ALCOOLISMO: 3 Mitos Sobre Parar De Beber 

Algumas ideias sobre parar de beber parecem verdadeiras até o momento em que alguém tenta colocá-las em prática. 

“Nem todo mundo precisa chegar ao fundo do poço para parar de beber.” 

Considerando essa afirmação, aceita por muitos, imagine acordar em um belo dia ensolarado e dizer: “A partir de hoje, não bebo mais”. Depois disso, basta seguir a vida e se manter distante do álcool. 

Contudo, a realidade pesa tanto quanto o copo e costuma se mostrar diferente da expectativa. 

Para algumas pessoas, talvez a mudança realmente aconteça de maneira menos turbulenta: decidem parar de beber, param e nunca mais têm contato com o álcool. Para outras, porém, existe uma longa distância entre perceber que precisam parar e efetivamente conseguir. 

Nessa distância podem caber anos de tentativas. 

Promessas feitas pela manhã e quebradas à noite. Períodos sem beber seguidos de recaídas. Tentativas de beber apenas nos finais de semana, apenas vinho, apenas duas taças. Tratamentos iniciados e abandonados. Pedidos de ajuda. Negação. Vergonha. Esperança. Desistência. Novas tentativas. 

Eu conheço bem esse território. 

Por isso, tenho certa resistência quando parar de beber é apresentado como uma equação simples entre querer e fazer. 

O alcoolismo é mais complexo do que isso. 

O Transtorno por Uso de Álcool é caracterizado justamente pela dificuldade de interromper ou controlar o consumo apesar das consequências negativas. Conforme o transtorno se torna mais grave, alterações relacionadas ao uso do álcool podem tornar ainda mais difícil reduzir ou interromper o consumo. 

Mas a ciência explica apenas uma parte do que quero discutir aqui. 

Há também aquilo que aprendemos culturalmente sobre o alcoolismo. As frases repetidas por familiares, por quem bebe, por quem parou de beber e até por quem nunca viveu o problema. 

Algumas delas contêm alguma verdade. O problema começa quando uma parte da verdade passa a explicar o todo. 

Escolhi três. 

MITO 1 — PARA PARAR DE BEBER, BASTA QUERER 

“Quando você quiser de verdade, você para.” 

É uma frase aparentemente lógica. 

Afinal, existe uma decisão envolvida. Não acredito em uma sobriedade construída sem a participação de quem está tentando vivê-la. 

Mas entre querer, poder e conseguir existe um caminho. 

E nem tudo o que acontece nesse caminho é bonito, coerente ou saudável. 

Uma pessoa pode querer parar e, no mesmo dia, querer beber. 

Pode saber que o álcool está destruindo partes importantes da sua vida e ainda assim encontrar razões para abrir outra garrafa. 

Pode passar semanas sem beber e decidir que agora aprendeu a controlar. 

Pode pedir ajuda e depois rejeitá-la. 

Pode mentir para os outros e, principalmente, para si mesma. 

Pode desejar uma vida diferente e continuar repetindo justamente aquilo que a impede de construí-la. 

Essa contradição não é estranha ao alcoolismo. 

O uso repetido de álcool pode afetar circuitos relacionados à recompensa, ao estresse, à formação de hábitos, à tomada de decisões e ao controle dos impulsos. Em quadros mais graves, essas alterações ajudam a compreender por que parar pode ser tão difícil mesmo quando as consequências já são evidentes. 

Mas isso não elimina a escolha. 

Para mim, esse é um ponto importante. 

Reconhecer que o alcoolismo compromete a capacidade de controle não significa transformar o alcoolista em alguém completamente passivo diante da própria história. Assim como falar em responsabilidade não significa concluir que quem não conseguiu parar simplesmente não quis o suficiente. 

Talvez uma das partes mais difíceis esteja justamente aí. 

Querer importa. Mas querer não basta. 

Entre o desejo de parar e uma vida em sobriedade podem existir muitas escolhas — algumas que aproximam a pessoa da vida que deseja construir e outras que a mantêm presa ao mesmo ciclo. 

MITO 2 — VOCÊ PRECISA CHEGAR AO FUNDO DO POÇO PARA PARAR 

Durante décadas, circulou no campo do alcoolismo a ideia de que seria preciso chegar ao “fundo do poço” para finalmente reconhecer o problema e mudar. 

Eu penso diferente. 

O fundo do poço pode ser um ponto de virada. Não é condição para a mudança. 

Há pessoas que param depois de uma internação, de uma separação, de uma demissão, de um acidente ou de um diagnóstico. Algo acontece e divide a história entre um antes e um depois. 

Mas nem todo ponto de virada precisa ser uma catástrofe. 

Às vezes, olhando de fora, parece até que a pessoa parou de beber do nada. 

Eu desconfio desse “do nada”. 

Porque o último copo pode ter uma data, mas a decisão que o tornou o último provavelmente tem uma história. 

Antes dele podem ter existido anos de incômodo. Promessas. Ressacas. Vergonha. Tentativas de controle. Conversas esquecidas pelos outros, mas não por quem as ouviu. Pequenas perdas. Medo. Períodos sem beber. A percepção cada vez mais difícil de ignorar de que o álcool já não cabe na vida da mesma maneira. 

