ALCOOLISMO: cuide da sua vida. O autocuidado como ferramenta de manutenção da sobriedade 

Se você já passou por uma relação difícil com a bebida, sabe que o álcool, por um tempo, parece ser mais do que uma válvula de escape. Ele parece “cuidar” da gente. Mas não cuida no bom sentido. Cuida como uma pessoa fofoqueira que gosta de cuidar da vida alheia: se mete onde não foi chamado, bagunça tudo, faz parecer que está ajudando e depois deixa a casa emocional ainda mais desorganizada. Ele anestesia. Esconde. Confunde. Dá a falsa sensação de colo, quando na verdade está tirando da gente a capacidade de sentir o próprio corpo, escutar a própria dor e responder à vida com alguma presença. 

O que começa como um relaxamento vira prisão. Um descanso que cobra caro depois. Uma pausa que, no fundo, não pausa nada; apenas empurra a vida para depois. E esse “depois” chega com juros: ressaca, culpa, vergonha, ansiedade, cansaço, promessas repetidas, medo de não conseguir parar. A saúde, em todos os níveis, vai pagando a conta. O corpo paga. A mente paga. Os vínculos pagam. A autoestima paga. E, em algum momento, a pessoa percebe que não está mais bebendo para celebrar a vida, mas para suportá-la. 

É nesse cenário que o autocuidado entra como ferramenta de reconstrução — de saúde, de autonomia, de prazer verdadeiro. E mais do que isso: ele vira ferramenta prática e possível de manutenção da sobriedade. Porque parar de beber é uma decisão enorme, mas continuar sóbrio exige uma nova forma de existir no mundo. Não basta retirar o álcool e deixar um buraco aberto no lugar. É preciso aprender a se cuidar de um jeito que o álcool prometia cuidar, mas nunca cuidou. 

Mas calma, não vamos romantizar. Apesar de poder ser leve, criativo e prazeroso, autocuidar-se dá trabalho. Exige consistência, presença, intenção e, muitas vezes, coragem. Coragem para encarar o vazio. Coragem para sustentar o tédio. Coragem para dizer “não”. Coragem para pedir ajuda. Coragem para admitir que algumas formas antigas de viver já não cabem mais. O autocuidado não é uma decoração bonita na vida sóbria. Ele é parte da estrutura. É como reforçar o chão antes de tentar dançar de novo. 

O QUE O ÁLCOOL FAZ COM A SAÚDE — E POR QUE A RECONSTRUÇÃO PRECISA SER INTEGRAL 

Antes de falar de autocuidado, é importante olhar com clareza o estrago que o álcool causa. Não para aumentar culpa, porque culpa demais também paralisa. Mas para tirar o álcool daquele lugar romantizado de “companheiro”, “coragem líquida”, “merecido descanso” ou “única alegria possível”. O álcool não é neutro. Ele tem efeito no corpo, no cérebro, nas emoções, nas relações e na maneira como a pessoa vai se percebendo no mundo. 

O Transtorno por Uso de Álcool, conhecido como TUA, é uma condição séria, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um problema de saúde pública global. O uso crônico de álcool afeta o corpo e a mente de maneiras profundas e nem sempre reversíveis. E isso precisa ser dito com honestidade, sem moralismo e sem terrorismo, porque muitas pessoas só descobrem a gravidade quando já estão muito machucadas. Às vezes, a pessoa ainda trabalha, cuida da casa, paga contas, posta foto sorrindo e, mesmo assim, está adoecendo por dentro. 

Segundo o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism, beber em excesso por longos períodos pode causar danos ao fígado, como esteatose hepática, hepatite alcoólica e cirrose; lesões cerebrais e prejuízos cognitivos; problemas cardiovasculares e imunológicos; distúrbios do sono e do humor; transtornos mentais associados, como depressão e ansiedade; além de dificuldade de regular emoções e impulsos. Não é pouca coisa. O álcool entra como se fosse um atalho para relaxar, mas pode terminar interferindo justamente nas áreas que permitem à pessoa se acalmar, pensar com clareza e escolher melhor. 

