SEXTOU: COMO SE DIVERTIR SEM ÁLCOOL?

Durante muito tempo, o álcool foi meu companheiro na busca pela tal diversão.
Mas não apenas nela.
A bebida também começou a mediar meus relacionamentos. Não falo somente dos amorosos. Até nos vínculos com pessoas muito próximas, inclusive familiares, fui aprendendo que beber funcionava: facilitava conversas, encontros, aproximações. Havia ainda outra função importante para mim: por algum tempo, o álcool silenciava uma mente inquieta que parecia não parar.
Por isso, quando penso hoje na pergunta “como me divertir sem álcool?”, ela me parece bem menos simples do que uma lista de programas para fazer numa sexta-feira.
Afinal, o que é diversão?
Em cada período da vida, essa palavra pode ter significados, cores e sabores diferentes. Grande parte das crianças, por exemplo, não pensa muito em diversão. Simplesmente se diverte. Brinca com o que encontra, inventa alguma coisa, perde o interesse, começa outra. Não precisa necessariamente organizar a experiência ou se perguntar se está aproveitando suficientemente o tempo.
Então crescemos e aprendemos muitas coisas — inclusive como se divertir.
Aprendemos que determinados dias pedem determinados programas. Que existem ritos, lugares, horários, esquentas e quantidades. Que algumas situações são divertidas porque todo mundo parece concordar que são, mesmo quando, olhando com alguma distância, nem tudo nelas parece tão divertido assim.
E o álcool pode ocupar um lugar importante nessa aprendizagem.
No meu caso, ocupou.
Há inclusive uma ironia nisso: durante algum tempo, eu podia ser a estraga-prazer porque bebia demais. Depois, poderia estragar a brincadeira novamente porque não bebia.
Muda a razão, mas permanece uma sensação conhecida: estar fora da medida esperada.
QUANDO O ÁLCOOL SAI, O QUE FICA?
Parar de beber traz muitos benefícios para quem vivia aprisionado numa relação problemática com o álcool. Isso não significa que tudo o que deixamos para trás seja percebido imediatamente como libertação.
Também existem hábitos, expectativas, rituais e formas de relacionamento construídos durante anos. Há uma sexta-feira que já sabíamos como viver. Um encontro cujo roteiro conhecíamos. Até uma determinada maneira de lidar com nós mesmos.
Quando o álcool cumpria várias funções, retirá-lo não responde automaticamente ao que fazer com os espaços que ele ocupava.
Algumas pessoas mantêm praticamente as mesmas rotinas e aprendem a vivê-las sem beber. Para outras, a mudança alcança lugares, relações, hábitos e maneiras de passar o tempo. Não existe uma única forma correta de construir essa vida.
No meu caso, a sobriedade abriu uma pergunta que continua interessante mesmo depois de oito anos: do que eu realmente gosto?
Não parece uma pergunta muito sofisticada. Mas pode ser surpreendentemente difícil respondê-la quando passamos muito tempo repetindo aquilo que aprendemos que deveria ser divertido.
E existe outra pergunta ainda mais incômoda: estar comigo é tão chato que preciso preencher cada momento, cada silêncio, cada pensamento?
Se for, tudo bem. Posso ser chata.
Mas também posso descobrir o que acontece quando não tento imediatamente escapar disso.
Uma das coisas de que gosto no mindfulness é justamente sua simplicidade. Não preciso transformar cada momento em uma grande experiência de autoconhecimento. Posso apenas perceber onde estou, o que estou fazendo, para onde minha atenção foi. Estar presente e estar dispersa, mesmo quando estou sozinha, tornou-se um jogo interessante que pratico ao longo da sobriedade.
E a dispersão não é necessariamente um problema.
Posso assistir a alguma bobagem. Passar horas fazendo algo sem importância. Rir. Descansar. Não aprender nada. Não produzir nada. Não transformar uma sexta-feira em exercício de evolução pessoal.
Diversão também pode ser isso.
SEXTAR DE OUTRO JEITO
Existe algo de criativo em descobrir como queremos usar o próprio tempo.
Criatividade, aqui, não significa necessariamente produzir uma obra, inventar alguma coisa extraordinária ou transformar o ócio em produtividade disfarçada. Pode ser simplesmente não receber todas as respostas prontas.
O que quero fazer hoje?
Com quem quero estar?
Quero conversa ou silêncio? Movimento ou descanso? Quero me concentrar em alguma coisa ou simplesmente me distrair?
Não precisamos viver cada instante de maneira consciente, produtiva ou significativa. Isso seria apenas outra prisão. Mas existe uma diferença entre poder escolher a distração e precisar continuamente de alguma coisa que nos retire de onde estamos.
Foi uma diferença que comecei a perceber quando parei de beber.
O “sextou” pode nunca mais voltar a ser o mesmo.
Ainda bem.
Seria estranho deixar uma relação que me aprisionava e esperar que nada novo surgisse no espaço deixado por ela.
Para mim, mesmo depois de oito anos sem álcool, esse processo continua porque não entendo sobriedade apenas como abstinência. Há uma vida inteira acontecendo depois que a bebida sai, e parte dela consiste em descobrir o que fazer com o tempo, com os vínculos, com o silêncio, com o prazer e com o tédio.
—
E vamos de outro sextou.
Rafa Pessato


