SEM ÁLCOOL, SEM FILTRO, SEM DESCULPA. O que a sobriedade revela quando você para de se esconder

A sobriedade pode revelar tudo e nada.
Tudo aquilo que esteve escondido atrás de um copo. Nada além de um ser humano, com suas máscaras, contradições, desejos e dificuldades de existir.
Talvez a gente espere demais da sobriedade.
Como se, ao retirar o álcool, uma versão desconhecida de nós mesmos fosse aparecer. Alguém mais interessante, mais corajoso, mais inteiro. Uma espécie de revelação aguardando pacientemente o último gole.
Mas e se não houver ninguém escondido?
E se, por trás das máscaras, encontrarmos apenas a pessoa que fomos construindo ao longo da vida? Com suas escolhas e renúncias, seus mecanismos de defesa, suas histórias mal contadas e outras tantas que sequer conseguimos compreender.
Sem álcool, sem filtro, sem desculpa.
O título parece uma convocação à verdade. Mas de qual verdade estamos falando?
Afinal, parar de beber não significa parar de se esconder.
E talvez seja justamente aí que comece a parte mais difícil da sobriedade.
O que havia dentro daquele copo?
É curioso pensar na quantidade de funções que um único líquido pode assumir.
O álcool pode ser companhia para quem está sozinho. Coragem para quem sente medo. Desinibição para quem se percebe inadequado. Descanso para quem não consegue interromper os próprios pensamentos.
Pode ser celebração, anestesia, recompensa, castigo.
Em determinados momentos, chega a parecer uma solução bastante eficiente. Bastam alguns goles para que o mundo adquira outra temperatura. O corpo relaxa, as palavras saem, a vergonha diminui, a tristeza perde um pouco de sua nitidez.
O problema é que aquilo que parece funcionar por algumas horas pode, com o tempo, exigir cada vez mais de nós.
A bebida deixa de participar da vida para começar a organizá-la.
Há quem espere o fim do expediente para beber. Quem precise de uma dose para encontrar pessoas. Quem organize compromissos em torno da possibilidade de consumir álcool. Quem passe parte do dia pensando quando finalmente poderá beber.
E há quem já não consiga distinguir o prazer de beber do alívio de não precisar enfrentar a vontade de beber.
Não se trata apenas de falta de disciplina.
O álcool interfere nos circuitos cerebrais envolvidos na recompensa, na aprendizagem, no estresse e no controle do comportamento. Com o consumo excessivo e repetido, pode ocorrer uma mudança importante: a bebida, inicialmente procurada pelo prazer, passa a ser buscada também para aliviar o mal-estar que sua própria ausência provoca.
Mas a neurociência não responde a todas as perguntas.
Ela pode ajudar a explicar por que uma pessoa continua bebendo apesar das consequências. Não necessariamente explica o significado que aquela bebida adquiriu em sua história.
Por que beber parecia tão necessário?
O que se tornava suportável depois do primeiro copo?
E o que parecia impossível sem ele?
Essas perguntas não desaparecem quando deixamos de beber. Em muitos casos, começam a fazer sentido justamente depois.
A ESTRANHA EXPERIÊNCIA DE ESTAR PRESENTE
Existe algo desconcertante em viver um acontecimento inteiro.
Uma festa sem a expectativa da primeira bebida. Um jantar em que a conversa precisa encontrar seu próprio ritmo. Uma noite difícil sem a promessa de adormecer alcoolizado.
Até mesmo um domingo pode parecer grande demais.
Quando o álcool deixa de ocupar determinados espaços, o tempo se modifica.
As horas não passam necessariamente mais depressa. O tédio não desaparece. O silêncio pode se tornar ensurdecedor.
Há quem experimente alívio. Há quem sinta uma tristeza inesperada. Outros percebem uma irritação que não sabiam carregar.
E há pessoas que simplesmente não sabem o que fazer consigo mesmas.
O que chamamos de vazio talvez não seja sempre ausência de alguma coisa. Às vezes, é o encontro com um espaço que nunca aprendemos a ocupar sem a bebida.