Além disso, há o impacto relacional e social: perda de vínculos, de confiança, de presença nas experiências da vida. O corpo sofre, a mente sofre, e a alma também — aquela parte que grita por sentido, por calma, por pertencimento. Talvez “alma” aqui não precise ser entendida de forma religiosa. Pode ser apenas esse lugar íntimo onde a gente sente que existe. Esse lugar que vai ficando abafado quando tudo vira excesso, urgência, fuga ou anestesia. 

A filosofia existencialista, de certa maneira, sempre olhou para essa dificuldade humana de sustentar a própria existência.  

Viver não é simples. Escolher não é simples. Ser livre não é simples. Há uma angústia em estar vivo, porque ninguém vive por nós. E talvez uma das armadilhas do álcool seja justamente oferecer uma falsa suspensão dessa responsabilidade. 

 Por algumas horas, parece que não precisamos decidir, sentir, responder, lembrar, cuidar. Só que a vida continua ali. O boleto continua. A dor continua. O corpo continua. As consequências continuam. O álcool sai do sangue, mas muitas vezes deixa rastros na vida. 

A sobriedade, por isso, não pode ser apenas parar de beber. Precisa ser também um processo de reaprender a viver com prazer, sem precisar fugir de si. É uma reconstrução integral. Não apenas física. Não apenas emocional. Não apenas espiritual. É tudo junto, porque o ser humano não vive em partes separadas. Quando o corpo está exausto, a mente fica mais vulnerável. Quando a mente está em guerra, o corpo adoece. Quando a vida perde sentido, qualquer anestesia parece sedutora. E é aí que o autocuidado entra com força. 

Autocuidado, nesse contexto, não é luxo. Não é frescura. Não é moda de internet. É uma forma concreta de dizer ao corpo e à mente: “Eu não vou mais me abandonar como antes.” E talvez essa seja uma das frases mais importantes da sobriedade. Porque muitas vezes a recaída não começa no copo. Começa antes, no abandono silencioso. Começa quando a pessoa para de dormir direito, para de se alimentar com atenção, engole tudo o que sente, aceita tudo para agradar, vive no limite, se afasta de quem faz bem e passa dias sem se escutar. O copo pode ser o final da história. O descuido costuma ser o começo. 

MAS, AFINAL, O QUE É AUTOCUIDADO? 

Autocuidado não é uma lista de “coisas boas pra fazer”. É uma postura. Uma prática intencional de atenção, escuta e afeto voltada para si mesmo. Não é sobre se mimar o tempo todo, como se a vida sóbria precisasse virar um spa permanente. Também não é sobre controlar tudo, vigiar tudo, transformar o cuidado em mais uma obrigação sufocante. É sobre se responsabilizar com gentileza pela própria vida. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o autocuidado é a capacidade dos indivíduos, famílias e comunidades de promover a saúde, prevenir doenças, manter a saúde e lidar com doenças e deficiências com ou sem o apoio de um profissional de saúde. É uma definição ampla, importante e prática. Mas, de uma maneira mais simples, podemos dizer que autocuidado é toda ação que te ajuda a se manter inteiro, presente e em paz com você mesmo. 

E sabe o que é bonito nisso? O autocuidado pode ser pequeno, silencioso e ainda assim revolucionário. Pode ser tomar um banho sem pressa. Pode ser dizer “não” quando todo mundo espera que você diga “sim”. Pode ser sair pra pedalar ou caminhar, ou simplesmente ficar em silêncio por cinco minutos. Pode ser dormir mais cedo. Pode ser não responder aquela mensagem na hora da raiva. Pode ser marcar uma consulta. Pode ser aceitar que hoje você não dá conta de tudo. Pode ser trocar o “eu mereço beber” por “eu mereço descansar de verdade”. 

