4 Fases do ALCOOLISMO: Você se reconhece em alguma delas?

A gente gosta de fases. 

Fases dão uma certa organização ao caos. 

Primeiro acontece isso. Depois aquilo. Aqui ainda está tudo bem. Dali para frente, começa a ficar preocupante. 

Talvez por isso a ideia das quatro fases do alcoolismo tenha atravessado tantas décadas. 

Em 1952, E. M. Jellinek publicou seu conhecido trabalho sobre as fases da dependência do álcool, a partir de relatos de pessoas alcoolistas. O modelo descrevia uma trajetória que ia da fase pré-alcoólica à prodrômica, depois à crucial e, finalmente, à crônica.  

A PRIMEIRA FASE parece, inclusive, bastante familiar. 

A pessoa bebe socialmente, mas começa a descobrir outras utilidades para o álcool. 

Beber relaxa. 

Ajuda a esquecer. 

Facilita uma conversa. 

Torna a noite mais suportável. 

Desliga a cabeça depois de um dia difícil. 

No modelo clássico, o álcool começa a ganhar uma função de alívio e pode haver aumento da tolerância. 

Mas há um problema em olhar para isso e concluir: 

“Então essa é a primeira fase do alcoolismo.” 

Nem todo mundo que bebe para relaxar desenvolverá um transtorno. E nem todo alcoolista começa sua história exatamente assim. 

Seguimos para a SEGUNDA FASE, a chamada prodrômica

Aqui aparecem sinais que talvez sejam mais difíceis de encaixar na ideia de “eu só gosto de beber”. 

Apagões de memória. Preocupação com a bebida. Culpa. Beber escondido. Aquele pedaço da noite que desapareceu, embora você aparentemente estivesse acordado durante ele. 

No antigo roteiro, seriam indícios de progressão. 

Só que a vida não lê o roteiro antes de acontecer. 

Esses sinais não precisam aparecer todos, nem exatamente nessa ordem. Estudos posteriores encontraram apenas apoio parcial para uma sequência rígida dos sintomas descritos por Jellinek.  

Depois viria a FASE CRUCIAL

Talvez seja onde uma das questões mais conhecidas do alcoolismo começa a ficar evidente: 

perder o controle sobre o quanto se bebe depois que se começa. 

Você pode ainda decidir que hoje vai beber. 

O problema é que a decisão sobre quanto beber começa a ter menos autoridade depois do primeiro copo. 

Dois viram seis. 

“Só hoje” começa a acontecer várias vezes. 

Surgem estratégias: mudar de bebida, estabelecer horário, beber apenas no fim de semana, comprar menos, prometer que dessa vez será diferente. 

Algumas funcionam por algum tempo. 

Outras desaparecem assim que o álcool entra em cena. 

Então chegamos à FASE CRÔNICA

E aqui mora a imagem que muita gente ainda carrega quando ouve a palavra alcoolismo. 

A pessoa que bebe todos os dias. 

Que apresenta tremores. 

Que perdeu trabalho, relações, saúde. 

Que precisa beber para funcionar. 

É uma possibilidade real e grave. 

Mas talvez essa imagem tenha produzido também um estranho efeito colateral: 

enquanto eu não estiver assim, posso continuar dizendo que meu problema não é tão sério. 

É aí que as quatro fases começam a nos atrapalhar. 

Hoje, a clínica não exige que alguém percorra essa sequência para reconhecer um Transtorno por Uso de Álcool. 

O DSM-5-TR considera 11 critérios que podem aparecer em combinações diferentes durante um período de 12 meses. Entre eles estão beber mais ou por mais tempo do que pretendia, tentar reduzir sem conseguir, gastar muito tempo bebendo ou se recuperando, sentir fissura, abandonar atividades e continuar consumindo apesar dos prejuízos. Tolerância e abstinência também estão na lista — mas são dois critérios entre onze

Talvez esse detalhe seja mais importante do que parece. 

Porque significa que você não precisa esperar pela dependência física para perceber que alguma coisa na sua relação com o álcool está acontecendo. 

O transtorno pode ser classificado como leve, moderado ou grave conforme o número de critérios presentes. Mas nem isso deveria virar uma nova escada. 

“Leve” não significa “fase um”. 

“Grave” não significa “fase três”. 

Estamos falando de gravidade, não de uma estrada obrigatória pela qual todo alcoolista precisa passar.  

E isso combina muito mais com a vida como ela realmente é. 

Há pessoas que pioram rapidamente. 

Outras passam anos oscilando. 

Há interrupções, períodos de abstinência, recaídas, mudanças de contexto, relações que terminam, empregos que mudam, perdas, encontros, tratamentos, decisões. 

Também há diferentes vulnerabilidades biológicas, psicológicas e ambientais. O próprio risco de desenvolver um transtorno não depende de uma única causa.  

Talvez tenhamos gostado tanto das quatro fases porque elas prometiam uma fronteira. 

Até aqui, não sou alcoolista. 

Daqui para frente, sou. 

Mas a relação com o álcool raramente oferece uma placa tão educada avisando que acabamos de atravessá-la. 

Às vezes, a mudança aparece primeiro numa promessa que começou a ser repetida. 

Na quantidade que já não é a planejada. 

Na importância que a bebida ganhou. 

Na necessidade de justificar. 

Na tentativa de parar que dura menos do que deveria. 

Naquilo que você continua fazendo apesar de já saber o preço. 

Por isso, ainda considero interessante conhecer as quatro fases de Jellinek. 

Elas fazem parte da história da maneira como tentamos compreender o alcoolismo. 

Só não acho que você precise descobrir exatamente em qual delas está

Talvez exista uma pergunta menos organizada. 

E justamente por isso, mais difícil: 

O que o álcool já começou a mudar na minha vida? 

E, se você já consegue perceber alguma coisa mudando, 

por que precisaria esperar a próxima “fase” para levar isso a sério? 


Rafa Pessato