Claro que nem todo desconforto inicial é uma revelação existencial. O organismo também atravessa adaptações físicas e neurobiológicas. Alterações no sono, ansiedade, irritabilidade e dificuldade de sentir prazer podem acompanhar a interrupção do consumo, especialmente em pessoas que desenvolveram dependência.
Em alguns casos, a abstinência alcoólica pode ser grave e requerer acompanhamento médico.
Mas, ultrapassadas as questões imediatas da interrupção, permanece uma pergunta menos clínica e talvez mais íntima:
O que fazemos com uma vida que já não pode ser interrompida por um gole?
NEM TODA MÁSCARA ERA FEITA DE ÁLCOOL
Durante muito tempo, podemos acreditar que bebemos para ser quem realmente somos.
Mais espontâneos. Mais divertidos. Mais interessantes. Mais desejáveis.
Depois, podemos passar a acreditar no contrário: que a pessoa verdadeira só aparecerá quando estivermos sóbrios.
As duas ideias me parecem insuficientes.
Somos atravessados por papéis sociais, identificações, expectativas, contradições e maneiras de nos proteger. Nem todas essas construções são falsas. Nem todas precisam ser destruídas.
A máscara também pode ter sido uma forma de sobreviver.
Há uma diferença entre reconhecer isso e continuar usando a bebida como justificativa para tudo.
O álcool pode ter contribuído para escolhas, conflitos e comportamentos dos quais nos arrependemos. Mas nem tudo o que fizemos alcoolizados pode ser simplesmente atribuído à substância, assim como nem tudo o que sentimos sóbrios corresponde a uma verdade definitiva sobre nós.
O ser humano é menos transparente do que gostaríamos.
Pela psicanálise, podemos pensar que nem sempre sabemos o que desejamos ou por que repetimos aquilo que nos faz sofrer. A retirada do álcool não elimina automaticamente essas contradições.
Pode apenas deixá-las mais visíveis.
Uma pessoa pode continuar evitando conversas difíceis. Pode permanecer em relações que a diminuem. Pode esconder sentimentos, alimentar ressentimentos, procurar aprovação, cultivar fantasias sobre si.
Tudo isso sem beber uma única gota.
Talvez o álcool tenha sido uma das máscaras.
Talvez tenha sido também uma maneira de mantê-las no lugar.
O DESERTO NÃO É NECESSARIAMENTE UM JARDIM
Gosto da imagem do deserto para pensar alguns momentos da sobriedade.
Não porque ele represente um castigo, mas porque nos coloca diante de uma paisagem sem os recursos aos quais estávamos acostumados.
Onde antes havia barulho, pode surgir silêncio. Onde havia euforia, certa monotonia. Onde parecia existir liberdade, descobrimos hábitos que nos conduziam quase sem pedir licença.
Mas seria ingênuo prometer que todo deserto florescerá.
Há quem pare de beber e continue profundamente infeliz. Quem preserve os mesmos conflitos, a mesma solidão, as mesmas dificuldades financeiras ou afetivas.
Alguns descobrem que o problema era maior do que imaginavam.
Outros percebem que haviam atribuído ao álcool responsabilidades que também pertenciam às próprias escolhas, às circunstâncias da vida ou a sofrimentos que mereciam atenção independente da bebida.
A sobriedade não distribui recompensas por bom comportamento.
Podemos conquistar uma vida sem álcool e continuar insatisfeitos com ela.
E isso não invalida a decisão de parar.
A interrupção do consumo pode representar uma mudança fundamental na saúde, nas relações e na capacidade de conduzir a própria vida. Entretanto, a abstinência não realiza, sozinha, o trabalho de reconstrução.
Retirar a bebida pode ser uma condição necessária para muitas transformações. Não é garantia de que elas acontecerão.
O deserto não precisa ser romantizado.
Talvez seja preciso aprender a atravessá-lo antes de decidir o que plantar.
A IMAGINAÇÃO DEPOIS DA ANESTESIA
Uma das coisas mais interessantes da sobriedade, para mim, é pensar no que acontece com a imaginação.
Não apenas a imaginação como fantasia, sonho ou capacidade artística. Mas como possibilidade de conceber uma vida diferente daquela que vinha sendo repetida.
O alcoolismo pode estreitar o horizonte.