Autocuidar-se é dizer para si mesmo, todos os dias: “Eu estou aqui. Eu importo. Eu mereço me tratar com respeito.” E talvez isso pareça simples demais para quem nunca viveu a experiência de se destruir aos poucos. Mas para quem já acordou prometendo parar e bebeu de novo, para quem já se olhou no espelho com vergonha, para quem já sentiu medo de si mesmo, essa frase pode ser quase um recomeço filosófico. Uma pequena revolução íntima. 

A filosofia contemporânea fala muito sobre o sujeito cansado, acelerado, atravessado por cobranças, produtividade, desempenho e excesso. A gente vive numa época em que até descansar parece precisar de justificativa. Se não produz, se culpa. Se para se sente inútil. Se sofre, tenta resolver rápido. Nesse cenário, o álcool pode aparecer como um botão falso de desligar. Só que desligar não é descansar. Anestesiar não é cuidar. Fugir não é se libertar. 

O autocuidado, então, não é apenas fazer algo agradável. É recuperar a própria vida das mãos do excesso. É parar de terceirizar para o álcool a tarefa de aliviar o que precisa ser escutado. É uma forma de voltar para si, mesmo que aos poucos, mesmo que sem glamour, mesmo que alguns dias sejam difíceis. E não precisa começar grande. Na verdade, quase nunca começa grande. Começa com um copo de água. Com um banho. Com uma caminhada curta. Com uma refeição decente. Com uma mensagem pedindo ajuda. Com a decisão de não passar por cima de si mais uma vez. 

POR QUE O AUTOCUIDADO É ESSENCIAL PARA MANTER A SOBRIEDADE 

Quando estamos em processo de deixar a bebida e viver com mais clareza, há um vazio que aparece. Não é só a falta do álcool. É a falta do que ele proporcionava ou parecia proporcionar: alívio, prazer, pausa, socialização, coragem, desligamento. De repente, a pessoa olha para uma sexta-feira à noite e não sabe o que fazer com ela. Vai a uma festa e se sente deslocada. Chega cansada em casa e percebe que não tem mais aquele ritual automático de abrir uma garrafa. Sente raiva, tristeza, solidão ou tédio e não tem mais a antiga saída de emergência. 

Esse vazio não é sinal de fracasso. É sinal de que um espaço foi aberto. Mas espaço aberto precisa ser cuidado. Se não ocuparmos esse espaço com algo que realmente nutre, o risco de recaída aumenta. Não porque a pessoa é fraca, mas porque o cérebro, o corpo e a vida concreta precisam de novos caminhos. A sobriedade não é apenas ausência de álcool; é presença de outras formas de prazer, sentido e regulação. 

O autocuidado preenche esse espaço com presença real. Ele ajuda a regular o sistema nervoso, com respiração, movimento, sono de qualidade e pausas verdadeiras. Ajuda a desenvolver autoestima, porque cada pequena escolha consistente ensina: “Eu posso confiar em mim.” Ajuda a criar novos circuitos de prazer, liberando dopamina de forma mais saudável e menos destrutiva. Ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade, com práticas simples e acessíveis. E aumenta a conexão consigo mesmo, o que também melhora a conexão com os outros. 

A neurociência explica que nosso cérebro precisa de novas fontes de recompensa ao deixar um comportamento compulsivo. Se não tiver prazer alternativo, o sistema de recompensa insiste em buscar o antigo. Isso é muito importante. Porque muita gente acha que, ao parar de beber, basta aguentar. Mas viver sóbrio não deveria ser apenas aguentar. Claro que há dias de resistência. Claro que há momentos em que será necessário atravessar a vontade sem negociar com ela. Mas, no longo prazo, uma vida sustentada apenas por resistência vira uma vida pesada demais. 

Por isso, o autocuidado não é só “bonito”. É neurobiologicamente necessário. O corpo precisa reaprender o prazer sem intoxicação. O cérebro precisa experimentar recompensa sem autodestruição. A mente precisa descobrir que é possível aliviar a tensão sem apagar a consciência. E o coração precisa sentir que existe vida depois do álcool. Não uma vida perfeita, porque isso não existe. Mas uma vida mais inteira. 

