ALCOOLISMO: 4 observações sobre os PRIMEIROS DIAS SEM ÁLCOOL 

Eu olhei para o precipício, e ele me olhou de volta, como se me convidasse a saltar. 

Estava feito. 

Soube tarde demais do alerta de Nietzsche: 

“Quando você olha por muito tempo para um abismo,
o abismo também olha para dentro de você.” 

Se tivesse compreendido antes, talvez tivesse fechado os olhos, o coração, a alma. Mas, quando se está tão cansado de buscar respostas para curar feridas invisíveis, o desejo é se lançar e adormecer nas profundezas do abismo. 

Eu me lancei. Contudo, o sono não foi tão longo. 

Ainda vulnerável na cama do hospital, sem sentir o movimento do meu pé e sem receber respostas da equipe médica, decidi aceitar minha situação e, a partir daquele instante, seguir sem o álcool. 

Antes daquele dia, eu não me via como alcoolista. Na realidade, comecei a compreender um pouco melhor essa doença enquanto vivia a abstinência. 

Ao voltar para casa depois da internação, abri a porta e vi tudo no mesmo lugar. Tudo estranhamente limpo e, ainda assim, familiar e desconfortável. 

Não sei se pensava sobre a casa ou sobre mim. 

Percebo agora, parar de beber é como abrir a porta de uma casa abandonada dentro de si. A princípio, a luz entra tímida, revelando poeira, sombras e ecos de um passado que insiste em se fazer presente. 

Nos primeiros dias sem álcool, o corpo e a mente entram em um processo de reconstrução — por vezes, turbulento. 

Antes de continuar, porém, é preciso dizer algo importante: a abstinência de álcool pode ser perigosa. Para algumas pessoas, especialmente aquelas que bebem grandes quantidades ou fazem uso frequente há muito tempo, como era meu caso, parar repentinamente pode provocar confusão mental, alucinações, convulsões e outras complicações.  

O CORPO GRITA, MAS A MENTE SUSSURRA 

Os primeiros dias sem álcool podem ser uma tempestade bioquímica. 

O corpo, acostumado à presença regular da substância e às alterações que ela produz no sistema de recompensa, começa a protestar. Pode ser na forma de suor, insônia, tremores, irritação ou uma ansiedade tão intensa que parece não caber no próprio corpo. 

Mas o que assusta mesmo é o que acontece na mente. 

Lembra-se do precipício? 

Ele continua a encarar você. E, sem o álcool para anestesiar o medo e o desejo de se lançar, você se agarra como pode, oscilando entre frases como: “Está tudo bem, nem sinto falta da bebida” e “Não dá mais, preciso sair daqui”. 

A mente sussurra ruidosamente medos antigos, dúvidas, arrependimentos. 

É preciso lembrar, porém, que pensamentos não são verdades absolutas. Muitas vezes, são ecos de experiências que agora você tem a oportunidade de compreender e ressignificar. 

Digo isso não apenas porque aprendi nos livros, mas porque continuo vivendo essa reconstrução. 

Nesse momento, o caminho não é lutar desesperadamente contra cada pensamento, fugir dele ou se prender a ele. É aprender, aos poucos, a permanecer. 

Respire fundo. Volte ao presente. Cerque-se de pequenas âncoras que possam oferecer alguma segurança e estabilidade: uma caminhada, uma conversa com alguém de confiança, um livro, uma música ou o acompanhamento de um profissional. 

A sobriedade precisa ser encarada com gentileza. 

E o desconforto não é necessariamente um castigo. Muitas vezes, é o sinal de que algo real está acontecendo. 

E isso pode parecer assustador, mas também é um bom sinal. 

A VELOCIDADE DO RELÓGIO MUDA 

Quando o álcool sai de cena, não é apenas o corpo que estranha. O tempo também parece mudar de ritmo. 

O álcool pode parecer inofensivo, mas muda nossa vida em vários aspectos, inclusive em nossa percepção do tempo — e não apenas no soar dos ponteiros do relógio. 

Um gole acelera a noite. Um porre apaga horas inteiras. 

Sem ele, os dias ganham uma nitidez assustadora. De repente, cada instante parece mais longo, e cada silêncio vem carregado de ruído. Um minuto pode se transformar em uma eternidade quando se está atravessando o desejo de beber. 

O filósofo Henri Bergson diferenciava o tempo marcado pelo relógio daquele que é vivido pela consciência. E, nos primeiros dias sem álcool, esse tempo vivido pode se arrastar como nunca. 

A boa notícia? 

Essa sensação muda. 

Mas, enquanto não muda, é preciso aprender a lidar com essa nova percepção sem se perder na ansiedade. Transtornos de ansiedade aparecem com frequência ao lado do transtorno por uso de álcool, mas cada pessoa possui uma história e uma condição clínica diferentes. Por isso, sintomas persistentes ou muito intensos precisam ser avaliados por um profissional. 