Nem sempre existe um grande acontecimento. 

Às vezes existe um acúmulo. 

E talvez seja justamente esse acúmulo que a imagem do fundo do poço esconda quando nos faz procurar uma grande tragédia capaz de explicar a mudança. 

A pesquisa sobre motivação para mudar o consumo de álcool também não mostra uma equação simples em que consequências cada vez mais graves produzam automaticamente maior disposição para parar. Sofrimento pode participar da mudança, mas não existe uma quantidade determinada de perdas que finalmente faça alguém querer ou conseguir parar. 

Por isso, não acho que o problema da ideia de “fundo do poço” seja apenas fazer alguém esperar a vida piorar. 

Ela também empobrece a pergunta. 

Em vez de perguntar “o que aconteceu para você finalmente parar?”, talvez devêssemos perguntar: 

“o que vinha acontecendo até que parar se tornou possível?” 

A diferença parece pequena. 

Não é. 

Uma procura pelo acontecimento. 

A outra procura pela história. 

MITO 3 — PARAR DE BEBER É O MESMO QUE VIVER EM SOBRIEDADE 

Aqui faço uma distinção que considero fundamental. 

Abstinência é não beber. 

E isso não é pouco. 

Para quem passou anos preso ao álcool, atravessar um dia, uma semana, um mês ou um ano sem beber pode representar uma mudança imensa. 

Mas eu não entendo sobriedade como sinônimo de abstinência. 

Para mim, a abstinência é inerente à sobriedade, mas não é suficiente para defini-la. 

Antes de dizer a uma pessoa que ela precisa parar de beber, é comum ouvir que ela precisa beber menos. 

Eu mesma tentei. 

Controlar a quantidade. Escolher o que beber. Determinar os dias. Criar regras que me permitissem continuar bebendo sem continuar vivendo as consequências da bebida. 

Existe uma ideia sedutora nessa negociação: talvez eu não precise abandonar o álcool; talvez precise apenas aprender a usá-lo corretamente. 

Para quem consegue estabelecer uma relação moderada com a bebida, essa é outra discussão. 

Quando falo do alcoolista e da sobriedade que construo e investigo, não estou falando em aprender a beber moderadamente. 

Estou falando em não beber e reconstruir a própria existência sem o álcool. 

Porque retirar o álcool não retira automaticamente tudo aquilo que foi organizado em torno dele. 

O horário em que se bebia continua existindo. 

Algumas relações continuam existindo. 

Os conflitos continuam existindo. 

O tédio aparece. 

A angústia aparece. 

O desejo aparece. 

E talvez apareçam coisas que estavam ali havia muito tempo, mas que o álcool ajudava a adiar, anestesiar ou simplesmente não olhar. 

Também não acredito que exista necessariamente um grande trauma escondido atrás de todo alcoolismo, esperando para ser descoberto. 

Nem que seja preciso resolver a vida inteira para permanecer sem beber. 

A questão me parece outra. 

Durante muito tempo, o álcool pode ocupar funções diferentes na existência de uma pessoa: companhia, anestesia, recompensa, fuga, coragem, ritual, pertencimento, interrupção do pensamento, alívio. 

Quando ele deixa de estar disponível, não desaparecem automaticamente as necessidades às quais respondia. 

É nesse ponto que, para mim, abstinência e sobriedade começam a se separar. 

A abstinência responde a uma pergunta objetiva: 

estou bebendo ou não? 

A sobriedade abre outra: 

como vou viver sem aquilo que durante tanto tempo ocupou esse lugar na minha vida? 

PARAR É UM ACONTECIMENTO. SOBRIEDADE É CONSTRUÇÃO. 

Talvez os três mitos tenham algo em comum. 

Todos simplificam processos que são mais contraditórios quando vividos por dentro. 

Querer parar não significa conseguir parar. 

Não é preciso chegar a uma catástrofe para que uma mudança aconteça — e aquilo que parece uma decisão tomada de repente pode ter uma longa história antes dela. 

E parar de beber, embora seja uma mudança concreta e fundamental, não encerra tudo aquilo que está envolvido em viver sem o álcool. 

Eu tenho uma data que marca o dia em que parei de beber. 

Existe um último copo. 

Mas hoje sei que minha história com a sobriedade não começou inteiramente naquele dia. 

Já havia um enredo sendo construído antes dele: nas tentativas, nas contradições, naquilo que eu já percebia e no que ainda não conseguia admitir. E houve outro enredo que começou depois. 

Por isso, contar os dias importa para mim, mas uma data não consegue contar tudo. 

A abstinência pode começar em um dia. 

A sobriedade é construída nos dias que vêm depois — e talvez comece a ser preparada muito antes deles. 

Nas escolhas que parecem grandes e naquelas que ninguém vê. 

Naquilo que precisa ser abandonado e no que precisa ser criado. 

Nas relações que permanecem, nas que mudam e nas que deixam de fazer sentido. 

Na descoberta de outras formas de atravessar o tédio, a angústia, o desejo, a frustração, o prazer e a própria liberdade. 

Talvez seja por isso que eu não pense em sobriedade apenas como a vida preservada quando parei de beber. 

Penso, sobretudo, na vida que precisei — e ainda preciso — construir depois que parei. 


Rafa Pessato