SOBRE PARAR DE BEBER: se não souber o que fazer, desvie 

Desviar, aqui, não é voltar atrás. Também não é evitar o problema, como quem fecha os olhos e finge que ele não existe. 

É parar de enfrentar o álcool diretamente — e começar a agir sobre tudo aquilo que leva você até ele. 

Porque, na prática, o consumo começa antes de pegar o copo. Começa em determinados estados emocionais, lugares, horários, pensamentos e rotinas. Em pequenos movimentos que vão se repetindo até formarem um caminho tão conhecido que, quando percebemos, já estamos novamente diante da bebida. 

E esse comportamento gera um tipo de cansaço decorrente da repetição. É o cansaço de quem já decidiu parar de beber, fez promessas, contou dias, recomeçou inúmeras vezes e, ainda assim, se vê retornando ao mesmo ponto. Depois de tantas repetições, a pessoa pode começar a acreditar que lhe falta caráter, força ou vontade. Pode olhar para os próprios recomeços como provas de fracasso, quando, muitas vezes, o que está falhando não é o desejo de mudar, mas a maneira como age para produzir essa mudança. 

Geralmente, todo o esforço é concentrado no ato final: não pegar o copo, não abrir a garrafa, não entrar no bar. A pessoa tenta intervir quando a fissura já cresceu, o corpo já entrou em estado de expectativa e a bebida parece ocupar todo o espaço da mente. 

Enfrentar a bebida diretamente pode parecer uma conclusão lógica. Se o problema é beber, a solução seria resistir ao desejo de beber. Parece simples, mas na experiência concreta, isso pode transformar a sobriedade em uma luta contínua, travada sempre quando estamos mais vulneráveis. 

Quando o desejo já foi ativado, não se trata apenas de uma escolha isolada entre beber e não beber. Existe um conjunto de processos acontecendo ao mesmo tempo. O ambiente pode favorecer o consumo, o corpo pode antecipar a sensação de alívio e a mente pode começar a produzir as justificativas que já produziu tantas outras vezes. 

“Hoje foi um dia difícil.” 

“Eu mereço.” 

“Será apenas uma dose.” 

“Amanhã eu começo de novo.” 

A bebida ainda não chegou às mãos, mas uma parte do percurso já foi atravessada. 

A neurociência da dependência ajuda a compreender por que isso acontece. O que chamamos fissura (craving — aquele desejo intenso pelo álcool) não surge do nada. Ele pode ser despertado por pistas internas e externas que, ao longo do tempo, foram associadas ao consumo. 

Um lugar, um horário, uma música, uma pessoa, uma lembrança ou o caminho de volta para casa podem ativar expectativas relacionadas à bebida. O mesmo acontece com determinados estados internos: ansiedade, solidão, raiva, tédio, euforia ou exaustão. 

Pode ser o fim de um dia ruim, mas também pode ser o fim de um dia bom. 

Para outra pessoa, esses elementos talvez sejam apenas parte do cotidiano. Para o alcoolista, podem carregar uma história inteira de repetições. 

O corpo, de algum modo, mesmo que a mente não tenha consciência. 

Quando a vontade chega com força, o cérebro pode já ter antecipado a recompensa e mobilizado circuitos envolvidos no desejo, no estresse e na formação de hábitos. George Koob e Nora Volkow descrevem a dependência como um processo no qual ocorrem alterações progressivas em sistemas ligados à recompensa, à regulação emocional e ao controle dos impulsos. 

Com o tempo, o comportamento pode se tornar cada vez mais automático. Isso não significa que a pessoa perdeu toda possibilidade de escolha ou que deixou de ser responsável pela própria vida. Significa que essa escolha não acontece em um espaço vazio. Ela está atravessada por uma história de aprendizagem, repetição e sofrimento. 

Assim, insistir apenas na resistência direta pode ser tão desgastante porque, muitas vezes, estamos tentando intervir tarde demais. Quando o desejo já ganhou forma e o corpo entrou no circuito conhecido, dizer “não” pode exigir um esforço enorme. 

Mesmo nesse momento é possível não beber, contudo, transformar cada dia em uma prova de força é exaustivo. E o resultado é que você pode chegar à abstinência, mas não à sobriedade.  

É aqui que o desvio deixa de parecer fraqueza e começa a fazer sentido como estratégia. 

