QUANDO PARAR DE BEBER EXIGE MAIS DO QUE UM MARTELO 

Como ferramentas simples de planejamento podem ajudar a compreender o terreno da sobriedade e transformar uma decisão em ações concretas. 

Há uma ideia conhecida, popularizada pelo psicólogo Abraham Maslow, que ficou comigo:

quando temos apenas um martelo, é tentador tratar tudo como se fosse um prego.

Quando parei de beber, essa imagem ganhou outro sentido. 

Passei anos recorrendo ao álcool diante de situações muito diferentes. Ansiedade, comemoração, frustração, cansaço, encontros sociais, tédio, medo, alegria. Problemas diferentes acabavam encontrando uma resposta parecida. 

O álcool havia se tornado uma espécie de martelo.  

Quando parei de beber, precisei vasculhar minha caixa de ferramentas. 

E, para meu espanto, ela estava cheia. 

A CAIXA JÁ ESTAVA LÁ 

Tenho formação interdisciplinar; jornalismo, psicanálise, sociologia, neurociência, filosofia e até transações imobiliárias. Cada área me ensinou maneiras diferentes de perguntar, investigar, organizar problemas, observar pessoas, lidar com imprevistos e tomar decisões. 

Mas seria um erro concluir que essa caixa depende de formação acadêmica. 

Penso na minha mãe. 

Mineira, perdeu os pais ainda adolescente e precisou cuidar dos irmãos mais novos. A vida exigiu dela capacidades que nenhum diploma necessariamente ensinaria: resolver problemas com poucos recursos, suportar incertezas, cuidar, negociar, improvisar, insistir, reconhecer riscos. 

Sua trajetória encheu uma caixa de ferramentas. 

A nossa história também faz isso. 

Trabalho, maternidade, amizade, estudo, dificuldades financeiras, mudanças, lutos, relacionamentos, crises e decisões aparentemente banais vão nos ensinando coisas. Nem sempre damos nome ao que aprendemos, mas isso não significa que o aprendizado não exista. 

Talvez uma das dificuldades diante do alcoolismo seja justamente esta: podemos agir como se não soubéssemos fazer nada daquilo que sabemos fazer em outras áreas da vida. 

Duas ferramentas que eu conhecia de outros contextos fizeram bastante sentido para mim: a matriz SWOT — também chamada, em português, de matriz FOFA — e o 5W2H. 

Como decidi não recorrer daquela vez a tratamentos formais para o alcoolismo, essas ferramentas (entre muitas outras) ajudaram na minha reconstrução. 

E, naquele momento, pensar o problema de outra maneira fez a diferença. 

OLHAR O PROBLEMA ANTES DE TENTAR RESOLVÊ-LO 

A matriz SWOT organiza uma análise em quatro dimensões: forças, fraquezas, oportunidades e ameaças. 

As duas primeiras olham para nossas condições internas; as outras duas, para o ambiente. 

Aplicada à nossa relação com o álcool, ela pode produzir perguntas bastante concretas. 

Quais são minhas forças? 

Talvez eu já tenha conseguido ficar períodos sem beber. Talvez saiba pedir ajuda. Talvez tenha disciplina em outras áreas da vida. Talvez reconheça com bastante clareza o que o álcool está fazendo comigo. 

E minhas fraquezas? 

Posso ter dificuldade em dizer não. Posso beber quando estou ansioso. Posso esquecer rapidamente as consequências depois que passa uma ressaca. Posso ainda não saber atravessar determinados sentimentos sem recorrer ao álcool. 

Mas existe também o lado de fora. 

Que oportunidades existem ao meu redor? 

Uma pessoa com quem posso conversar. Um ambiente no qual não preciso beber. Tratamento disponível. Um grupo. Uma mudança de rotina. Informação que antes eu não tinha. 

E quais são as ameaças? 

Talvez minha vida social esteja quase inteiramente organizada em torno da bebida. Talvez haja álcool disponível o tempo todo em casa. Talvez algumas relações dificultem minha decisão. Talvez determinados horários, lugares ou situações estejam fortemente associados ao consumo. 

O exercício parece simples, mas muda uma coisa importante. 

O problema deixa de ser apenas: 

“Será que tenho força de vontade suficiente para parar?” 

E passa a incluir outras perguntas: 

Com quais recursos eu conto? Onde sou vulnerável? O que no meu ambiente favorece a mudança? O que a dificulta? 

Depois de compreender melhor o terreno, outra ferramenta me ajudava a pensar no que fazer com aquilo que eu havia observado: o 5W2H. 

O nome parece mais complicado do que é. Ele organiza uma ação a partir de sete perguntas: o quê, por quê, onde, quando, quem, como e quanto. 

Se a SWOT me ajudava a enxergar o terreno, o 5W2H me ajudava a pensar como caminhar por ele. 

Não bastava reconhecer, por exemplo, que determinadas situações sociais eram uma ameaça. 

Eu podia perguntar: 

O que farei diante delas? 

Por que essa mudança é importante para mim? 

