ALCOOLISMO: Quando tudo parece perdido. A sobriedade nos ensina a desconfiar da primeira interpretação de uma crise 

Ontem à noite, após meus filhos dormirem, sentei-me no sofá. 

Eu vinha de um domingo em que um problema técnico havia ocupado espaço demais na minha cabeça. Depois de algumas divagações, acabei voltando a um de meus temas preferidos: a mente humana. 

É curioso como ela consegue chegar rapidamente às conclusões mais definitivas. 

“Perdi tudo.” 

“Não vale mais a pena.” 

“Depois de tanto esforço, para quê recomeçar?” 

Quando o medo assume a interpretação dos acontecimentos, a conclusão costuma chegar antes de uma leitura mais calma dos fatos. 

E foi então que me lembrei da antiga história chinesa do homem da fronteira e seu cavalo, hoje muito conhecida na versão em que ele responde apenas: 

— Talvez. 

Seu cavalo desaparece. 

Os vizinhos dizem: 

— Que azar. 

— Talvez. 

Dias depois, o cavalo retorna trazendo outros cavalos. 

— Que sorte! 

— Talvez. 

Seu filho cai de um deles e quebra a perna. 

— Que tragédia. 

— Talvez. 

Pouco tempo depois, homens da região são convocados para a guerra. Por causa da fratura, seu filho permanece em casa. 

A história termina sem dizer se aquilo foi sorte ou azar. 

Talvez porque esse nunca tenha sido o ponto. 

Ela não ensina que tudo termina bem. Ensina algo um pouco mais incômodo: 

nem sempre sabemos, enquanto uma história ainda está acontecendo, o que determinado acontecimento significará. 

No alcoolismo, a urgência pode se tornar muito familiar. 

Beber agora. 

Resolver agora. 

Responder agora. 

Desistir agora. 

Quando durante muito tempo o álcool serviu como uma resposta rápida ao desconforto, suportar o intervalo entre sentir e agir pode ser difícil. 

E isso não desaparece necessariamente apenas porque paramos de beber. 

Uma recaída. 

Uma perda. 

Uma crise no casamento. 

A demissão. 

A vergonha. 

Uma fissura intensa. 

Tudo pode ser vivido não apenas pelo que é, mas como se já trouxesse também uma sentença sobre tudo o que virá depois. 

É aí que a sobriedade começa a ensinar uma distinção importante. 

Uma coisa é reconhecer que algo é grave. 

Outra é concluir, no auge do medo, que aquilo define todo o futuro. 

Lembro-me de uma pergunta que anotei há algum tempo: 

“Isso é um desastre ou apenas um inconveniente?” 

Gosto dela porque cria um pequeno espaço entre o acontecimento e a nossa reação. 

Esse espaço é precioso. 

E, às vezes, evidentemente, a resposta será: é um desastre. 

Há acontecimentos que exigem ação imediata. Há perdas reais, situações graves, consequências que não podem ser relativizadas. 

Esperar não significa negar a realidade. 

Muito menos usar o “talvez” para fingir que nada aconteceu. 

A questão é outra: 

eu preciso agir agora ou é a minha angústia que precisa que eu faça alguma coisa agora? 

Foi exatamente o que tentei observar naquele domingo. 

Em vez de passar o dia tentando resolver compulsivamente um problema técnico, decidi fazer outra coisa. 

Depois fui visitar minha mãe. 

Poderia ter caminhado. 

Poderia ter descascado uma mexerica. 

A atividade em si pouco importava. 

O importante era não obedecer imediatamente à urgência da mente. 

Há uma formulação de Amit Goswami de que gosto como metáfora:  

do-be-do-be-do — alternar fazer e ser. 

Fazer. 

Ser. 

Fazer novamente. 

Não porque exista uma regra segundo a qual primeiro precisamos “ser” para depois agir, mas porque fazer sem cessar nem sempre produz clareza. 

Talvez não seja por acaso que algumas das melhores respostas as quais recebi do universo tenham me chegado apenas quando a “casa” silenciou. 

Nenhuma delas surgiu enquanto eu insistia em controlar tudo. 

A sobriedade talvez também seja isso: aprender a suportar por algum tempo o espaço em que ainda não sabemos. 

Sem beber para interrompê-lo. 

Sem correr necessariamente para preenchê-lo. 

Sem transformar a primeira interpretação em verdade definitiva. 

Hoje olho para aquele problema de forma diferente. 

Não porque ele tenha desaparecido. 

Nem porque eu saiba que dele surgirá alguma coisa boa. 

Mas porque deixou de ocupar o lugar de uma tragédia antes mesmo de eu saber o que ele realmente significa. 

Talvez seja apenas mais uma dessas circunstâncias que, vistas de perto, parecem anunciar o fim e, vistas depois de algum tempo, revelam outra coisa. 

Uma perda. 

Um inconveniente. 

Uma mudança de direção. 

Ou até algo que ainda não sei nomear. 

Ainda não sei. 

Talvez. 


Rafa Pessato