Práticas de atenção plena, movimento físico, cuidado com o corpo e escuta das emoções ajudam a mudar padrões de comportamento aditivo. Não de forma mágica, não de um dia para o outro, mas por repetição, por experiência, por presença. A cada vez que você escolhe caminhar em vez de beber, respirar em vez de explodir, escrever em vez de engolir tudo, dormir em vez de se violentar, você está ensinando ao seu corpo uma nova rota. E rota nova, no começo, parece estranha. Mas com o tempo ela vira caminho. 

Há também um ponto existencial importante aqui: o autocuidado devolve uma sensação de autoria. Quando a pessoa está presa no ciclo do álcool, muitas vezes sente que não manda mais na própria vida. O dia gira em torno da bebida, da ressaca, da culpa, da tentativa de controle, da próxima promessa. O autocuidado, por menor que pareça, devolve um gesto de escolha. E isso importa muito. Porque a liberdade, na prática, não aparece apenas nas grandes decisões. Ela aparece no pequeno ato de cuidar da própria vida quando uma parte de nós queria desistir. 

NÃO TEM REGRA: O AUTOCUIDADO PRECISA RESSOAR COM QUEM VOCÊ É 

Agora vem a parte boa: não existe uma fórmula certa de autocuidado. E isso precisa ser dito porque muita gente transforma autocuidado em mais uma comparação. A pessoa vê alguém acordando às cinco da manhã, tomando suco verde, fazendo yoga, meditando por quarenta minutos, escrevendo no diário, lendo filosofia antes do café e pensa: “Pronto, falhei até no autocuidado.” Mas não é sobre isso. Autocuidado não pode virar uma régua para se bater. 

A prática que vai te fazer bem precisa ter a sua cara, o seu gosto, o seu tempo, sua história e sua realidade. Pode ser um banho demorado. Pode ser dançar sozinho no quarto. Pode ser cuidar das plantas, fazer crochê, caminhar no parque ou pintar a unha. Pode ser um passeio de bicicleta, um caderno de sentimentos, uma comida feita com calma. Pode ser observar o céu. Pode ser arrumar uma gaveta. Pode ser ficar em silêncio. Pode ser ouvir uma música que te devolve para você. 

E se você não sabe ainda do que gosta, tudo bem. Muita gente que viveu anos em torno do álcool desaprendeu a desejar outras coisas. Parece exagero, mas não é. Quando o álcool ocupa o lugar de recompensa principal, outros prazeres vão ficando sem cor. A pessoa já não sabe se gosta de sair ou se gostava de beber. Já não sabe se gostava daquela companhia ou se gostava do ambiente em que podia beber. Já não sabe se gostava da própria rotina ou se estava apenas funcionando. Então, na sobriedade, há também esse trabalho delicado: redescobrir gostos. 

Dê-se o direito de experimentar. Não como obrigação, mas como pesquisa de si. Pense no autocuidado como uma investigação íntima: “O que me acalma?” “O que me alegra sem me destruir?” “O que me dá sensação de presença?” “O que me faz acordar no dia seguinte sem arrependimento?” Essas perguntas parecem simples, mas são profundas. Porque, no fundo, elas perguntam que tipo de vida você quer construir agora que não está mais entregando sua liberdade para uma substância. 

Uma proposta prática: escolha um final de semana por mês para testar um novo tipo de autocuidado. Pode até ser uma brincadeira com você mesmo. “Hoje eu vou ver se cozinhar me traz prazer.” Ou: “Hoje eu vou sair sem rumo e observar o que me atrai.” Ou ainda: “Hoje eu vou tentar caminhar sem fone, só para perceber o mundo.” Com o tempo, você constrói seu repertório de autocuidados — como uma caixa de ferramentas emocional e sensorial. 

E essa caixa precisa ser sua. Não adianta colocar nela o que parece bonito para os outros, mas não conversa com você. Tem gente que encontra presença no silêncio. Tem gente que encontra presença no movimento. Tem gente que precisa de natureza. Tem gente que precisa de rotina. Tem gente que se cuida cozinhando. Tem gente que se cuida deixando comida pronta para não cair no caos. Tem gente que se cuida dizendo “não vou hoje”. Tem gente que se cuida dizendo “eu preciso sair de casa um pouco”. 