Pequenos rituais ajudam a sustentar esse espaço sem preenchê-lo imediatamente com outra substância, compulsão ou comportamento. 

Mais do que apenas passar o tempo, o desafio é aprender a habitá-lo de verdade. 

Pouco a pouco, a lentidão pode se transformar em presença. O que antes parecia um castigo começa a se revelar como uma oportunidade de se reconectar consigo mesmo. 

ALGUMAS PESSOAS VÃO ESTRANHAR — E VOCÊ TAMBÉM 

Ninguém avisa, mas o mundo nem sempre sabe lidar bem com mudanças. 

Seus amigos de bar podem fazer piadas. Sua família pode se preocupar ou perguntar: 

“Mas nem uma taça de vinho?” 

E até você pode sentir que está traindo alguma parte de si mesmo. 

O hábito de beber pode estar tão entrelaçado à rotina, às relações e à identidade que, no começo, a sobriedade parece um papel que não nos pertence. 

Antonio Damasio escreve sobre a participação das emoções e das experiências corporais na construção contínua do nosso senso de identidade. Quando você modifica um hábito tão enraizado, pode se sentir, durante algum tempo, como um estranho dentro da própria pele. 

Esse estranhamento é sinal de reconstrução, afinal, essa nova vida é realmente uma novidade. 

Uma nova maneira de existir precisa de tempo para nascer. E, como qualquer transformação real, essa também vem acompanhada de dúvidas, resistência e uma vontade ocasional de voltar para aquilo que era conhecido — mesmo que o conhecido estivesse destruindo você. 

Com o tempo, essa sensação passa? 

Ela pode mudar. 

O que hoje parece estranho tende a se tornar mais familiar. Novas rotinas ocupam o lugar das antigas, outras conexões surgem, e você começa a se reconhecer nessa nova fase. 

Até lá, tenha paciência consigo mesmo. 

Você não está simplesmente deixando de ser quem era. Está descobrindo novas camadas de si. Algumas sempre estiveram aí. Outras serão constituídas ao longo do caminho. 

Isso também faz parte do processo — desde que você esteja realmente disposto a encará-lo. 

AS EMOÇÕES VOLTAM COM FORÇA TOTAL 

Às vezes, a gente caía bêbado no abismo, mas o álcool funcionava como um grande amortecedor emocional. 

Quando ele sai de cena, os sentimentos podem voltar a operar em volume máximo. 

Pequenas frustrações parecem tragédias. Alegrias inesperadas podem levar às lágrimas. Memórias que pareciam enterradas batem novamente à porta daquela casa abandonada. 

Isso ocorre porque o organismo está reaprendendo a lidar com o prazer, o sofrimento, a frustração e o alívio sem recorrer ao mesmo atalho químico. 

O turbilhão emocional pode ser tão intenso que, por um momento, a única saída parece ser beber novamente. O cérebro, acostumado a buscar alívio imediato, tenta convencer você de que um único gole resolveria tudo. 

Mas essa é uma armadilha. 

Um atalho que costuma levar de volta ao mesmo lugar. 

Por isso, tenha paciência consigo mesmo. 

Quando esses pensamentos surgirem, não precisa lutar contra eles como se fossem monstros, mas também não precisa alimentá-los ou obedecer-lhes. 

Você pode criar um gesto simbólico, como passar a mão pela testa, como se estivesse apagando a ideia antes que ela se instale. Pode dizer a si mesmo: “É apenas um pensamento. Não é uma ordem”. 

Respire fundo. 

Sinta. 

Deixe a emoção chegar e partir, sem exigir que ela desapareça imediatamente. 

Procure ajuda quando perceber que não consegue atravessá-la sozinho.  

Com o tempo, os altos e baixos podem se tornar menos extremos, e você redescobre algo poderoso: a possibilidade de viver genuinamente, sem precisar de atalhos químicos. 

SOBRE AS PRÓXIMAS PÁGINAS 

Os primeiros dias sem álcool não são apenas um processo de desintoxicação física. São o início de uma reconstrução profunda. 

E ainda bem. 

Talvez seja somente ao compreender isso que parar de beber comece realmente a fazer sentido. 

Você não está apenas eliminando uma substância. Está reaprendendo a existir sem ela. 

Sua relação com o tempo muda. Suas emoções voltam a ganhar intensidade. Sua percepção sobre si mesmo se transforma. 

É como reabrir aquela casa abandonada e perceber que ainda existe vida lá dentro. 

No entanto, é preciso paciência para colocar tudo em ordem. 

É fácil? 

Não. 

Há dias de um desconforto quase insuportável, nos quais cada célula do corpo parece pedir aquilo que você prometeu abandonar. 

Mas, ao dizer sim para essa nova vida, apesar da dor e do desconforto, pouco a pouco, a ansiedade pode diminuir, as emoções começam a fazer algum sentido e você assume a posse do próprio lar. 

Talvez o precipício ainda exista. 

A diferença é que, agora, você não precisa saltar toda vez que ele chamar pelo seu nome. 


Rafa Pessato