ESPELHO, ESPELHO MEU, SEM O ÁLCOOL, QUEM SOU EU? 3 modos de investigar essa questão

Perguntei, insistentemente, mas ele não respondeu. Apenas devolveu: “Reflita você”. 

Pura inocência a minha, ou desespero, acreditar que ele saberia. Espelhos nascem espelhos. Rafaelas, Paulos, Marias, Josés e demais sujeitos, por outro lado, são constituídos no próprio existir. 

Antes que você pergunte: “Ah! Mas então ninguém nasce alcoolista?”, deixe-me pontuar. 

Pense em você, bebezinho. Ao nascer, você não se reconhece como indivíduo. Você possui um nome que lhe foi dado, nasceu em determinada região, dentro de uma família x ou y, que vivia de um modo específico, moldado ao longo de gerações. 

Esse bebezinho traz uma impressão digital, assim como características neurobiológicas próprias, podendo ser, desde o nascimento, mais propenso ao uso abusivo de substâncias químicas e ao desenvolvimento de dependência. Mas, da possibilidade à adicção efetiva, há a própria existência. E é nesse existir que esse “eu” se forma, o que nos confere liberdade e responsabilidade. 

O NIAAA, instituto norte-americano de referência em pesquisas sobre álcool, confirma isso, ao apontar que fatores genéticos e ambientais interagem no cérebro e influenciam a vulnerabilidade de cada pessoa ao transtorno. Ou seja, há o corpo, há cérebro, há história, há ambiente. Mas também há possibilidade. 

Como bem escreveu Viktor Frankl em Em busca de sentido: “Cada pessoa é questionada pela vida; e ela somente pode responder à vida respondendo por sua própria vida; à vida ela somente pode responder sendo responsável”. 

Ou seja, não há espelho ou outro ser mágico que nos responda sobre quem somos. Nós mesmos precisamos empreender essa busca, que não se limita a alcoolistas, sendo essa uma das grandes questões da humanidade. 

No caso do alcoolista — e aqui me refiro ao que não faz mais uso do álcool — há o mergulho em busca de uma resposta após interromper uma relação muito simbiótica com uma substância que alterou sua neurobiologia, sua rotina, seus afetos, sua memória, sua forma de estar no mundo e, muitas vezes, sua maneira de suportar a si mesmo. 

E em vez de refletir sobre esse “quem sou” a partir do lugar atual, é comum lançar o olhar ao passado na busca de recuperação, como se fosse possível recuperar um “eu” que talvez nem tenha existido. 

Se eu sou um ser que não nasceu pronto, que se constituiu ao longo de uma trajetória, esse eu sóbrio também não é um ser pronto, e não deve tentar ser quem era antes do alcoolismo. 

E isso é muito importante de ser observado, pois alguns alcoolistas, ao tornarem-se sóbrios, tentam compreender quando começaram a abusar do consumo na esperança de voltar a beber, mas agora de maneira controlada. 

Só que, no caso de muitas pessoas com Transtorno por Uso de Álcool, essa busca pelo “ponto anterior” pode ser uma armadilha. Não se trata apenas de voltar a uma fase antiga da vida, como quem restaura uma versão anterior de um arquivo. A própria relação com o álcool já não é mais a mesma. O corpo não é o mesmo. A memória não é a mesma. O cérebro não é o mesmo. A vida não é a mesma. 

Ou seja, “somos quem podemos ser”. 

Note, a música do grupo Engenheiros do Hawaii não diz “somos quem queremos ser”, mas “somos quem podemos ser”, e completa com “sonhos que podemos ter”. 

E talvez exista uma sabedoria enorme nisso. Porque a sobriedade não é o momento em que finalmente posso ser qualquer coisa. É o momento em que começo a reconhecer, com mais honestidade, quais são minhas possibilidades reais, minhas vulnerabilidades, meus limites e meus desejos. 

MAS AFINAL, QUEM SOU EU SEM O ÁLCOOL? 

O espelho me mandou refletir e eu acatei. 

Observei, identifiquei, implementei na minha própria vida quando parei de beber e compilei 3 modos de agir para sustentar essa reflexão. 

1. ACEITAÇÃO DA SOBRIEDADE COMO RECONSTRUÇÃO 

O filósofo Sartre defendia que somos aquilo que fazemos com aquilo que fizeram de nós. E talvez essa frase caiba muito bem aqui. 