Sugestões de atividades para sua caixa de autocuidado, mas só vale colocar o que fizer sentido para você: banho demorado com aromas relaxantes; caminhar ouvindo música ou em silêncio; escrever o que sente, sem filtro, num caderno; fazer academia, yoga, pilates ou qualquer movimento corporal; cuidar da pele, do cabelo e do corpo com intenção; contemplar o céu, as árvores, o mar; cozinhar uma comida gostosa e comer com calma; colocar uma música que te emocione e dançar; meditar, respirar fundo, rezar ou agradecer; ir ao cinema sozinho; desconectar do celular por algumas horas; cuidar da casa como quem cuida de si; chorar sem pressa quando for preciso; rir de algo bobo, porque isso também é cuidado. 

O importante é não transformar essa lista em cobrança. Ela é convite. E convite pode ser aceito aos poucos. O autocuidado que sustenta a sobriedade não é aquele que cabe perfeitamente numa imagem bonita de rede social. É aquele que funciona na vida real. Na vida com boleto, filhos, trabalho, cansaço, ansiedade, passado, desejo, medo e vontade de sumir às vezes. É nesse chão que o cuidado precisa acontecer. 

CUIDAR DE SI NÃO É EGOÍSMO, É FUNDAMENTO 

Muita gente sente culpa ao começar a se cuidar. Como se estivesse “deixando os outros de lado”. Isso aparece principalmente em pessoas que passaram a vida tentando dar conta de tudo, agradar todo mundo, sustentar a casa, cuidar da família, trabalhar no limite e ainda sorrir. Mas a verdade é que quando você está bem, você transborda. Quando você está nutrido, consegue dar atenção real, amar com presença e tomar decisões mais conscientes. 

Cuidar de si não significa abandonar os outros. Significa não se abandonar para caber na expectativa dos outros. Existe uma diferença enorme. O alcoolismo, muitas vezes, bagunça essa percepção. A pessoa pode passar anos oscilando entre culpa e fuga. Culpa por não estar presente. Fuga porque a culpa dói demais. E então bebe para não sentir. Depois sente culpa por ter bebido. E o ciclo continua. O autocuidado ajuda a interromper esse circuito porque cria uma terceira possibilidade: em vez de se punir ou fugir, você se responsabiliza. 

Responsabilidade, aqui, não é chicote. É resposta. É a capacidade de responder à própria vida com mais honestidade. E isso tem muito a ver com liberdade. A liberdade não é fazer tudo o que dá vontade. Às vezes, liberdade é justamente não obedecer à primeira vontade. É poder dizer: “Eu quero beber, mas eu não vou beber.” “Eu quero fugir, mas vou ficar comigo.” “Eu quero explodir, mas vou respirar antes.” “Eu quero agradar todo mundo, mas hoje eu preciso me respeitar.” 

E mais: quando você começa a se cuidar, começa também a ver a vida com olhos mais suaves. Começa a se sentir merecedor de estar aqui, sem precisar se anestesiar pra isso. Parece pouco, mas não é. Muita gente bebe porque não suporta a própria presença. Porque a mente é barulhenta. Porque o corpo carrega memórias. Porque o silêncio incomoda. Porque existir, às vezes, pesa. O autocuidado não elimina tudo isso, mas cria um lugar interno mais habitável. 

A filosofia existencialista fala, de muitas maneiras, sobre essa tarefa de assumir a própria existência. Não no sentido de carregar tudo sozinho, mas de reconhecer que ninguém pode viver por nós. Podemos receber ajuda, e devemos buscar ajuda quando necessário. Podemos ter rede, tratamento, terapia, grupos, amigos, família, espiritualidade, literatura, música, natureza. Mas ainda assim existe um ponto íntimo em que precisamos escolher não nos abandonar. Esse ponto é delicado. E é nele que o autocuidado toca. 

