. 

O “AH, MAS” COMO MECANISMO DE PROTEÇÃO 

Do ponto de vista psíquico, o cérebro humano não gosta de rupturas bruscas na identidade. Quando algo ameaça a narrativa que construímos sobre nós mesmos — “eu controlo”, “eu sei parar”, “não sou como aqueles casos graves” — surge um mecanismo automático de defesa: a racionalização. 

A racionalização não é mentira consciente. É proteção emocional. 

Estudos em neurociência da adicção mostram que o uso problemático de substâncias envolve alterações nos circuitos de recompensa e tomada de decisão, especialmente no córtex pré-frontal, região responsável pelo planejamento e autocontrole (Koob & Volkow, 2016). Isso significa que o conflito não é apenas moral ou comportamental; ele é neurobiológico. Parte do cérebro quer mudança. Outra parte quer estabilidade imediata. 

O “ah, mas” nasce exatamente nesse conflito. 

Ele permite reconhecer parcialmente o problema sem precisar enfrentá-lo por inteiro. 

“AH, MAS EU NEM BEBO TANTO ASSIM” 

Talvez essa seja a frase mais comum quando não se quer admitir um problema com o álcool — e a mais enganosa. 

Durante décadas, criou-se a imagem de que o alcoolismo só existe quando há consumo diário, perda extrema de funcionalidade ou degradação visível da vida. Mas a ciência já desmontou essa ideia há muito tempo. 

O risco não depende apenas da frequência. Depende da função que o álcool ocupa. 

Beber apenas nos finais de semana não elimina o problema se toda vez há perda de controle, apagões, arrependimento ou uso emocional da bebida. O binge drinking, por exemplo, mostra exatamente isso: episódios seguidos podem produzir impactos neuropsicológicos significativos, mesmo sem consumo diário. 

O cérebro não contabiliza dias sóbrios. Ele responde à intensidade dos picos de álcool. 

Então a pergunta talvez não seja “quanto eu bebo”, mas: 

o que acontece comigo quando eu bebo? 

“AH, MAS EU JÁ TENTEI E NÃO CONSIGO PARAR” 

Essa frase costuma carregar vergonha. 

Mas ela revela algo importante: tentativa não é fracasso. É evidência de consciência. 

A dependência não é vencida por decisão única porque ela não foi construída em um único dia. O cérebro aprende associações profundas entre álcool e alívio emocional. Cada repetição fortalece conexões neurais que tornam o comportamento automático. 

Isso explica por que parar não é simplesmente “decidir e pronto”. 

A recuperação envolve reaprendizado. Novos circuitos precisam ser construídos. Novas formas de lidar com ansiedade, frustração e vazio precisam surgir. 

Fracassar ao tentar parar não significa incapacidade. Significa que o método talvez ainda não tenha incluído apoio suficiente, compreensão emocional ou mudança de ambiente. 

A ciência comportamental é clara: recaídas fazem parte do processo de reorganização neural. 

O problema não é tentar várias vezes. É desistir.  

“AH, MAS É PRECISO MUITA FORÇA DE VONTADE” 

Outro mito persistente. 

Força de vontade ajuda no início, mas não sustenta mudança de longo prazo sozinha. Estudos neurocomportamentais mostram que autocontrole é um recurso limitado, altamente influenciado por contexto, estresse e hábitos automáticos. 

Sobriedade não é um teste de heroísmo. 

Ela funciona melhor quando deixa de depender exclusivamente da resistência interna e passa a contar com estrutura externa: rotina, apoio social, novas recompensas, terapia, psicanálise, grupos, sentido existencial. 

Não é sobre lutar contra si o tempo todo. 

É sobre reorganizar a vida para não precisar lutar o tempo inteiro. 

“AH, MAS SE DEUS QUISER…” 

A espiritualidade pode ser um recurso poderoso na recuperação. Para muitas pessoas, ela oferece sentido, pertencimento e esperança. O problema surge quando a frase vira transferência total de responsabilidade. 

Esperar que uma força divina resolva aquilo que exige participação ativa transforma fé em adiamento. 

A mudança acontece quando fé e ação caminham juntas. 

Como dizia Arthur Ashe: 

“Comece onde você está, use o que você tem, faça o que você pode.” 

Sobriedade não exige perfeição espiritual. Exige movimento. 

Mesmo pequeno. 

Mesmo imperfeito. 

“AH, MAS SE EU NÃO PUDER NEM BEBER…” 

Aqui aparece o medo mais honesto de todos. 

Porque, no fundo, não é apenas sobre álcool. É sobre identidade. 

Muitas pessoas não conseguem imaginar encontros, celebrações, descanso ou pertencimento sem bebida. O álcool ocupou tantos espaços emocionais que parece impossível existir socialmente sem ele. 

Esse medo não é fraqueza. É luto antecipado. 

Mas algo importante acontece ao longo da recuperação: percebe-se que o problema nunca foi a ausência da bebida — era a ausência de alternativas emocionais. 

A vida sem álcool não é menor. Ela só é desconhecida no início. 

E o cérebro teme mais o desconhecido do que o sofrimento familiar. 

RISCAR O “AH, MAS” NÃO É RADICALIDADE — É CLAREZA 

Superar o “ah, mas” não significa virar uma pessoa rígida ou extrema. Significa interromper negociações internas que prolongam o sofrimento. 

Cada “ah, mas” cria alguns dias, semanas ou anos adicionais dentro do mesmo ciclo. 

A sobriedade começa quando a frase muda de forma: 

não mais “ah, mas…” 

e sim 

“e se…?” 

E se eu puder viver com mais presença? 

E se eu não precisar apagar partes da minha própria vida? 

E se o alívio que procuro não estiver no copo? 

Essa mudança de linguagem parece pequena, mas representa uma mudança profunda de posição subjetiva: sair da justificativa e entrar na possibilidade. 

O PRIMEIRO PASSO NÃO É PARAR DE BEBER 

É parar de fugir da própria honestidade. 

A maioria das pessoas não acorda decidida do nada. Antes existe um acúmulo silencioso de incômodos, perguntas e pequenas percepções que vão abrindo fissuras na narrativa antiga. 

O “ah, mas” tenta fechar essas fissuras. 

A consciência tenta ampliá-las. 

Sobriedade não nasce da perfeição. Nasce do momento em que a pessoa aceita olhar para si, para sua relação com o álcool, sem negociar tanto. 

E talvez seja isso que realmente assuste: descobrir que a mudança não depende de se tornar outra pessoa, mas de finalmente habitar quem você já é. 


Rafa Pessato