A vida continua acontecendo, mas uma parte considerável da atenção fica comprometida com o álcool: quando beber, quanto beber, como esconder, como justificar, como conseguir mais, como lidar com o dia seguinte.
Os planos vão se ajustando ao consumo.
Os desejos também.
É possível que uma pessoa continue trabalhando, amando, viajando e realizando muitas coisas enquanto bebe. Não há uma única experiência de alcoolismo. Mas, quando a bebida passa a ocupar o centro da existência, outras possibilidades podem perder espaço.
E o que acontece quando esse centro deixa de existir?
A resposta não é necessariamente uma explosão de criatividade.
Pode vir primeiro a falta.
Depois, talvez, uma curiosidade.
A vontade de experimentar alguma coisa sem saber se vai gostar. De recuperar um interesse abandonado. De descobrir uma atividade que não tenha a bebida como companhia obrigatória.
Na neurociência, a plasticidade cerebral ajuda a compreender como o cérebro pode modificar padrões de aprendizagem e comportamento ao longo do tempo. Algumas alterações associadas ao consumo prolongado podem melhorar com a abstinência e o tratamento, embora os processos variem entre as pessoas.
Mas há uma dimensão da reconstrução que não se explica apenas pelos circuitos cerebrais.
Trata-se da capacidade de imaginar outros modos de existir.
Talvez você descubra que não gosta mais dos lugares que frequentava. Talvez passe a gostar de alguma coisa que antes desprezava.
Ou talvez descubra que gosta exatamente da mesma vida — mas deseja vivê-la sem depender do álcool.
Não é necessário reinventar tudo.
Às vezes, a reconstrução começa quando deixamos de reproduzir automaticamente o que já não queremos.
O COPO VAZIO E A LIBERDADE
A filosofia existencialista oferece uma provocação interessante para pensar a sobriedade: a liberdade não é necessariamente confortável.
Escolher implica reconhecer possibilidades, mas também limites, consequências e responsabilidades.
Enquanto bebemos, podemos construir explicações que tornam nossas escolhas aparentemente inevitáveis.
Bebi porque estava triste.
Porque estava feliz.
Porque todos estavam bebendo.
Porque tive um dia difícil.
Porque merecia.
Porque não conseguiria de outro jeito.
Muitas dessas razões dizem respeito a experiências reais. Não precisam ser ridicularizadas. A questão começa quando qualquer acontecimento se transforma em autorização para repetir o mesmo comportamento.
Também seria injusto ignorar que o transtorno por uso de álcool compromete, em diferentes graus, a capacidade de controlar o consumo. Não se trata de uma liberdade intacta que alguém simplesmente se recusa a exercer.
Mas isso não elimina a possibilidade de trabalhar, com os recursos e apoios necessários, sobre as próprias escolhas.
A sobriedade pode abrir esse espaço.
E então o copo vazio deixa de ser apenas a ausência de álcool.
Passa a representar uma pergunta.
O que desejo fazer agora?
Não o que esperam de mim. Não aquilo que supostamente fazem as pessoas bem-sucedidas na sobriedade. Não a vida exemplar que eu deveria apresentar para provar que valeu a pena parar.
Mas a vida que, dentro das minhas possibilidades, estou disposta a construir.
Porque podemos trocar a obrigação de beber pela obrigação de sermos sóbrios perfeitos.
E continuar aprisionados a uma imagem.
O PRAZER DE NÃO PRECISAR FUGIR
Também me interessa pensar na relação entre prazer e sobriedade.
Durante muito tempo, algumas pessoas associam a diversão à possibilidade de beber. Uma viagem, um encontro, uma comemoração ou uma sexta-feira parecem incompletos sem álcool.
Quando a bebida desaparece, pode surgir a impressão de que algo essencial foi retirado da experiência.
Mas será que o prazer estava realmente na bebida?
Às vezes, sim. O álcool tem efeitos capazes de produzir sensações prazerosas, e negar isso não ajuda a compreender por que tantas pessoas bebem.
A questão é perceber quando o prazer se transforma em dependência de uma única forma de obtê-lo.
Quando não conseguimos imaginar uma comemoração sem álcool, talvez não estejamos apenas defendendo um gosto. Podemos estar diante de um repertório empobrecido de possibilidades.