Cuidar de si também é fundamento porque a sobriedade precisa de base. Ninguém constrói uma vida nova em cima de exaustão permanente. Ninguém se mantém sóbrio por muito tempo vivendo como se fosse uma máquina quebrada tentando produzir normalidade. Sono importa. Alimentação importa. Movimento importa. Vínculo importa. Prazer importa. Limite importa. Silêncio importa. Sentido importa. E pedir ajuda importa muito. 

Autocuidado não substitui tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico quando eles são necessários. Não substitui grupo de apoio, rede de suporte, acompanhamento profissional ou medicação quando indicada. Mas ele conversa com tudo isso. Ele é o cotidiano da recuperação. É aquilo que acontece entre uma consulta e outra, entre uma crise e outra, entre um domingo e uma segunda-feira. É o jeito como você se trata quando ninguém está vendo. E talvez seja aí que a sobriedade ganhe raiz. 

O AUTOCUIDADO VIRA RITUAL, VIRA CELEBRAÇÃO 

Antes, comemorar era sinônimo de exagero. Agora, pode ser sinônimo de presença. E essa mudança é imensa. Porque muita gente não sente falta apenas do álcool em si. Sente falta do ritual. Do copo bonito. Da sexta-feira. Da sensação de “agora eu posso relaxar”. Do brinde. Da pausa entre o trabalho e a noite. Da ideia de recompensa. Da imagem de si mesmo como alguém leve, sociável, divertido. O problema é que, para quem desenvolveu uma relação difícil com a bebida, esse ritual deixou de ser celebração e passou a ser armadilha. 

Na sobriedade, precisamos criar rituais. Não para imitar o álcool, mas para devolver beleza à vida. Um chá numa xícara bonita pode parecer pouco, mas talvez seja um gesto de presença. Um banho depois de um dia difícil pode ser um rito de passagem entre o caos e o descanso. Uma caminhada no fim da tarde pode virar uma forma de limpar a mente. Preparar uma bebida sem álcool, acender uma vela, ouvir uma música, escrever três linhas, olhar o céu, tudo isso pode ajudar o corpo a entender: “Existe pausa sem veneno.” 

Cada ato de autocuidado pode ser um brinde: “Eu estou aqui, inteiro, sóbrio, sentindo tudo.” Pode parecer pouco para quem vê de fora. Mas para quem já chorou escondido depois de mais um dia de ressaca, para quem já acordou se odiando, para quem já viveu no modo sobrevivência, é muito. É tudo. Porque a celebração deixa de ser fuga e passa a ser encontro. 

E não precisa ser uma celebração barulhenta. Nem toda alegria precisa fazer escândalo. Há alegrias pequenas, quase silenciosas, que sustentam uma vida inteira. A alegria de acordar sem ressaca. De lembrar do que disse. De não precisar checar mensagens com medo. De dirigir sem culpa. De estar presente no aniversário de alguém. De deitar a cabeça no travesseiro sem o gosto amargo da autodestruição. De perceber que a vida continua difícil, mas você não está piorando tudo com as próprias mãos. 

A filosofia contemporânea também nos lembra que vivemos em uma cultura do excesso: excesso de estímulos, de consumo, de imagens, de pressa, de comparação, de performance. Nesse mundo, escolher rituais simples pode parecer quase uma rebeldia. Porque o mercado quer vender alívio rápido. A cultura quer transformar tudo em espetáculo. E o álcool, muitas vezes, entra como produto perfeito dessa lógica: compre, beba, relaxe, pertença, esqueça. Só que a sobriedade faz outro convite: sinta, cuide, escolha, permaneça. 

O autocuidado como ritual ajuda a vida a recuperar textura. A comida volta a ter gosto. O banho volta a ter temperatura. A música volta a atravessar o corpo. O silêncio deixa de ser apenas ameaça e pode virar abrigo. A casa deixa de ser cenário de ressaca e pode virar lugar de reconstrução. O corpo deixa de ser apenas instrumento de sobrevivência e volta a ser morada. E isso é profundamente bonito. 

