PARE DE TENTAR NÃO PENSAR EM ÁLCOOL

“Quem combate monstros deve cuidar para não se tornar também um monstro. E quando olhas longamente para um abismo, o abismo também olha para ti.”
(Friedrich Nietzsche)

Havia momentos nos quais me sentia fraca, mesmo sem beber já há alguns anos. Sentia vergonha por sentir vontade de beber. Eu chegava a sonhar com a bebida — ainda sonho.

Por algum tempo, pensei que isso significasse alguma coisa sobre a minha sobriedade. Como se pensar em álcool, desejar ou sonhar com a bebida revelasse uma espécie de falha escondida.

Mas uma das armadilhas da sobriedade consiste justamente em transformar o álcool no centro absoluto da atenção.

Muitas pessoas acreditam que a sobriedade exige uma vigilância permanente contra qualquer pensamento relacionado à bebida. O problema é que a mente não obedece de maneira tão simples a ordens como: “não pense nisso”.

Em um experimento clássico realizado pelo psicólogo Daniel Wegner e seus colaboradores, participantes receberam uma instrução aparentemente simples: não pensar em um urso branco. O resultado foi paradoxal.

Quanto mais tentavam expulsar aquela imagem da mente, mais difícil se tornava mantê-la afastada. Posteriormente, Wegner desenvolveu a ideia dos chamados processos irônicos de controle mental: em determinadas condições, o próprio esforço para vigiar se estamos pensando em alguma coisa mantém essa coisa mentalmente acessível.

Isso ajuda a compreender por que algumas tentativas de “não pensar em álcool” podem acabar produzindo justamente o contrário.

E talvez exista aqui outro equívoco: pensar não é fazer. Sentir não é decidir.

A vontade de beber não precisa ser interpretada como uma falha moral nem, isoladamente, como sinal de uma recaída iminente. Ela pode aparecer mesmo durante a recuperação. Afinal, durante muito tempo o álcool pode ter sido associado ao prazer, ao alívio, a determinadas pessoas e lugares ou à tentativa de regular emoções.

Até os sonhos merecem alguma cautela.

Do ponto de vista psicanalítico, sonhar com álcool não significa simplesmente: “no fundo, quero voltar a beber”. Para Freud, o sonho não deve ser lido literalmente. Ele é uma formação psíquica na qual lembranças, desejos, conflitos, medos e experiências podem aparecer transformados, condensados e deslocados.

Portanto, o álcool aparecer em um sonho não constitui uma confissão secreta de intenção.

Talvez seja apenas mais uma forma pela qual nossa história continua falando.

O impulso torna-se menos perigoso quando deixa de ser tratado automaticamente como uma ordem.

Existe uma diferença profunda entre afirmar “quero beber” e reconhecer “estou sentindo vontade de beber”.

Quando você diz “quero beber”, a vontade pode aparecer quase como uma decisão: eu quero, portanto vou beber. A linguagem aproxima o sujeito do impulso, como se desejar e agir fossem praticamente a mesma coisa.

Quando você diz “estou sentindo vontade de beber”, acontece uma pequena mudança: você percebe que a vontade é algo que está acontecendo em você, mas não é tudo o que você é — e não precisa mandar em você.

“Quero beber” aproxima vontade e ação.

“Estou sentindo vontade de beber” coloca uma pequena distância entre as duas.

E, nessa distância, surge a possibilidade de escolher.

É nesse pequeno espaço entre o impulso e o ato que uma forma concreta de liberdade pode reaparecer.

Liberdade, aqui, não significa deixar de sentir vontade. Nem deixar de pensar em álcool.

Significa algo talvez mais importante:

a vontade deixou de ser automaticamente uma ordem.

Talvez a sobriedade não consista em nunca mais olhar para o abismo.

Talvez consista em descobrir que podemos olhar para ele sem precisar cair.


Rafa Pessato