ESTÁ PENSANDO EM PARAR DE BEBER HOJE? 3 ações para apoiar sua decisão 

A ideia de parar de beber passou várias vezes pela minha cabeça. 

E, antes de interromper o consumo de fato, houve tentativas frustradas, recaídas vergonhosas, apagões, desmaios e muita vergonha pelos fracassos. Além da culpa por não ser mais “forte” do que uma substância química. 

Esse sentimento de incapacidade era alimentado por meus pensamentos e pelas falas de outras pessoas que, apesar de desejarem o meu bem, não entendiam que frases como “você está bebendo demais”, “está se transformando em outra pessoa” e “precisa parar” não são suficientes para sustentar a sobriedade. 

O alcoolismo é uma doença crônica e multifatorial, que requer ações práticas. E, embora seja uma doença, também exige a investigação das dores e questões que podem estar sendo anestesiadas pelo consumo, pois, quando o álcool sai, aquilo que não foi resolvido pode se tornar ainda mais evidente. 

Mas o que diferencia o desejo de parar de beber da ação de parar — e de sustentar essa escolha no longo prazo — é a decisão. Não basta sonhar, desejar, querer ou ter vontade. Se não houver uma decisão consistente para realizar esse propósito, aliada a ações práticas cotidianas, o desejo se perde. 

A vontade de mudar pode chegar sem aviso; nem sempre controlamos o momento em que ela aparece. A decisão também pode surgir como um insight, a qualquer hora do dia ou da madrugada. A neurociência já demonstrou que nossas decisões não são apenas racionais. Então, quando ela chegar, assuma o controle e, como protagonista da própria vida, aja para que o desejo de parar de beber não permaneça apenas no mundo das ideias, mas passe a fazer parte de sua realidade. 

Para apoiar sua decisão, trago três ações que, embora pareçam simples, trazem coerência para a construção de uma vida em sobriedade. 

Antes, porém, uma ressalva necessária: se você bebe muito, todos os dias ou já apresentou sintomas de abstinência, a interrupção do consumo abruptamente requer atenção. Pois tremores intensos, confusão, alucinações, convulsões, vômitos persistentes ou alterações importantes dos batimentos cardíacos exigem atendimento imediato. 

COMA ANTES DE FICAR COM FOME 

“O corpo é o veículo do ser no mundo.” (Maurice Merleau-Ponty) 

Uma das descobertas mais importantes das neurociências das últimas décadas é que a mente não está separada do corpo. Antonio Damasio contribuiu para demonstrar que aquilo que chamamos de tomada de decisão depende profundamente de sinais corporais. Emoções, impulsos e escolhas emergem de um organismo inteiro, não apenas de processos abstratos de pensamento. 

Essa observação adquire enorme relevância na sobriedade inicial. Muitas vontades que parecem exclusivamente psíquicas possuem componentes fisiológicos significativos. Exaustão, fome, desidratação e privação de sono alteram a percepção subjetiva da realidade. Em determinados momentos, a fissura pode se misturar às necessidades de um organismo que também está pedindo alimento, repouso ou recuperação. 

Existe uma tendência cultural a desprezar necessidades básicas em nome de grandes explicações. Entretanto, parte importante da reconstrução começa justamente pelo reconhecimento da vulnerabilidade do corpo. 

Sem abandonar a investigação dos sintomas do alcoolismo e das questões relacionadas a ele, neste primeiro dia sem beber convém verificar se o corpo recebeu o mínimo necessário para funcionar adequadamente. Em certos dias, a diferença entre sustentar uma decisão e ceder à fissura pode passar por algo tão simples quanto uma refeição feita na hora certa. 

NÃO FREQUENTE LUGARES PARA TESTAR SUA FORÇA 

“Nenhum homem é livre se não é senhor de si mesmo.” (Frase atribuída à Epicteto) 

A cultura contemporânea admira demonstrações de autocontrole. Existe algo heroico na imagem de alguém que entra em um bar, recusa uma bebida e sai vitorioso. O problema é que o cérebro não opera segundo categorias morais. Circuitos neurais não dizem respeito a coragem, orgulho ou boas intenções. Eles respondem, entre outras coisas, a associações aprendidas. 

Pesquisas demonstram que ambientes ligados ao consumo podem ativar sistemas cerebrais relacionados ao desejo antes mesmo que a pessoa perceba conscientemente o que está acontecendo. O cheiro de uma bebida, o som característico de um bar, a visão de determinadas pessoas ou mesmo certas músicas podem desencadear respostas automáticas profundamente enraizadas. 

Evitar esses contextos durante essa fase inicial não é sinal de fraqueza. É sinal de inteligência. 

O alpinista experiente não desafia uma avalanche para provar sua coragem. Ele aprende a reconhecer as condições que aumentam desnecessariamente o risco. O mesmo princípio vale para a sobriedade. 

Nos primeiros dias, a tarefa não é demonstrar força, mas preservar energia. Há batalhas suficientes acontecendo dentro de você para que ainda precise lutar contra todos os cenários externos ao mesmo tempo. 

DURMA COMO SE FOSSE TRATAMENTO MÉDICO 

“Uma mente agitada faz um travesseiro inquieto.” (Charlotte Brontë) 

Poucas práticas possuem impacto tão decisivo sobre a sobriedade quanto o sono. Ainda assim, poucas são tão negligenciadas. 

Existe uma crença disseminada de que o álcool ajuda a dormir. E sim, eu acreditei nisso, pois apagava quando bebia. A verdade é mais complexa. Embora produza sedação inicial, o álcool compromete a qualidade e a arquitetura do sono. 

Quando a bebida desaparece, o cérebro precisa reaprender a dormir. Esse processo nem sempre é confortável. Em muitos casos, as primeiras semanas são marcadas por despertares frequentes, sonhos intensos e sensação de fadiga. 

Esses sintomas podem fazer parte do processo de readaptação do organismo, mas não devem ser romantizados ou ignorados quando forem intensos ou persistentes. Nesses casos, também é importante procurar orientação profissional. 

Do ponto de vista neurobiológico, dormir bem não é apenas uma questão de descanso. É parte do cuidado terapêutico. A privação de sono compromete funções executivas, reduz a capacidade de autocontrole, aumenta a impulsividade e pode intensificar a fissura. 

Proteger o sono, não apenas hoje, mas durante o primeiro mês, não significa abandonar responsabilidades e compromissos. Significa compreender que nenhuma produtividade compensa um cérebro exausto tentando resistir ao impulso de retornar ao padrão anterior. 

NÃO É FÁCIL, MAS É SIMPLES 

Há muito a ser feito para que a decisão de parar de beber se transforme em sobriedade e se sustente ao longo da vida. E é preciso dizer que, para muitos alcoolistas, não é fácil. Mas pode ser simples. 

Se você decidiu parar hoje, questionamentos como “será que eu consigo?” podem surgir. E não há problema nisso. O importante é não concentrar toda a atenção neles, mas realizar ações que lhe devolvam o protagonismo da própria vida. 

Então, coma antes de sentir fome. Não vá a lugares onde haja álcool. 

Se houver bebida em sua casa, jogue fora. Se pertencer a outra pessoa, peça que ela dê um fim ou a retire de sua vista, sem lhe dizer se escondeu ou onde a escondeu. 

Prepare o corpo para dormir cedo. Veja se a roupa de cama está limpa, se o travesseiro está confortável. Escove os dentes, beba água e agradeça pela nova vida que está construindo. 


Rafa Pessato