Não é que todos os dias serão bonitos. Alguns dias serão apenas dias. Alguns serão pesados. Alguns vão pedir ajuda. Alguns vão pedir recolhimento. Mas o ritual existe justamente para esses momentos. Ele é uma lembrança prática de que você tem para onde voltar. Não para o álcool. Para si. 

AUTOCUIDAR-SE É UM ATO RADICAL DE AMOR PRÓPRIO 

A manutenção da sobriedade não depende só de força de vontade ou de promessas. Depende de práticas consistentes que lembrem seu corpo, sua mente e seu coração de que vale a pena estar aqui. Sóbrio. Vivo. Inteiro. A força de vontade pode ajudar em alguns momentos, claro. Mas ela oscila. Tem dia em que acordamos fortes. Tem dia em que acordamos frágeis. Tem dia em que a vontade de beber vem disfarçada de cansaço, de raiva, de nostalgia, de “só hoje”, de “eu mereço”. Por isso, a sobriedade precisa de algo mais profundo do que uma promessa feita no desespero. 

Ela precisa de estrutura. De sentido. De vínculo. De cuidado. De práticas que tornem a vida possível sem anestesia. O autocuidado é essa prática. Esse lembrete diário. Esse voto silencioso de que você merece estar bem, mesmo nos dias difíceis. Não porque a vida ficou perfeita. Não porque você nunca mais vai sofrer. Não porque a vontade nunca mais vai aparecer. Mas porque você decidiu que sua dor não precisa mais ser tratada com aquilo que te destrói. 

Autocuidar-se é radical porque vai contra uma parte da nossa história. Vai contra o hábito de se abandonar. Vai contra a ideia de que só merecemos cuidado depois de sermos produtivos, agradáveis, fortes ou bem-sucedidos. Vai contra a lógica do excesso, que diz que é preciso ir além do limite para provar valor. Vai contra a voz interna que diz: “Você estragou tudo mesmo, então tanto faz.” Não, não tanto faz. Nunca tanto faz. Cada escolha importa. Cada dia sóbrio importa. Cada gesto de cuidado importa. 

E talvez seja aqui que o autocuidado se aproxime mais do amor-próprio. Não daquele amor-próprio de frase pronta, espelho bonito e legenda perfeita. Mas do amor-próprio difícil, cotidiano, às vezes sem poesia. O amor-próprio de beber água. De tomar banho. De dormir. De sair de uma conversa que te machuca. De bloquear uma pessoa se for preciso. De voltar para a terapia. De ir ao médico. De falar a verdade. De aceitar que você não é invencível. De reconhecer que a sobriedade precisa ser protegida. 

Então, da próxima vez que pensar em beber para “comemorar” ou “relaxar”, respire fundo e se pergunte: “Como posso me cuidar agora? Como posso me celebrar de verdade?” Essa pergunta pode parecer pequena, mas abre uma porta. Talvez a resposta seja ligar para alguém. Talvez seja comer alguma coisa. Talvez seja tomar um banho. Talvez seja sair do ambiente. Talvez seja dormir. Talvez seja escrever: “Hoje está difícil, mas eu não preciso beber.” Talvez seja apenas respirar até a onda passar. 

Você vai se surpreender com as respostas que o corpo traz quando a gente escuta com carinho. Porque o corpo, que antes parecia inimigo, também quer voltar para casa. Ele quer descanso. Quer presença. Quer segurança. Quer prazer sem violência. Quer manhãs mais leves. Quer uma vida que não precise ser apagada para ser suportada. 

Respirar fundo, cuidar de si e seguir leve: essa é a nova forma de celebrar a vida. Sem exageros, sem ressaca, sem fugir de quem a gente é. Autocuidado não é mimo — é manutenção da sobriedade, é amor-próprio em ação. É cuidar da sua vida no sentido mais bonito e mais sério da expressão. Não como quem controla tudo. Não como quem nunca falha. Mas como quem finalmente entende que a própria vida merece atenção. 

Qual foi seu ritual de presença hoje? 


Rafa Pessato