Quando precisarei me preparar melhor? 

Onde costumo ficar mais vulnerável? 

Quem pode me ajudar? 

Como vou agir quando a situação acontecer? 

Quanto essa escolha exigirá de mim — em dinheiro, tempo, energia, mudanças ou renúncias? 

“Parar de beber” continuava sendo uma decisão enorme. 

Mas já não precisava permanecer como um problema enorme e indistinto. 

Eu podia observá-lo, dividi-lo e escolher ferramentas diferentes para partes diferentes dele. 

PLANEJAR NÃO É CONTROLAR TUDO 

Nem a SWOT nem o 5W2H foram criados para tratar alcoolismo. Contudo, pesquisas sobre mudança de comportamento evidenciam que transformar intenção em planos específicos pode ajudar.  

Um conceito estudado na psicologia comportamental são as chamadas intenções de implementação: antecipar uma situação e vincular a ela uma resposta — algo próximo de “se X acontecer, então farei Y”. 

Em vez de apenas pensar “não vou beber”, por exemplo: “se me oferecerem álcool, pedirei outra bebida”; “se eu sentir vontade de beber depois do trabalho, farei determinada coisa antes de decidir se vou beber”. 

Uma sobre álcool, por exemplo, encontrou um efeito pequeno desse tipo de planejamento sobre o consumo semanal, mas não sobre episódios de consumo pesado. Há limitações importantes nas evidências. 

Portanto, planejamento não resolve o alcoolismo. 

Também não elimina desejo, fissura, sofrimento, ambivalência ou todas as circunstâncias que envolvem o consumo. 

Ainda assim, faz algo muito necessário: 

ajuda a dar forma a dificuldades nebulosas, transformando-as em problemas que conseguimos enxergar e enfrentar concretamente. 

NEM TODO PROBLEMA É PREGO 

Durante muito tempo, beber podia responder a muitas perguntas, mesmo sem saber que elas existiam. Dessa forma, parecia que o problema era o álcool. Mas quando ele sai, as perguntas reaparecem com outros nomes.  

Ansiedade não é comemoração. Solidão não é cansaço. Uma festa não é uma crise. Uma vontade intensa de beber não é o mesmo problema que não saber o que fazer numa sexta-feira à noite. 

Se os problemas são diferentes, as respostas também podem ser. Mas, suponha que, ao vasculhar sua caixa, você acredite ter apenas um martelo. 

Ainda assim, a resposta não é usá-lo com mais força.  

A palavra nesse momento é: criatividade. 

Olhar novamente para o martelo. Olhar novamente para o prego. Perguntar se aquilo que durante anos pareceu um único problema não é, na verdade, feito de muitos. 

Porque “meu problema é o álcool” pode conter muitas outras coisas. 

O desejo de pertencer. O medo de ficar de fora. A dificuldade de suportar determinadas emoções. O hábito. A fissura. O ambiente. As relações. As associações construídas ao longo dos anos. A função que beber adquiriu naquela vida. 

E olhar novamente para aquilo que temos à disposição também importa. 

Talvez você tenha chamado de força de vontade aquilo que também contém persistência, capacidade de aprender, experiência, disciplina, curiosidade, coragem para pedir ajuda ou disposição para tentar uma resposta diferente. 

Há ainda as histórias que contamos sobre nós mesmos. 

“Eu não consigo.” 

“Sempre fui assim.” 

“Não sei viver sem beber.” 

E existem as histórias que recebemos dos outros: imagens do que seria um “alcoolista”, do que significa ter um problema com álcool, de quem consegue parar, de quem fracassa, de como alguém sóbrio deveria viver. 

Algumas dessas histórias podem descrever partes da nossa experiência. Outras podem nos impedir de enxergá-la. 

Talvez você nunca tenha ouvido falar em SWOT (FOFA) ou 5W2H. Não importa. Essas ferramentas fizeram sentido para mim, e posso ensinar a usá-las.  

A pergunta mais interessante é outra: 

o que você já aprendeu a fazer na vida e que pode ajudá-lo diante do alcoolismo? 

Talvez você saiba planejar. 

Talvez saiba reconhecer riscos. 

Talvez tenha aprendido a pedir ajuda. 

Talvez saiba começar novamente depois de uma perda. 

Talvez saiba estabelecer limites, estudar um problema, improvisar diante de um imprevisto ou simplesmente atravessar um dia difícil. 

Ao parar de beber aprendi muitas coisas. 

Mas, sobretudo, aprendi que nem tudo precisava ser aprendido do zero. 

Minha caixa de ferramentas já estava cheia. 

E, mesmo quando uma ferramenta parecia insuficiente, eu podia aprender a olhar de outra maneira para ela, para o problema e para as histórias que me diziam o que eu seria capaz — ou incapaz — de fazer. 

No fim, talvez essa seja uma das perguntas que a sobriedade nos faz: 

é mesmo de mais força que preciso — ou preciso enxergar de outro modo o que tenho diante de mim? 


Rafa Pessato