DESVIAR É AGIR ANTES 

É olhar para o percurso que conduz ao álcool e interferir nele enquanto ainda existem possibilidades de mudança. Em vez de guardar toda a energia para o momento em que a bebida já está diante dos olhos — ou, pior, dentro da cabeça —, a pessoa começa a agir sobre aquilo que costuma antecedê-la. 

Na prática, isso pode significar não ir ao lugar onde o consumo normalmente acontece, mudar o caminho de volta para casa, reorganizar o final do dia ou evitar ficar sozinho justamente no horário em que o desejo costuma aparecer. 

Pode significar também perceber que certos estados emocionais não precisam ser atravessados sem apoio. Uma ligação, uma conversa, uma reunião, uma caminhada ou uma mudança de ambiente podem interromper um movimento que, antes, parecia inevitável. 

Não se trata de fugir da vida. Mas de reconhecer que alguns contextos, ao menos por um tempo, não são neutros. 

Alguns lugares puxam. Algumas rotinas empurram. E certos caminhos, de tão conhecidos, parecem saber exatamente aonde queremos chegar, mesmo quando juramos que não queremos mais ir até lá. 

Esse reconhecimento não diminui ninguém. Ao contrário, pode ser o início de uma relação mais honesta com os próprios limites. 

Em outras palavras, não basta olhar para o consumo em si. É preciso olhar para a cena inteira. 

O que aconteceu naquele dia? Onde você estava? Com quem? O que sentia? O que dizia a si mesmo? Qual foi o primeiro passo, aparentemente inofensivo, na direção da bebida? 

Quando observamos apenas o momento do consumo, podemos acreditar que tudo aconteceu de repente. 

Quase nunca acontece. 

Existe um percurso. E ele pode começar dias antes, quando a pessoa deixa de dormir, se afasta de quem poderia ajudá-la, abandona pequenos cuidados ou passa a alimentar pensamentos que a aproximam novamente do álcool. 

É por isso que desviar exige atenção. Não apenas ao álcool, mas à própria vida. 

DESVIO COMO FILOSOFIA DO DIA A DIA 

Na filosofia, a ideia de interromper movimentos automáticos também não é estranha. Epicteto ensinava que existe um trabalho a ser feito diante das impressões que nos atingem. Nem tudo aquilo que surge em nós precisa receber uma resposta imediata. 

Esse filósofo recomenda que a pessoa reconheça os recursos de que dispõe diante de cada situação: perante o desejo, o autocontrole; perante a dor, a fortaleza; perante a ofensa, a paciência. 

O que podemos retirar dessa reflexão é a importância do intervalo: aquele espaço, às vezes mínimo, entre aquilo que nos atinge e o movimento que costumava vir em seguida. 

Entretanto, esse intervalo não precisa ser produzido apenas por uma força interior quase sobre-humana. Ele também pode ser construído do lado de fora. 

Pode ser uma porta que decidimos não atravessar. Um lugar ao qual não vamos. Uma companhia que buscamos, ou da qual decidimos nos afastar. Uma decisão tomada de manhã para proteger a pessoa que seremos ao final do dia. 

Às vezes, mudamos o mundo ao redor porque, naquele momento, ainda não conseguimos mudar tudo dentro de nós.  

Isso também é cuidado. 

Isso também é responsabilidade. 

É reconhecer os próprios limites sem transformar esse reconhecimento em condenação. 

Pois como alcoolista (em remissão desde 2018), acredito que não queremos passar o restante da vida apenas resistindo a beber. A sobriedade precisa, pouco a pouco, abrir espaço para outras coisas: relações, projetos, descanso, cuidado, sentido e presença. 

Caso contrário, a bebida continua organizando a vida pela ausência. 

De um lado, existe o consumo. 

Do outro, a vigilância permanente para não consumir. 

Nos dois casos, o álcool ocupa o centro. 

Desviar é começar a mudar esse eixo. 

Não como quem nega a dependência, mas como quem se recusa a entregar a ela toda a vida. 

Portanto, se você ainda não consegue avançar na sobriedade de forma direta, não encare o álcool de frente o tempo inteiro. 

Desvie daquilo que leva você até ele. 

Mude o percurso, o ambiente e o ritmo. Não como quem foge, mas como quem compreende que o problema não está apenas no ponto de chegada. 

Está no trajeto inteiro. 

No fim, a questão não é provar que você consegue resistir em qualquer circunstância. 

É construir circunstâncias nas quais resistir deixe de ocupar o centro de tudo. 

E isso, quase sempre, começa antes. 


Rafa Pessato