Porque sim, há uma história. Há marcas. Há perdas. Há cenas que gostaríamos de apagar. Há escolhas que gostaríamos de não ter feito. Há versões nossas que nos constrangem, que nos entristecem, que nos assustam. 

Mas a pessoa que você era sob efeito do álcool não precisa definir quem você será daqui para frente. 

Sobriedade não é perda. É possibilidade. 

Mas, para que essa possibilidade se concretize, é preciso abandonar a fantasia de que parar de beber significa apenas “voltar ao normal”. Muitas vezes, o normal era justamente o lugar onde adoecíamos em silêncio. 

Aceitar a sobriedade como reconstrução é compreender que não estou apenas retirando o álcool da minha vida. Estou reorganizando minha forma de existir sem ele.  

2. COMPROMETIMENTO NA CONSTRUÇÃO DE UM “EU” ATIVO 

O neurocientista Antonio Damasio mostra que emoções, corpo e memória participam da construção daquilo que chamamos de “eu”. Não somos uma consciência flutuando acima da vida. Somos corpo, sensação, lembrança, interpretação, afeto. 

Mas se as suas memórias foram, por muito tempo, mediadas pelo álcool, então agora é hora de criar novas memórias onde você seja protagonista, não um espectador anestesiado. 

E aqui há um ponto importante: a sobriedade não pode ser apenas uma ausência. 

“Não bebi hoje.” 

Ótimo. Às vezes, isso é tudo. E, em alguns dias, isso é uma vitória imensa. 

Mas, com o tempo, a pergunta precisa se ampliar: além de não beber, o que estou construindo? 

Porque existe uma diferença entre estar sem álcool e estar em sobriedade. 

Estar sem álcool pode ser apenas interrupção. 

Estar em sobriedade exige presença, direção e autoria. 

É nesse sentido que falo de um “eu” ativo. Não ativo no sentido produtivista, como se a pessoa sóbria precisasse virar atleta, empreendedora, palestrante, monge ou influencer fitness. 

Não. Falo de atividade existencial. 

A capacidade de participar da própria vida. De não apenas reagir. De não viver sempre no modo incêndio. De não transformar toda emoção em urgência. De não transformar toda frustração em desculpa. De não transformar toda lembrança em sentença. 

O “eu” ativo não é aquele que controla tudo. É aquele que começa a responder por si. 

E responder por si não significa se culpar por tudo. Culpa paralisa. Responsabilidade movimenta. Culpa diz: “eu estraguei tudo”. Responsabilidade pergunta: “o que posso fazer agora com o que ainda existe?”  

3. RESSIGNIFICAÇÃO DE CONCEITOS E POSSIBILIDADES 

A sobriedade não precisa ser uma eterna luta contra o passado, mas um movimento presente em direção ao futuro. 

E talvez uma das partes mais difíceis seja justamente ressignificar palavras que, por muito tempo, pareciam pertencer ao álcool. Como, diversão, coragem, leveza, socialização, descanso, desejo e tantas outras.  

Aqui entra a tarefa filosófica da sobriedade: ressignificar conceitos. Ressignificar é olhar para uma palavra antiga e atribuir-lhe um novo significado.  

O sentido da vida, o qual é constituído por conceitos, não é algo fornecido por espelhos mágicos, ou encontrado pronto, escondido em alguma gaveta metafísica, esperando que sejamos suficientemente maduros para descobri-lo. O sentido é algo que construímos a partir das possibilidades, potencialidades e vulnerabilidades. 

Frankl não falava de sentido como enfeite. Falava de sentido como resposta. 

E talvez seja isso que o alcoolista, agora sóbrio, precise compreender: a pergunta “quem sou eu sem o álcool?” não será respondida em um único dia, nem em uma única terapia, nem em uma única conversa, nem em um único aniversário de sobriedade. 

Ela será respondida vivendo, em um processo de construção, desconstrução e reconstrução.  

Hoje eu sei melhor quem eu sou, mas saber-se é um empreendimento para a vida toda. 

Amanhã talvez eu saiba um pouco mais. Ou não. 

E você, já se perguntou quem é você sem o álcool? 


Rafa Pessato