Parar de beber em um mundo que CONTINUA BEBENDO 

Você decide parar. 

Talvez porque tenha perdido o controle mais vezes do que gostaria de admitir. Talvez esteja cansado das promessas feitas na manhã seguinte. Ou simplesmente tenha chegado ao ponto em que já não consegue ignorar o que o álcool faz com a sua vida. 

Então para. 

E descobre: o mundo continua bebendo. 

Há cerveja no almoço de domingo, vinho no jantar, espumante na comemoração, chope com os amigos. Há álcool no supermercado, no estádio, na televisão, nas férias. E sempre parece existir alguém capaz de tomar uma taça, largar o copo pela metade e seguir a vida. 

É difícil não pensar: 

se beber é tão normal, por que eu preciso parar? 

Há anos observo essa contradição tanto como alcoolista em sobriedade quanto no meu trabalho com excessos e adicção, sobretudo alcoolismo. 

Quanto mais trabalho com o tema, menos me interessa perguntar apenas quanto uma pessoa bebe ou se bebe mais do que as outras. A cultura importa. O ambiente importa. A quantidade também pode importar. Mas nada disso substitui uma pergunta mais difícil: 

que lugar o álcool ocupa na vida daquela pessoa? 

QUANDO O NORMAL DOS OUTROS VIRA MEDIDA 

O álcool acompanha diferentes sociedades há milhares de anos. Esteve em rituais, celebrações, práticas medicinais e encontros sociais. Tornou-se tão familiar que, muitas vezes, estranhamos mais quem não bebe do que quem bebe. 

Essa familiaridade interfere na maneira como percebemos o próprio consumo. 

Em vez de perguntar: 

“O que o álcool está fazendo comigo?” 

perguntamos: 

“Eu bebo mais do que os outros?” 

Parece uma diferença pequena. Não é. 

Durante muito tempo, também olhei para a bebida pela comparação. Há quem beba pouco, quem beba muito, quem passe meses sem beber e tome duas taças em um jantar. Há até quem abandone metade do copo sobre a mesa — gesto quase misterioso para quem já passou boa parte de uma noite calculando quando viria o próximo. 

Mas a relação do outro com o álcool diz pouco sobre a nossa. 

A medida mais importante não está no copo do vizinho. Está no que acontece quando você bebe. 

Nas regras que cria e rompe. No espaço que o álcool ocupa no pensamento. Nas consequências que se repetem. Naquilo que você promete não fazer outra vez — até fazer. 

Comparar-se com quem consegue beber de outra maneira pode ser uma excelente maneira de continuar bebendo da forma que já não funciona para você. 

O álcool ser legal, socialmente aceito e profundamente incorporado à cultura não muda isso. 

“Mas todo mundo bebe.” 

Talvez. 

E daí? 

Essa frase explica o mundo. Não explica você. 

Quem decide parar não precisa concluir que ninguém deveria beber. Não precisa condenar quem pede vinho no jantar nem transformar a própria sobriedade em regra universal. 

Pode apenas reconhecer: 

eu não quero mais isso na minha vida. 

Ou algo mais difícil: 

eu gostaria de ter com o álcool uma relação que já percebi que não consigo ter. 

Há alguma tristeza nisso. Vemos outras pessoas fazendo aquilo que gostaríamos de fazer: beber ocasionalmente, parar quando querem, esquecer que existe uma garrafa aberta dentro de casa. 

Mas liberdade não é conseguir fazer tudo o que os outros fazem. 

QUANDO O ÁLCOOL SAI, ALGUMA COISA FICA 

Parar de beber revela outra coisa: não bebíamos apenas álcool. 

Bebíamos o fim do expediente. 

A sexta-feira. 

O encontro. 

A comemoração. 

Às vezes, o tédio, a frustração, a ansiedade, a espera. Em outras, bebíamos simplesmente porque beber era o que se fazia naquele momento. 

Quando uma substância ocupou muitos lugares na vida, sua ausência também ocupa. 

Por isso me parece pouco definir sobriedade apenas como não beber. Não beber pode ser um ato indispensável. Mas há a parte menos visível: descobrir o que fazer com os espaços que o álcool preenchia. 

Como descansar? Como comemorar? Como atravessar uma noite ruim? O que fazer com o desejo quando ele aparece? 

Não há uma resposta única porque também não existe uma única história de alcoolismo.  

É nesse ponto que a sobriedade pode deixar de ser somente abstinência e se tornar reconstrução. 

A PERGUNTA QUE MUDA 

O álcool continuará existindo. 

Continuará nas festas, nos restaurantes, nas propagandas e nas casas das pessoas que amamos. 

Algumas beberão sem viver a relação que vivemos. Outras talvez tenham problemas que ainda não reconhecem. 

Isso também não nos pertence. 

Durante algum tempo, pode permanecer a pergunta: 

por que preciso abrir mão de algo que parece tão simples para os outros? 

Eu conheço essa pergunta. 

Mas, com os anos, outra se tornou mais importante para mim: 

o que aconteceria comigo se eu voltasse a beber? 

Comigo. 

Não com a pessoa da mesa ao lado. Não com quem toma duas taças e vai para casa. Não com a personagem feliz do anúncio de cerveja. 

Com a minha vida. Com tudo aquilo que precisei reconstruir depois do álcool.  

O mundo pode continuar bebendo. A questão já não é essa. Mas se ainda faz sentido que eu beba. 


Rafa Pessato 

Atua profissionalmente no campo dos excessos e das adicções, sobretudo alcoolismo, articulando filosofia, pesquisa e experiência vivida para pensar sobriedade, reconstrução da vida e realização.