Reconstruir esse repertório exige experimentar.
E experimentar envolve frustração.
Nem toda festa será boa. Nem todo encontro valerá a pena. Nem toda noite em casa será interessante.
A vida sóbria não precisa ser uma sequência de pequenos encantamentos.
Há dias absolutamente comuns.
Talvez o ganho esteja também em poder vivê-los sem a necessidade de transformá-los artificialmente em alguma coisa.
Escutar uma música sem esperar que ela produza euforia. Estar com alguém sem precisar vencer a própria timidez por meio da intoxicação. Aceitar que algumas conversas terminem cedo. Que certas festas sejam ruins. Que nem sempre teremos vontade de participar.
O prazer não precisa ser extraordinário para ter valor.
E a sobriedade não precisa ser maravilhosa todos os dias para continuar fazendo sentido.
RECONSTRUIR NÃO É ENCONTRAR UMA PESSOA PERDIDA
Existe uma expressão recorrente nos discursos sobre mudança: voltar a ser quem éramos.
Mas voltar para onde?
Para uma infância idealizada? Para uma juventude anterior aos excessos? Para uma versão de nós mesmos que talvez só exista na memória?
Não sabemos sequer se aquela pessoa ainda seria capaz de viver a realidade atual.
A ideia de recuperação tem seu lugar na saúde e no tratamento do alcoolismo. Mas, quando penso na experiência existencial da sobriedade, prefiro a reconstrução.
Não se trata de negar o passado. Nem de recuperar uma suposta essência preservada sob os escombros.
Trata-se de trabalhar com aquilo que existe.
Com o corpo de agora. Com as relações que permaneceram e as que se perderam. Com os anos vividos, as oportunidades desperdiçadas, os aprendizados, os desejos que mudaram.
E também com aquilo que ainda desconhecemos.
Reconstruir não é simplesmente consertar a pessoa que bebia.
É reconhecer que não somos uma obra concluída.
Talvez por isso a sobriedade tenha menos relação com descobrir quem realmente somos e mais com assumir alguma participação em quem estamos nos tornando.
Sem garantia de que seremos melhores em tudo.
Sem a promessa de que o sofrimento desaparecerá.
Sem transformar cada dificuldade em lição.
Porque continuar vivendo também inclui fracassar, contradizer-se, mudar de opinião e, algumas vezes, não saber o que fazer.
A diferença é que o álcool já não precisa ocupar o lugar de resposta para todas essas experiências.
O QUE PERMANECE QUANDO A BEBIDA ACABA?
Talvez reste muito.
Talvez reste pouco.
Pode haver uma vida inteira pedindo revisão. Ou uma rotina que, retirada a bebida, continua bastante semelhante à anterior.
Algumas pessoas encontram novas possibilidades. Outras precisam primeiro enfrentar consequências concretas, cuidar da saúde, reconstruir vínculos e aprender a lidar com desejos que não desaparecem simplesmente porque decidiram parar.
Não existe uma paisagem universal da sobriedade.
Afinal, somos pessoas diferentes, com histórias diferentes, embora compartilhemos uma relação problemática com a mesma substância.
E isso me faz retornar ao início.
A sobriedade pode revelar tudo e nada.
Pode revelar aquilo que nos esforçamos para esconder durante anos. Mas pode também mostrar que não havia uma grande verdade esperando para ser descoberta.
Havia uma pessoa vivendo.
Às vezes com medo. Às vezes desejando demais. Às vezes aceitando muito pouco. Inventando desculpas, repetindo histórias, confundindo alívio com felicidade.
E agora?
Sem álcool, ainda podemos usar máscaras.
Sem filtro, ainda podemos distorcer o que vemos.
Sem desculpa, ainda podemos não saber o que fazer.
Talvez a sobriedade comece a adquirir outro sentido quando deixamos de exigir dela a revelação de quem somos e passamos a nos perguntar o que faremos com aquilo que conseguimos enxergar.
Porque retirar o álcool de uma vida é uma grande mudança. Reconstruir essa vida é outra história.
E essa história não vem pronta dentro de um copo vazio.
Rafa Pessato


