Sobriedade
Parar de beber não representa, necessariamente, sobriedade.
Essa foi uma das descobertas mais importantes que fiz desde que interrompi o consumo de álcool.
Durante muito tempo, imaginei que a grande mudança aconteceria no dia em que eu deixasse de beber. Descobri, com o tempo, que esse era apenas o começo.
Foi justamente essa experiência que despertou meu interesse em compreender a sobriedade para além da abstinência.
Do ponto de vista clínico, interromper o consumo de álcool é uma condição fundamental para a recuperação do Transtorno por Uso de Álcool. As evidências científicas mostram que a recuperação envolve mudanças graduais nos aspectos biológicos, psicológicos, emocionais e sociais da vida da pessoa.
Essa compreensão dialoga com a minha própria experiência.
Porque, quando o álcool deixa de ocupar o centro da vida, outras perguntas inevitavelmente aparecem.
Quem sou eu sem ele?
Como lidar com o sofrimento?
O que fazer com o tempo, os vínculos e as emoções que antes eram anestesiados?
Foi então que compreendi que a sobriedade não consiste apenas em abandonar uma substância.
Ela exige reconstruir uma forma de viver.
Neste projeto, compreendo a sobriedade como um processo de reorganização da relação consigo mesmo, com os outros e com o mundo.
Ela envolve recuperar a capacidade de escolher, reconhecer limites, construir novos vínculos e encontrar outras formas de enfrentar o mal-estar sem recorrer ao álcool.
Por isso, não vejo a sobriedade como um estado de perfeição, nem como um destino definitivo.
Ela é um caminho.
Um exercício permanente de presença, responsabilidade e liberdade.
A liberdade não aparece como uma conquista instantânea.
Ela é construída nas pequenas escolhas do cotidiano, quando deixamos de responder automaticamente ao sofrimento e passamos a criar novas possibilidades de existência.
Se o alcoolismo despertou meu interesse pela experiência da adicção, foi a sobriedade que ampliou essa investigação.
Ela mostrou que interromper o consumo de álcool é apenas uma parte da transformação.
A pergunta que permanece é outra:
como reconstruir uma vida que já não dependa do álcool para encontrar alívio, prazer ou sentido?
É essa pergunta que continua orientando os ensaios publicados neste espaço.